LEXIOLOGIA

57 — Conhecida a constituição íntima das palavras, na fonética, e a representação gráfica destes elementos sonoros, na ortografia, passamos, naturalmente, ao estudo da formação dos vocábulos, dâ sua classificação bem como ao conhecimento das suas variações para que possam expressar o gênero, o número, o grau e as pessoas gramaticais. Dá-se a esta parte da gramática o nome de lexiologia. É o estudo do vocábulo em si mesmo, ainda sem relação de dependência alguma com outros na formação da frase, considerando-o sob os seguintes aspectos, todos interessantíssimos:

a) quanto à constituição da forma propriamente dita: a morfologia;

b) quanto à distribuição~em categorias: a taxinomia;

c) quanto às flexões na indicação do gênero, do número, do grau e das pessoas gramaticais: a campenomia;

d) quanto às mudanças de significação: a semântica.

Dividiremos, portanto, esta parte da gramática em quatro seções, segundo este quadro sinótico:

LEXIOLOGIA:

Morfologia Taxinomia Campenomia Semântica

É mais um conceito explanado pelo Don Juan de Castaneda, especialmente no livro Viagem a Ixtlan. O guerreiro, na busca por poder pessoal, está sempre a espreita para agarrar esse instante mágico de espaço e tempo com tenacidade. Uma pequena ocasião pode mudar toda a sua vida e o modo como o poder se acumula. No mundo ocidental, existe uma mistura entre a noção de sucesso e a escalada social, que gera muitos equívocos graves e constantes, com o paradigma das realezas misturando-se ao plano divino, o que é expresso, por exemplo, na construção jurídica do direito divino do rei. Como se apenas a vida aristocrática do kalos kagatho platônico se verificasse, além de politicamente, também espiritualmente.

A esse respeito, Max Heindel, no capítulo XII (A época Atlante) do seu clássico Conceito Rosacruz do Cosmos, tem uma consideração interessante. Vale lembrar que o cerne da doutrina rosacruciana alega que manteve contato com certas tradições que traziam um conhecimento preservado desde a origem do mundo.

A segunda raça atlante foi a dos Tlavatlis. Começaram a sentir seu valor como seres humanos separados. Tonaram-se ambiciosos, pediam recompensa pelas suas obras. A memória tornou-se um importante fator na vida da comunidade. A recordação das proezas de alguns fez o povo eleger para Guia o que tivesse realizado feitos mais importantes. Foi o germe da realeza.

A lembrança das obras meritórias de algum grande homem permanecia depois da morte. A memória dos antepassados começou a ser honrada. Não só os antepassados, também outros que tivessem alcançado algum grande mérito foram honrados e adorados. Foi o princípio de certa forma de adoração, ainda hoje praticada por alguns asiáticos. (Max Heindel, Conceito Rosacruz dos Cosmos)

Apesar da ressalva, creio que ela não se aplica ao centímetro cúbico aproveitado por Paul Potts, ex-vendedor de celulares que ganhou um concurso inglês de revelação de talentos. O vídeo, que o Arddhu me indicou fez muito sucesso na internet. Diante de um juri inicialmente incrédulo ele confirma que não estava ali para brincar, mas confirmar sua vocação. Sua incrível performance surpreendeu a todos, levantando o público e deixando o júri embascado, totalmente envolvido. É um exemplo de Revolução de Sistemas.

Abaixo, uma das versões da performance.

Primeiramente, citemos o poema:

Oficina irritada
Carlos Drummond de Andrade

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

Agora, minha modesta interpretação:

O soneto decassílabo “Oficina Irritada” de Carlos Drummond de Andrade trata do fazer poético em um contexto específico: o das suas inspirações e implicações.

A unidade entre forma e conteúdo é observada já a partir do título e da enunciação motivacional expressa pelo eu lírico no 1º e 3º versos. Uma primeira hipótese pode afirmar que o soneto que se deseja fazer é o mesmo que estamos lendo. Mas talvez seja elemento de uma missão poética maior, significativa dentro do conjunto da obra, e para encorpar este dado basta lembra que a importante figura de linguagem “Clari Enigma” do último verso é o título de um dos livros mais importantes do Drummond, sendo a “Oficina Irritada” um de seus componentes.

Para ser coerente com seu objetivo, o poeta vale-se de vários recursos estilísticos e de uma elaboração precisa da linguagem. A repetição anafórica da expressão “Eu quero”, no 1º e 3º versos, por exemplo, sugere como motivacional da composição o rompante irritado, aquele que vem de longe e impõe, através da perplexidade que causa, o afastamento em relação ao mundo cotidiano e exercício conclusivo do fazer poético.

A fonte motivacional do poema é, portanto, longínqua e altaneira, embora destituída de moralidade. Podemos notar isso pelo elencamento dos nomes mencionados. O jorro mitológico da beleza de Vênus, deusa romana (cujo correspondente grego é Afrodite), é transmitido ao poeta, fazendo mister a transposição para o papel desta mensagem que tenta a significação do insignificável.

