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indias peladas

A LENDA DO SUMÉ

Dentre as numerosas nações selvagens que ocupavam o território goiano antes das invasões paulistas, a mais dócil e inteligente, a que menos mal fazia e menores pretensões de mando tinha naqueles remotos sertões, era a dos Goiás, que, no entanto, não deixava de ser temida pelas outras do mesmo território — mais numerosas e aguerridas como eram as do Xavantes, Coroados, Canoeiros e Caiapós.

Os Goiás veneravam a um ser benéfico que chamavam de Sumé, ao qual atribuíam sua colocação naquelas paragens, onde os reunira e educara para a vida nas aldeias, constituindo-se em primeiro chefe que teve essa nação.

Contam que Sumé — lenda que ainda hoje corre em Goiás passando de boca em boca com ligeiras variantes — indo um dia visitar a sepultura de sua mulher no alto da serra do Arari (serra Dourada), aparecera-lhe e sem saber como um velho pajé da tribu Caiapó, que assim lhe falou:

— Sumé, teus dias estão contados: urge que tomes as tuas últimas disposições, garantindo o futuro da tua nação. Velho e prestes a fazer a viagem que todos fazem para as terras além das montanhas azuis, não poderás por certo, por ti só, conjurar o perigo que a ameaça. Acabo de ver, da minha gruta do deserto, a caminho do ponto em que o sol morre, um bando de homens brancos e barbados, uns a pé outros montados em grandes animais possantes e que parece os compreender, pois se movem à sua vontade, obe-decendo-lhes cegamente.

Em sua marcha, esses entes misteriosos vão devastando as nossas florestas e campos, incendiando as tabas que encontram, matam com o trovão que está ao serviço deles aos que lhes ousam resistir para não se tornarem seus escravos e perseguem mesmo aos que tentam fugir, atiçando contra eles uns animais ferozes, muito corredores, que os alcançam e dilaceram.

Já passaram pelas terras dos Xavantes, dos Caiapós, e a esta hora devem estar pelas dos Araés, que unidos àqueles estão resolvidos a repeli-los com todas as forças, não obstante suporem-nos dirigidos pelo próprio Anhã, grande gênio do mal que dirige Tupã e os Anhangás. É natural, portanto, que apareçam também por estas terras e, como o mal será comum convém que em comum sejam os esforços de todos para a repulsa completa desses entes daninhos que pretendem nos escravizar, roubando-nos a liberdade e independência.

E dizendo isto desapareceu do mesmo modo como viera, deixando Sumé mergulhado na mais profunda meditação pelo que acabara de ouvir; regressando à sua taba que ficava nas fraldas da serra de Arari, à margem do Cambuva (hoje rio Vermelho), reuniu logo depois os chefes das aldeias da sua nação, referindo-lhes tudo quanto ouviu do pajé, e fazendo-lhes ver diante de semelhante fato, que realmente era grave; entendia entretanto, que os Goiás deviam se manter na mais estrita defensiva, procedendo no assunto conforme lhes conviesse na ocasião, sem se aliarem com Qualquer outra nação para esse fim. Que dizia isso porque* não confiava nos Caiapós e nos Xavantes, alé porque tais revelações, do pajé, bem podiam não passar de um embuste urdido pelos chefes daquelas nações para atirá-lo contra esses entes poderosos e depois se servirem desse pretexto para se unirem com os mesmos e conseguirem assim o que tanto desejavam, isto é, a conquista e terras de Goiás. Que se semelhante invasão se desse enquanto êle fosse vivo, seria essa atitude, acrescentando que até procuraria recebê-los em suas terras, mais como amigos do que como estranhos, pois, já os vira em outras terras, e bem os conhecia. Que, finalmente, desejava que qualquer que fosse o chefe na ocasião dirigindo os seus, procedesse de igual modo, por isso que a estes convinha mais a amizade desses homens relativamente superiores e mais adiantados que a dos Xavantes e Caiapós e outros vizinhos ambiciosos e falsos.

Tempos depois morreu este velho cacique dos Goiás, recomendando sempre aos seus a observância daquelas disposições; e Apu, seu filho, que o substituiu, prometeu cumpri-las inteiramente. Bem depressa, porém, se esqueceu do prometido a seu pai, não só naquele sentido como no seu casamento com Aruiara, filha do valente chefe Jara-guaí de sua nação.