Como o ourives do fazer poético mencionado por Bilac, o poeta tem todos os recursos disponíveis para perseguir este intento, abrindo a palavra ao mundo fantástico e para ao absoluto; mostrando que a língua não é apenas um sistema (para isto até outro Sol é evocado) e que a realidade e riqueza interior do sujeito percipiente pode não se submeter a nenhum enclausuramente limitante que a expressão estruturante do sentido possa sugerir.

A pretensão de criar uma atmosfera de rara preciosidade, distante das preocupações rasteiras do cotidiano, mostra-se efetiva através do impacto profundo que causa: na grande estrela de Arcturus, surpresa, no vulgo, sofrimento. Só existe beleza na ordem (expressa por Vênus), mas o impulso da oficina busca ainda mais distante e primevo: o caos, também um deus mitológico, cuja figuração inusitada no poema rompe a rotina, trazendo a estranheza. Arcturus, tanto tempo indiferente ao uso superficial da linguagem, então, move-se: é atingido pelo fibribilação rítmica e impetuosa do rompante poético, auto-afirmadamente ousado.

Este movimento não encontra, como dissemos, ressonância cotidiana nem precursor, e isto podemos notar pela reafirmação da ausência de sujeito: “nenhuma”, “poeta algum” e “ninguém” (2x). O hermetismo é anunciado no quarto verso, quando é dito que o poema é “difícil de ler”. Para concretizá-lo, o recurso das metáforas é intensificado. Além do “cão mijando no caos”, também a figura do “tiro no muro” são confirmadores da irritação da oficina: a imprescindibilidade da missão chega mesmo à violência e ao escatológico para chocar e assim evitar qualquer obstrução ao afastamento voluntário.

A posteridade da oficina é considerada contraditoriamente, através do paradoxo que paralisa as cadeias comuns de pensamento. Do poema ninguém se lembrará, já que o vulgo prefere a aclimatação à dificuldade, a anestesia à dificuldade. O contraste, porém, é da ligação enfatizada com o eterno e atemporal, já que o oximoro dedicado a Arcturus, o “claro enigma”, é cheio de urgência e preponderância, mas também de permanência e repercussão inefável.

Algumas alusões intertextuais podem ser identificadas no estudo da obra. Por exemplo, podemos lembrar o início do poema épico de Camões, que urgem: “Cesse tudo que a Musa antiga canta/ que outro valor mais alto se alevanta” e também “Cantando espalharei por toda parte,/ se a tanto me ajudar o engenho e arte.” Já o dilema shakespeariano de Hamlet é lembrado no 8º verso, para ser, porém, negado. “Ser ou não ser” não são ali alternativas excludentes, mas complementares, e até mesmo indissolúveis – como o soneto de Drummond também pretende ser.

LINK: Análise do poema “Mundo Antigo” de Carlos Drummond de Andrade

A famosa pianista argentina Martha Argerich desbancou o pianista brasileiro Arthur Moreira Lima no “Chopin Competition” em 1965 (Warsaw), deixando para ele o segundo lugar na competição. O vídeo abaixo mostra sua performance vencedora. O sorriso que ela dá no mínuto 5:34 do vídeo mostra o porque de ter cativado os árbitros. Como que um coroamento arrebatador de um esforço comedido e de uma construção lenta e talentosa, o sorriso fez muitos caírem de amor pela sua simpatia, como se verifica facilmente nos comentários do vídeo.

Esta composição está notabilizada junto ao público por constar na trilha sonora do desenho animado do Pica-Pau

A convivência íntima do escritor Jorge Luís Borges com os livros o levou a descobrir, em suas consultas alfarrábicas, certos autores orientalistas que traziam uma informação interessante acerca de Averróis, o principal comentador Árabe de Aristóteles. Como é sabido, foi graças ao viço cultural do império islâmico durante o longo período histórico conhecido no Ocidente como Idade Média que os escritos clássicos gregos foram preservados e transmitidos até o presente. Porém, conta Borges em A busca de Averróis, no contexto do Islã, o filósofo árabe não tinha informação suficiente para entender o significado de certos conceitos, e, ao se deparar com as palavras gregas para “tragédia” e “comédia”, centrais na Poética, encontrou-se em dificuldades, sem poder precisá-las ao certo. Borges imagina um contexto em que a revelação teria sido soprada àquele sábio, ainda que inexatamente, o levando a concluir que a tragédia seriam os panegíricos e as comédias as sátiras do teatro grego.
Também conhecida e muito lamentada é a perda de vários escritos do filósofo, no caso da Poética, toda a parte relativa à Comédia, sua exposição e tratamento completos, são desconhecidos, preservando-se somente, no tratamento da tragédia, breves referências a esse outro gênero dramático. Essa situação, aliás, é central no famoso romance do italiano Umberto Eco, que imagina um mosteiro católico, durante o medievo, com uma notável biblioteca, a única capaz de fazer frente às centenas da pujante Bagdá. Esta biblioteca teria preservado o último exemplar do livro perdido de Aristóteles sobre a comédia, e isto dá início a uma série de assassinatos, já que o monge que guarda os segredos do acervo não quer trazer o escrito a público: em se tratando de Aristóteles, em que algumas linhas dão margem à centenas de páginas e décadas de discussão, o tratamento pagão é perigoso à moral da Cristandade, já que as querelas discutindo se Cristo teria ou não sorrido ao anunciar o Evangelho ainda encontravam grande repercussão. (desculpem os spoilers)

Mas sabemos que a tragédia é a imitação de homens de caráter elevado, a comédia de homens inferiores. “O Sonho de uma Noite” de verão de Shakespeare é uma comédia, embora misture, engenhosamente, vários outras nuances e situação dramáticas e românticas, o que pode ser uma das fontes, aliás, da sua riqueza e permanência. Isto talvez seja uma das causas que levam Shakespeare a retratar cotidianamente personagens de classe elevada. A aristocracia e a ação mítica, sempre imaginadas com grande reverência pelo povo que estava distante delas, é aproximada da vida real e popular através das situações cômicas.

A época de ouro do teatro elisabetano foi marcante por atender às expectativas da classe alta, mas também por popularizar o teatro em toda a sociedade inglesa, abrindo um importante precedente para a transmutação das formas e a multiplicidade de abordagens dos temas. A vitalidade do teatro londrino atraía o público e cotidianizava a cultura. Shakespeare, um autor de sucesso, no início enfrentou algumas dificuldades em vista disso, já que os zelotes da tradição não viam com bons olhos estas inovações.

Fundilhos, o personagem tecelão que é transformado num monstro com a cabeça de asno, tem a baixeza de suas aspirações emblematizada já em seu nome (Nick Bottom). Sua ingenuidade e aspiração ao sucesso e elevação social dão o principal tom cômico à peça, já que a rainha Titânia, enfeitiçada pela poção de amor despejada em seus olhos, o vê em primeiro lugar quando acorda, possibilitando a elevação do vulgo através da perda da identidade pessoal e contrapondo assim, o caos à ordem política, estabelecida e racional, de Teseu.

Uma das preocupações de Aristóteles ao traçar as características de uma boa tragédia é a preocupação com a verossimilhança, isto é, com a sua correspondência crível com a realidade. Os personagens da tragédia, para expressar o mito, devem servir de condutor coerente dos caracteres do mito para poder veiculá-lo, concretizando assim o papel da arte como imitação da vida e emprestando sentido real ao mundo alegórico da mitologia.

A tragédia é imitação de caráter elevado, então os personagens devem ser bons, evitando-se a maldade desnecessária. Devem agir com propensão, tendo em vista um fim. No sistema racionalista aristotélico, tudo tem seu lugar, especialmente ao lidar com a narrativa dramática, a ordenação de palavras na ficção que tinha um importante papel social e religioso na sociedade clássica.
O herói devia ser bom e constante para que o público pudesse identificar-se com ele, e, no decorrer das suas ações, a imputação da justiça cega do destino pudesse vir a tona, como uma força irresistível e implacável, traçada pelas moiras – aos quais o próprio Olimpo estava submetido, revertendo assim a sorte do herói, e causando a comoção catártica e a conseqüente a purificação dos maus sentimentos.

Na filosofia de Aristóteles, a teoria das quatro causas mostra que toda ação continua na sua conseqüência; a virtude está ligada igualmente à constância e à mediania, o meio-termo justo entre a falta e o excesso. A vitória pertence aos que persistem. O predomínio do racional está presente também na crítica que o autor faz ao recurso então usado do “deus ex machina”, ou seja, o aparecimento do sobrenatural divino para resolver as aberturas e inconsistências da trama, sinal de imperfeição. A ocorrência do irracional deve estar presente somente fora do foco principal.
O estagirita, na sua exposição, utiliza-se várias vezes de exemplos oriundos das tragédias para associá-los à sua normatização da forma trágica perfeita. O Édipo Rei de Sófocles é lembrado por ele várias vezes como uma das melhores construções. E até hoje a peça é apontada como perfeita, sendo elencada sempre entre as maiores tragédias já feita e alcançando um legado e uma significação que excedem de longe a cadeia dos séculos, o âmbito histórico e o contexto meramente literário.
O desenlace da narrativa mostra uma bela resolução para que ocorra a mudança de estado chamado por Aristóteles de peripécia: a ação aparentemente inocente de Édipo já está contaminada desde a sua semente, conhecida pelo público espectador, e o reconhecimento da verdade, quando esta vem a tona, torna o personagem de venturoso rei ao mais infeliz e desgraçado dos homens. Cumpre-se a causalidade e a ação cega e sem falha da justiça, não obstante a margem de incerteza que paira no meio da trama, que leva os protagonistas a pecarem, desdenhando dos deuses e do Oráculo de Delfos.