Os Xavantes e Caiapós, conhecendo bem o caráter e qualidades do novo chefe dos Goiás, que era um guapo rapaz, valente e destemido, mas, sem experiências na arte dé governar, além disso algum tanto efeminado e caído pelas mulheres, julgaram oportuno, ao saberem da morte de Sumé e elevação de Apu, mandar a este uma embaixada, solicitando a sua adesão à causa pela qual pugnavam, juntamente com os Araés. Foi escolhido para chefe dessa embaixada o velho e valente Mucunã, cacique Caiapó, que além de grande séquito, levava em sua companhia a gentil e formosa Ipoã, hospedando-se todos na taba de Apu, que os recebeu condigna e carinhosamente.

Ipoã, que era uma morenita de olhos pretos, grandes e tentadores, bem feita de corpo, airosa e engraçada, possuía igualmente maneiras distintas, que realçavam com seu sorriso e modos atraentes, que cativavam a todos que dela se aproximavam. Não causou pois admiração a ninguém a atitude de Apu, diante da linda jovem caiapó, pela qual se enfeitiçara.

Daí ao casamento de ambos foi questão de tempo e do casamento à solução favorável que obteve Mucunã na missão de que fora incumbido, a consequência lógica foi essa, não obstante a opinião unânime em contrário de todos os Goiás que reclamavam a observância do compromisso tomado com Sumé.

Apu, cego pela paixão que tinha por Ipoã, se esquecera de tudo, satisfazendo a todas as exigências desta e de seu pai; celebrou-se prontamente seu casamento com Ipoã, e resolvida ficou a entrada dos Goiás para a aliança contra os misteriosos estrangeiros que invadiam o país, devendo os de sua nação fornecer logo um contingente poderoso para reforço das forças da aliança. Aruiara, porém, ofendida no seu amor próprio pela realização desse casamento, soube aproveitar do descontentamento geral dos Goiás, para revoltá-los contra Apu, e no dia marcado para a partida desse reforço que devia acompanhar Mucunã, apresentou-se à frente dos guerreiros exprobrando o procedimen’o de Apu e concitando os seus a vingá-la.

Não foi preciso mais outro qualquer incentivo: os guerreiros Goiás conduzidos por Jaraguaí marcham contra a aldeia do Arari, onde se achavam Apu e Mucunã, atacam–no, matam Apu, que ousadamente resiste à frente de poucos; colocam no governo da nação Goiá — um outro filho de Sumé. Mucunã, vendo morto Apu, logrou fugir com seu séquito e Ipoã; e Goiá, de posse do governo desfez tudo que praticara o irmão de encontro à vontade expressa de seu pai, e até se casou com Aruiara.

Pouco depois que se deram essas ocorrências, entre os Goiás, apareciam os paulistas invadindo as terras dos Xavantes e Caiapós. Estes íncolas e os Araés, sempre unidos, procuram repeli-los, lançando mão de todos os recurscs para esse fim, e nada conseguindo, porque nem ao menos puderam evitar que .tais invasores chegassem às terras dos Goiás, onde foram recebidos por Goiá até com festas e com eles estabelecendo uma aliança permanente contra as demais nações indígenas daquele território.

Estavam satisfeitas as predições de Sumé, mas os fatos foram que não corresponderam às suas previsões. O procedimento dos Goiás trouxe como consequência a conquista e colonização das terras que ocupavam essas nações selvagens, sendo eles próprios as primeiras vítimas desses ousados aventureiros, desaparecendo por completo na mais cruel escravidão, e não tendo em ao menos o consolo de morrerem com as armas na mão a combaterem pela liberdade e independência do seu país, como os Xavantes, Coroados, Carajás, Canoeiros, Javaés e outros: Ingloriamente e sob o azorrague do conquistador ambicioso extinguiram-se nas suas próprias terras nos trabalhos das minas, aos quais não eram afeitos.

Hoje, dessa generosa nação que tão grandes serviços prestou aos invasores, restam tão somente a lembrança de suas desditas e o nome que legou ao grande território encravado entre os rios Paranaiba, Tocantins e Araguaia, e isto mesmo deturpado de Goiá ou Goiáses para Goiás.