Édipo, o filho de Laio, rei de Tebas, é convocado, portanto a pagar pela maldição que seu pai sofreu muitos anos antes, passando pelo infortúnio, de desposar sua mãe, Jocasta. As suas tentativas de fuga e reversão da maldição não dão certo, e segue-se o suicídio e a cegueira preconizada pelo adivinho Tirésias, que pagou este preço ao descobrir o segredo erótico das mulheres. Mas isto é outra história…

O livro Revolução dos Bichos (Animal Farm) de George Orwell foi publicado em 1945, ou seja, no ano em que os Estados Unidos da América bombardearam as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki, pondo fim oficialmente ao conflito armado que ficou conhecido como Segunda Guerra Mundial. Isso nos diz muito sobre o contexto pessimista em que se passa a história. Muitos escritores e pensadores libertários e de vanguarda puseram-se a pensar os motivos e implicações da capacidade humana de destruição em massa. A tirania e crueldade eram notícias recentes e constituem, de certa forma, ainda hoje, uma ferida aberta e uma ameaça no imaginário da civilização.

O filósofo Theodor Adorno, por exemplo, lançou em 1949 a famosa frase “escrever poesia depois de Auschwitz é um ato de barbárie” , no desenrolar das reflexões da Teoria Crítica sobre a culminância da dialética da razão instrumental, que, para progredir e se objetivar no mundo, precisa auto-mutilar o homem, chegando a ponto de criar maquinarias e bombas suficientes para extinguir a vida humana na terra.

A URSS, uma das grandes potências vencedoras da guerra, foi a principal responsável por varrer a ameaça nazista, porém, se colocou numa posição antagônica em relação à outra potência, a dos EUA, dando início ao período conhecido como Guerra Fria, que é geralmente delineado até 1989, com a queda do Muro de Berlim. Não é de espantar, portanto, que o líder soviético Stálin tenha sido pintado posteriormente, com base, é claro em várias evidências históricas, como um tirano tão sanguinário e totalitário quanto o que ajudou a derrubar, ao custo do sangue de cerca de vinte milhões de russos combatentes no conflito.

Stálin e o stalinismo são os grandes protagonistas da novela de Orwell. Esta é uma alegoria do início e dos desdobramentos da Revolução Russa de 1917, com a tomada de poder por parte do Partido Bolchevique. Havia, na derrota do czarismo por parte dos revolucionários, uma promessa ideológica libertária e a esperança de mudança. Com os sucessivos acontecimentos que foram extirpando as oposições, na fixação burocrática do Partido no poder, tais esperanças foram sendo esquecidas, dando lugar a um clima político de rigor e intolerância, onde a vigilância (muito bem retratada pelo autor em sua obra 1984) e a punição exerciam força tão compulsiva que criava um clima de desconfiança ferrenho, até mesmo por parte de parentes e amigos.

Marca emblemática deste processo são o assassinato, a mando de Stálin, do opositor Trotsky, que junto com Lênin, foi um dos líderes da revolução, mas, por ter uma visão diferente acabou exilado e depois, ameaça viva ao sistema, morto. Posteriormente, ocorreram as séries de execuções dos opositores conhecidas como o “Grande expurgo”, cujo número de vítimas, não obstante a posterior abertura de arquivos por parte da KGB, continua controverso.

Orwell, autor britânico nascido na Índia, então sob jugo do Império, havia participado ativamente da Guerra Civil Espanhola, precedente importante da Grande Guerra, onde anarquistas se embateram os fascistas franquistas. Sua história no front de Batalha é contada no autobiográfico “Lutando na Espanha”, onde mostra bem o clima de igualdade fraternal que tomou conta, por um curto período, é certo, das cidades controladas pelos revolucionários. Talvez não seja exagero dizer que esta utopia era uma das propagadeadas pelos revolucionários russos. Porém, como dissemos, quando as coisas descambaram para a realidade, com a perseguição inclusive de antigos “companheiros opositores”, a desilusão tomou conta, a ponto de o “fim das utopias” ser apontado como um dos marcos definidores da chamada “pós-modernidade”.

O livro critica, então o Stalinismo, chamado de “animalismo”, e existe uma interessante correspondência entre os personagens da ficção e os personagens reais. Tal recurso literário deu margem a muitos debates, sendo também uma inteligente maneira de não acusar abertamente e evitar a censura num momento político delicado como o existente. Snowball (Bola-de-Neve), no romance, pode ser Trotsky, e Stálin é um porco que leva o nome de outra grande figura política, Napoleão, talvez não por acaso. A figura de Lênin pode estar representada pelo personagem Snowball ou então na de Old Major, embora este traga características que podem bem lembrar a do filósoso alemão Marx, grande inspirador das correntes teóricas que fundaram o comunismo prático. O romance mostra como Napoleão vai gradualmente manobrando os assentamentos iniciais da revolução da fazenda para ir conquistando o poder de forma total, até chegar na famosa inversão do último mandamento da vitoriosa transição política dos animais: “Todos os animais são iguais.”, que passa, ao final da narrativa, a constar com um adendo “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”. Todos os mandamentos originais são adulterados com o triunfo dos porcos, que vão subjugando os outros animais ao controlar e posteriormente monopolizar o poder político (quatro patas, bom, duas patas, ruim).

A posse de poder por parte do proletariado deveria resultar na prometida igualdade, porém, a direção do partido e o surgimento da figura de um líder carismático, apoiado por um severo sistema de propaganda (no livro, o personagem Squealer) que passa uma imagem de coerência e legítima preocupação, enquanto na prática exerce o velho domínio e extirpa opositores, gera inevitavelmente a desigualdade, e a corrupção das idéias socialistas. A profissionalização da política gera uma desvinculação da base ativista, sempre ocupada com seus afazeres comuns, sua vida cotidiana, e, conseqüentemente, de uma classe de privilegiados. Na prática, apesar do discurso, a sociedade de classes, portanto, se mantém, e o proletariado não toma posse efetiva dos meios de produção, antes, continua sendo usado como peça para a ascensão de poucos, e ainda tolhido de liberdade social, individual e intelectual, com poucas esperanças de superar essa condição e progredir.

A crítica de Orwell é radical e não se estende somente ao período histórico mencionado, mas é antes um retrato melancólico da inseparável estupidez da humanidade, em todas as épocas. O perigo, no entanto, é bastante claro: usar o talento alegórico desta narrativa pode manter o estado de coisas para sempre, a conservação, ao invés das tentativas de mudança. E o controle, ao invés do desprendimento, pode levar à estagnação das aspirações políticas, ou pior, ao niilismo, internalizando a aceitação e facilitando a criação humana como gado de abate. Mesmo com o fim da URSS, o livro se confirma atual, mesmo com a transfiguração notável dos valores e dos indivíduos contemporâneos, justamente por tratar de uma temática de difícil superação. Nesse sentido, a forma de alegoria mostra-se uma escolha acertada, jáque tira os signos do contexto histórico meramente jornalístico, e o eleva a uma dimensão mítica, atemporal. Esta pode servir como chave de interpretação para várias situações, embora seja uma leitura particular de um contexto político-cultural de peso, que não deixa margem para dubiedade de posições, mas antes inspira, ontem e hoje, um debate apaixonado, inspirado, que decide efetivamente modos de vida, que dizem respeito a todos.

Para explicar este ponto de vista, basta lembrar que os 7 mandamentos da Granja dos Bichos, por exemplo, podem ser equiparados a motes de outras revoluções burguesas, como a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Nesse quesito, é difícil um país superar os outros, já que, carne fácil na mandíbula sedenta dos poderosos, este discurso é apoderado e usado como motivo de imperialismo e intervenção. É o caso, por exemplo, da sanguinolenta invasão do Iraque em favor da “democracia”, e contrária à “tirania” de Hussein, mas que diariamente mostra que, pelo menos a curto e médio prazo, os motivos justificadores não se verificam na ação prática, constituindo mero joguete de manipulação das massas para o interesse econômico e militar de poucos grupos.

De forma caseira, temos no Brasil a ascensão ao poder de uma falsa esquerda, que contrariando seu histórico de lutas, mostra-se conservadora ao se enraizar no sistema, fechando alianças com antigos inimigos e mantendo uma política econômica subjugada a interesses especulativos globais, distante da soberania nacional e muito mais do socialismo. O povo, como, esperado, acaba caindo na desilusão política e no desligamento de suas lutas, através da confirmação da crença de que “todos os políticos são iguais”, mas, no caso, com o nivelamento se realizando no nível humano mais baixo que se possa imaginar.

Da mesma maneira, a distopia negativa de 1984, não se concretizou efetivamente travestida de uma falsa aura de permissão e liberdade?

Resolvi postar este ensaio do Maciel, publicado em 1977, porque o julguei interessante – o texto tem uma profundidade porque é escrito a partir de um ponto psicológico de calma, que está se tornando raro, e exerce brevemente uma denúncia sobre um tema que continua atual. O que se fala há 30 anos, separando os períodos e gerações dos anos cinqüenta, sessenta e setenta, repete-se monotamente hoje, em muitos casos. Não há nada de errado com o passado, mas a saudade da época áurea da vida, que já foi analisada como uma dimensão mítica atemporal da idade de ouro da humanidade, pode tolher nossos sentidos para o tempo que se aproxima, fixando-se no tempo que passou. A saudade pode ser apenas a falta incômoda da capa brilhante da consciência que se foi… Às vezes é preciso`romper com a causalidade para enxergar e abrir o ser, para que o novo irrompa. Mesmo que este seja apenas um reencontro.