Os Caiapós sempre ousados, altivos e heróicos, vendo com os Araés, seus aliados, que os esforços que empregavam contra os invasores de suas terras eram inúteis, abandonaram-nas, e retiraram-se para as brenhas de além Araguaia e rio das Mortes, donde em sortidas mais ou menos frequentes, fazem ainda toda a guerra que podem aos brancos, como chamam eles aos paulistas e seus descendentes; jamais submetendo-se a estes, ou prestando-se à catequese, apesar dos esforços feitos nesse sentido em diversas épocas para chamá-los à civilização. O procedimento do bom Goiá, deixando de hostilizar os brancos quando entre os seus estiveram de outra vez, recebendo-os em suas tabas e até com festas e outras demonstrações amistosas, agazalhando e permitindo mesmo que eles deixassem entre os seus alguns dos companheiros, que solicitaram ficar, quando regressaram, provocou contra êle o ódio e a guerra dos Caiapós e Coroados, seus inimigos.

Logo após a retirada dos brancos, Mucunã e Japuri, este chefe dos Coroados, e aquele, dos Caiapós, vieram entender-se com Goiá, fazendo-lhe sentir a inconveniência do seu procedimento para com os brancos, exortando-o à guerra contra os mesmos, e intimando-o a expulsar de suas terras aos que nela ficaram, sob pena de guerra de extermínio se a isso não anuísse.

Goiá, como era de esperar, repeliu energicamente semelhante afronta, mandou pô-los fora de suas terras, e não deu assim ouvidos às suas imposições, tendo por isso de aceitar a guerra com que eles o ameaçavam.

Diante deste fato começaram todos a se preparar para a luta que parecia formidável, pois que de um lado estavam os Goiás, nação poderosa e grande, e que, além disso, contava com o auxílio dos brancos que viviam entre eles, e que pelo armamento que usavam infundiam certo terror; de outro lado os Caiapós e Coroados, que eram também poderosos e, além disso, aguerridos e ardilosos, lançando mão de todos os meios para conseguirem seus fins.

O auxílio poderoso dos brancos com que os Goiás contavam não passou despercebido dos Caiapós e Coroados, que por isso trataram logo de procurar um meio de tirar essa força aos Goiás; e para esse fim, por meio de intrigas e promessas, tentaram corromper alguns chefes Goiás que souberam repelir semelhante tentativa. Acontece, porém, morrer Amburá, o valente chefe da taba dos Ferreiros, sendo designado para substituí-lo nessa chefia um tapuia em quem Goiá depositava muita confiança e que se chamava Camarequê. Este tapuia, no entanto, era inimigo oculto de Goiá, por ter êle se casado com Aruara, com a qual pretendia fazer o mesmo se ela não tivesse se esquecido das promessas que lhe havia feito nesse sentido, preferindo depois Goiá a êle. Ambicioso e vingativo, aguardava portanto a ocasião para se vingar de ambos; e esta afinal se lhe deparou, entrando em negociações secretas com os Caiapós e Coroados que, conhecedores daquele fato e, sobretudo, do seu caráter ambicioso, propuseram-lhe o casamento com Ipoã, filha de Mucunã e também a chefia geral dos Goiás caso êle os ajudasse na guerra que iam levar a Goiá, encarregando-se de revoltar sua taba em ocasião ajustada, e matar aquele e igualmente os principais chefes, inclusive os brancos que ali viviam.

Aceita a proposta por Camarequê, os Caiapós e Coroados combinaram com êle a execução do plano tenebroso, e em uma noite escura e tempestuosa, quando todos dormiam tranquilos em suas ocas, o infame chefe da taba dos Ferreiros, acompanhado de um pequeno grupo que conseguiu aliciar entre os seus, aproveitando-se da estada de Goiá na sua taba, para onde o atraíra manhosamente com seus apaniguados no aposento èm que êle dormia, matou-o covardemente, como a todos que ali encontrara.

Era seguida dirigiu-se ao arraial dos brancos, fazendo o mesmo aos que lá achou e incendiando seus ranchos; a revolta assim explodia propagando-se por toda a parte, sendo presos e perseguidos os que ousaram fazer qualquer resistência.

Dos brancos apenas escapou das garras de Camarequê o que era muito valente e conhecido por Pedro Juraci, e isso porque nessa noite terrível não se achava no arraial com seus companheiros, e sim na taba do Arari, onde fora a passeio com alguns amigos.