NOSTALGIA
Luiz Carlos Maciel in A morte Organizada

Dizem que há um clima geral de nostalgia em todo o mundo. De repente, como se tivéssemos ficado cansados das novidades incessantes dos últimos anos, estaríamos parando para lembrar. São numerosos os jornais e revistas, os articulistas e repórteres, que parecem estar tentando nos convencer de que a memória, afinal de contas, é bem mais excitante e divertida que a vida atual. O que tem Humphrey Bogart e Mari-lyn Monroe que Mick Jagger e Alice Cooper, a julgar por eles, não têm? É difícil saber, considerados apenas os chamados dados objetivos desses nomes e dos fenômenos mais amplos que eles representam. As coisas passam e o mundo muda — isto é tudo. Se, de alguma forma, nos prendemos ao que passou ou pretendemos, periodicamente, retornar a ele, isso deve ser naturalmente atribuído a uma poderosa força psicológica sobre a qual não parecemos ter, ainda, muita clareza. Por que o passado — e não o passado distante, mítico e incognoscível, mais aberto portanto à imaginação, mas um passado que vivemos — nos parece, de súbito, tão atraente e envolto em encanto?
A nostalgia, como fenômeno social, é o produto direto de um certo sentimento do mundo, que se pretende afirmar como dominante, típico de pessoas que ultrapassaram a metade provável de suas vidas. Vivemos sempre no passado ou no futuro; a desatenção nos desvia no momento presente para essas fantasias, sempre imprecisas mas exigentes, sugeridas pela memória e pela imaginação. Os jovens, por exemplo, em sua circunstância biológica, costumam viver o futuro: são, inteiramente, projeto e antecipação. Gostam de previsões, profecias e, mesmo, planos a longo alcance. A imaginação doentia, então, se projeta para diante. Na medida em que a vida passa, porém, o futuro se fecha, as fantasias se desmentem e a imaginação — cada vez mais doentia, pois em geral tentamos curar nossas doenças ingerindo doses cada vez mais altas dos venenos que as provocaram — procura pasto na memória. Frustradas as suas antecipações, o ego sente que está perdido e abandonado à insegurança fundamental da liberdade — que, aliás, só é angustiante em sua ótica deformada, sendo para o homem desperto, ao contrário, fonte de paz e equilíbrio psicológico. Volta-se, então para essas imagens obscuras da memória como se elas fornecessem um atestado da existência objetiva de algum paraíso e seguro que ele, o ego, pudesse dominar. As imagens obscuras, porém, são apenas imagens obscuras, não correspondendo a nenhuma realidade efetiva, e o sentimento que brota então é uma coisa morna e passiva, doce mas triste, aparentemente tranquilizadora mas mortal a que chamamos nostalgia.
A verificação prática é fácil. Todos os objetos da pretensa onda de nostalgia que, segundo certa imprensa, é uma moda atual, são lembranças dos anos cinqüenta, justamente a época em que as pessoas que, agora, estão na metade provável da vida, eram jovens curiosos e abertos ao futuro. O aparecimento de um sentimento nostálgico no mundo, nessa gente, indica, antes de mais nada, que estamos vivendo o momento histórico em que elas viram desmentidas as suas antecipações, frustrados os seus projetos e desmanchado o futuro fictício que elaboraram longamente nas cavernas secretas da imaginação. Por que a nostalgia não se satisfaz com um passado mais recente? Por que não ousa recuar a um passado mais remoto? Não: as explosões nostálgicas fixam-se num recuo de cerca de vinte anos, mais ou menos, ou seja, justamente o período intermediário entre a infância e a adolescência dos que estão nos trinta, nos quarenta, e suas atuais decepções. “Já temos um passado, meu amor”, diz Caetano Veloso em Saudosismo. Essa verificação existencial é o ponto inicial do processo: o passado reaparece a partir do esvaziamento do futuro. Os anos cinqüenta aparecem, imaginariamente, como a perspectiva perdida de um controle ingênuo da realidade, típico da infância e da adolescência — uma ilusão evanescente, é verdade, mas nossa primeira reação ao desamparo é o apego a ilusões — dolorosas ou agradáveis, não importa. Naturalmente, o que se introduz aqui, na vida de um indivíduo, é a própria velhice e a própria morte, disfarçadas nas cores suaves da memória. “Recordar é viver”, dizem as pessoas mais velhas, morrendo sempre mais um pouco — sabendo ou não —, na medida em que se fortalece o apego ao que passou.
A nostalgia é uma espécie de nó psicológico. Ela obstruí a atenção ao momento presente, invertendo o sentido original de velhas aspirações — políticas, afetivas, existenciais, etc. Pode ser definida como o momento traiçoeiro de descoberta do passado, uma reversão psicológica de conseqüências mortais para a vida espiritual de qualquer indivíduo ou coletividade. Por isso, as épocas nostálgicas são sempre épocas de poucas perspectivas para o futuro. Quando a sombra das desilusões caem sobre ele, nossa sede insana por segurança e conforto, nossa moleza espiritual e nossa covardia procuram refúgio no passado. Esse sentimento do mundo aparece sempre quando a geração intermediária — sempre influente nos caminhos das coisas — se defronta, afinal, com uma perplexidade insuperável. Norman O. Brown já estudou o fenômeno da regressão psicanalítica em termos de uma nostalgia de uma Idade de Ouro perdida junto com a infância. Resta verificar a medida em que essa nostalgia serve a interesses ideológicos específicos de estagnação da vida que deveríamos permitir que se renovasse sempre. A nostalgia, de que tanto falam os jornais e revistas, não passa de um poderoso instrumento psicológico da Morte Organizada.

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Ainda sobre esse assunto Kafka escreveu no conto “Uma mulher pequena”:

“Mas em parte trata-se apenas de um sintoma da idade; a juventude veste tudo com belas roupagens; pormenores desagradáveis se perdem no jorro enérgico da juventude; mesmo que alguém, quando jovem, tenha tido um olhar um tanto à espreita, isso não é levado a mal, não é notado nem por ele próprio; mas o que sobra na velhice são resíduos e cada um deles é necessário, nenhum é renovado, todos ficam sob observação – e o olhar de espreita num homem de idade está claramente à espreita, não é difícil percebê-lo. Mas também aqui não se trata de uma piora real e efetiva.”

E Drummond: “Não recomponhas tua sepultada e merencória infância
Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.”

O romance entre a filosofia e a literatura sempre forneceu insumos para a produção de conteúdos textuais e reflexões, de ambas as partes. As fronteiras tênues que separam as duas áreas foram freqüentemente trespassadas por autores que transitam com desenvoltura em e outro lado. É o caso de filósofos-escritores como Voltaire, Diderot, Sartre, Albert Camus etc, e de escritores capazes de desenvolver profundas reflexões filosóficas em seus escritos. Um exemplo bem acabado disto é o de Jorge Luís Borges, escritor extremamente livresco. Sua longa e fatídica convivência com os livros lhe forneceu insumo para um fecundo e impressionante rol de referências eruditas, citações e alusões, impensável para a maioria dos autores, de forma que não é estranho observar sua familiaridade com diversos sistemas filosóficos, que são usados sem porém serem adotados, a não ser em um ponto de vista hipotético ou distante.
No conto Funes, o memorioso, a característica principal do personagem do título dá margem a considerações epistemológicas que ajudam a pensar a questão da possibilidade humana de conhecimento. É curioso lembrar, aliás, que o filósofo estadunidense Richard Rorty classifica a filosofia como mera literatura a partir da sua proclamada morte da epistemologia, derivada do fim do conceito tradicional de verdade que norteava o labor filosófico. O Funes é conhecido pelo narrador-protagonista também durante uma viagem de veraneio na terra natal argentina, e no encontro seguinte ocorre o encontro com a sua condição extraordinária: é incapaz de esquecer um detalhe sequer do todo das percepções vividas durante o curso da vida, após sofrer um acidente.
O fluxo incessante e intensificado do mundo é testemunhado por Funes em sua completude, e, com sua memória prodigiosa é capaz de reconstituir dias inteiros. Este dom é ao mesmo tempo um poder e uma deficiência, já que, incapaz de esquecer detalhes é também incapaz de deixar as insignificâncias de lado, se vendo às voltas com tarefas tão hercúleas quanto inúteis, como na sua proposta de criação de nova linguagem, com um nome para cada ser particular existente no mundo. Borges afirma que o memorioso é incapaz de chegar às “idéias gerais platônicas”, tomadas como essenciais ao conhecimento. Platão sintetiza a problemática de dois pensadores pré-socráticos, Heráclito e Parmênides. O primeiro é chamado de filósofo do devir e afirma em um dos fragmentos que “não entramos duas vezes no mesmo rio”, assim como Funes via uma pessoa diferente a cada vez que se olhava no espelho. Já o metafísico Parmênides considera que o ser é eterno e imutável. Admitindo que o mundo sensível está em perpétuo estado de fluxo, sendo impossível conhecê-lo, Platão formula a Teoria das Idéias, colocando a possibilidade de conhecimento justamente na razão inteligível. As idéias seriam em si constantes, e os fenômenos do mundo sensíveis existem enquanto participam, como derivação e reflexo das idéias inteligíveis.
Perdendo a capacidade de esquecer, Funes perde a capacidade de abstrair, e o resultado disso é uma vida de reclusão. As explosões no fenômenos não lhe tomam toda a atenção, animalizando-o e marcando o molde de sua memória indelével. É o contrário que acontece, uma vida de reclusão apartada da vida comum e do seio social, mergulhando fundo na espécie de pensamento que se viu possibilitado de construir.
Esta reclusão e afastamento da realidade é bem tipificada por Kafka no conto O pião. A figura do filósofo sonhador, distanciado do mundo, envolto em questões e investigações que só a ele dizem respeito aparece no conto como uma metáfora da impossibilidade humana de conhecimento. O homem, ser limitado dotado de ferramentas cognitivas limitadas, não tem nem a energia nem a capacidade para superar sua condição perante a premência preponderante da totalidade do mundo em movimento, do fluxo sensível que já citamos. Mas, por ser teimoso e incapaz de admitir o fracasso, prossegue com sua marcha, que é ridiculamente capturada por recorrências repetitivas, cujo exemplo possa ser, talvez, a dos inúmeros filósofos que pensaram e repensaram as mesmas questões vitais ao longo de milhares de anos.
O filósofo kafkaniano é por demais confiante no poder das idéias e na validade dos métodos epistemológicos, da ciência, da medida, do raciocínio por indução e dedução. Diz o autor tcheco “Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral.” Tanto Borges como Kafka, portanto, trazem, nas veredas abertas pela vasta literatura do século XX as influências, muitas vezes contraditórias, de problemáticas que explodiram em vários campos do conhecimento. A falência do projeto moderno que punha na razão um otimismo exacerbado, confiando na sua capacidade de conhecer e classificar, é contraposta a descoberta de novas dimensões e áreas dentro das possibilidades mentais, como a teoria do inconsciente psicanalítico, a revolução da linguagem em relação à metafísica e o impulso desordenador dos êxtases experimentados por vários artistas, a partir dos psicotrópicos, dos sonhos, experiência da loucura e do absurdo etc.

Cortes de cabelo em Fitzgerald

O conflito moral e psicológico entre duas jovens personagens femininas de classe alta é o ponto central da história Bernice corta o cabelo de F. Scott Fitzgerald. A história se passa no século XX, num contexto de mudança de costumes na sociedade retratada, onde a vibração contínua da vida jovem contrastava com a estagnação das tradições e das gerações anteriores. Este conflito é parte importante do contexto e aparece na expressão que o autor criou para caracterizar o ambiente de sua obra: a “era do jazz” mostra o importante papel das músicas e dos bailes neste processo. Os sons vibrafônicos produzidos pelo ritmo instigante convergem bem com a volaticidade das ações juvenis, que descobrem o novo da modernidade rompendo, ou renovando, os paradigmas habituais envolvidos no processo de sedução, de corte e de destaque social.

Bernice, de 18 anos, passa as férias escolares na casa da tia, em companhia de sua prima, Marjorie. A tia, abastada, promove vários bailes e chega a comprar um carro – que então ainda era algo raro – para incrementar a vida social da filha. Marjorie é extremamente popular dentro de seu grupo e seu comportamento de vanguarda é admirado. A medida do sucesso em que isso se traduz, durante as festas, consiste em conseguir como pares os jovens mais cobiçados da cidade. É a contragosto que Marjorie tem de aceitar a presença da prima e levá-la para junto de seu meio. Bernice é considerada tola e antiquada, com uma extensa lista de defeitos comportamentais identificados, tornando-a um fardo a ser carregado por Marjorie, e também motivo de vergonha.

A sua contrariedade é expressa primeiramente numa conversa franca com a mãe, o que é indicativo de sua personalidade fortemente mimada e imatura, e na qual aparece inclusive uma acusação sobre a miscigenação racial como fator de degeneração. O que ela não sabia é que a conversa havia sido escutada na surdina pela prima, que mais tarde confessa que ouviu a revelação. A falsidade de Marjorie é então posta em cheque, com um apelo emotivo para um resgate afetivo familiar. Mas ela não dá o braço a torcer: confirma e aprofunda as críticas feitas vespertinamente. A revelação do caráter intransigente e inumano não é uma advertência suficientemente forte para afastar Bernice, pois esta está envolta num esquema familiar, e não poderia voltar à casa dos pais antes do previsto. A sua inconveniência de costumes é emblematizada pelas suas leituras de “Mulherzinha”. Já a citação bombástica da literatura de Oscar Wilde aparecerá como signo de sua transformação.

Bernice aceita as críticas e passa a seguir a risca os conselhos de Marjorie e torna-se também um ícone, uma pessoa considerada alegre, disputada, divertida e avançada. Mas é um papel cumprido sem que haja verdadeira vocação. Bernice passa por dois estágios de perda de ingenuidade, o primeiro com a conversa crua da prima. Mas a submissão passiva aos esquemas da outra não lhe rende a conquista da felicidade desejada, já que desempenha tão bem seu novo papel que passa a ameaçar a popularidade de Marjorie. Surge então o segundo conflito, em torno de um rapaz e sua mudança passa a ser questionada. A promessa do corte de cabelo é cobrada cada vez mais.

O cabelo curto, então uma moda, uma novidade na época nos EUA e Europa, era considerado extremamente chocante. Para uma moça um sinal de rebeldia indomável, de desapego. Para manter coerência com seu personagem, Bernice chega a realizar o ato extremo, desafiando a incredulidade de Marjorie, que apostava em um blefe. O resultado da façanha é desastroso: o autor não hesita em afirmar que o resultado é positivamente feio. Seria culpa do barbeiro? Ou uma condenação retrógrada da moda? A neófita paga o preço de assumir a radicalidade da ação. Os pais de Marjorie ficam chocados e os colegas, chocados e distantes. A audácia garante apenas a vingança e supremacia da prima, dentro do mundinho de intrigas.

O tempo, porém, passou. As férias estão no fim. Bernice ganhou algo ao passar por esse ritual. De tímida e santa a mártir do grupo, ela agora se vê distante de tudo. Já pode voltar para casa mas tem talento imaginativo e decisão para cumprir uma pequena vingança. Na calada da noite, corta com tesoura as madeixas bem arrumadas da prima e sai para a estação de trem, antes do previsto. No caminho, joga as mechas cortadas na casa de um dos rapazes. Parte com alívio para a liberdade propiciada pelo conforto da viagem em trilhos. A moça viaja vingada, de cabelos curtos e cabeça feita.