Ao mesmo tempo que tais coisas se passavam, os Caiapós e Coroados que se achavam convenientemente emboscados nas circunvizinhanças dos Ferreiros e do Arari, a um sinal feito e anteriormente combinado com os revoltosos, caíram de improviso e simultaneamente sobre ambas as tabas, apoderando-se delas e subjugando inteiramente os Goiás, que surpreendidos e amedrontados nem puderam lançar mão das armas para se defenderem.

Foi um desastre horrível, porque os que não foram mortos ficaram prisioneiros dos inimigos e por eles escravizados, estando infelizmente no número destes a desditosa Aruiara, que foi conduzida amarrada como escrava de Ipoã, que isso exigira; poucos, bem poucos foram os que lograram a salvação, fugindo para os recônditos das serras e matarias vizinhas.

Camarequê foi elevado, como ambicionava, à alta dignidade de chefe dos Goiás, nomeou a seu filho Apurinã para chefe da taba dos Ferreiros, passando a residir na de Arari, e desposou Ipoã, que veio para seu poder acompanhada de muitos guerreiros caiapós, que eram de fato os que passaram a governar os Goiás com a força de que dispunham.

Passados alguns anos de triste submissão, os Goiás, vivendo no mais duro cativeiro, sem esperanças de uma reação por parte de Camarequê, começaram a sair do torpor em que jaziam para recobrarem a sua independência; e assim, na impossibilidade de reagirem à mão armada contra os seus opressores por causa dos Caiapós e Coroados que os vigiavam em suas tabas, procuraram na fuga a liberdade que tinham perdido.

Não havia um só dia em que pelas serras e florestas vizinhas, não tivessem eles o prazer de ver progressivamente o aumento que iam tendo as suas fileiras com mais um amigo de Goiá, sedento de vingança e liberdade, pronto mesmo a todos os sacrifícios para conseguir esse almejado fim. E assim caminhavam as coisas num crescendo prometedor de dias mais felizes, sem contudo cuidarem de dar uma direção mais conveniente aos elementos que já possuíam para a consecução do que tanto desejavam. Um incidente inesperado, porém, arrancou-os desse torpor em que viviam; em um belo dia, entre muitos goiás que os procuravam no seu refúgio veio a gentil e formosa Aruiara com o corpo todo coberto de cicatrizes, com os cabelos cortados, chorando e pedindo vingança dos ultrajes e sevícias de que foi vítima por parte de Ipoã, a cujo serviço se achava como escrava, e de que só pôde se livrar com a fuga, graças a compaixão que por ela teve um goiá, também escravo, que muito a auxiliou para isso como vigia que era de sua pessoa, prestando-se a guiá-la ao lugar em que os seus se achavam. Este fato que a todos contristou e revoltou com indignação, serviu entretanto, de incentivo para a reação que os Goiás tratavam de levar a efeito, combinando os seus comuns esforços nesse sentido; os elementos de que dispunham foram organizados convenientemente e assim, dentro de pouco tempo ficaram prontos para na primeira oportunidade que se desse, atacarem Camarequê, e os seus, vingando a morte de Goiá e dos brancos, como também os ultrajes feitos a Aruiára.

Essa oportunidade que tardou bastante, afinal sempre se lhes deparou com a notícia que lhes dera um fugitivo. Disse este, que os Caiapós e os Coroados que protegiam e garantiam a autoridade de Camarequê entre os Goiás, devido talvez ao reaparecimento dos brancos nas suas terras, fizeram retirar todos os guerreiros seus que se achavam nas tabas dos Goiás, deixando assim Camarequê entregue aos seus poucos amigos; e que em consequência desse fato os Goiás que ainda lá se achavam conspiravam para a deposição de Camarequê, contando para esse fim com o concurso dos fugitivos, com os quais procuravam entrar em acordo. À vista desta notícia foram ao encontro desses amigos, procuraram entrar em combinação secreta com eles, e conseguiram preparar tudo para um assalto à taba em que se achava Camarequê.

E assim, antes que a passarada da floresta saudasse o dia com seus trinados e despertasse os traidores, foi ouvido três vezes o piado estridente da canã, e, ato contínuo, caíram de surpresa sobre a taba, incendiando-a e exterminando a todos que nela encontraram, desde que não correspondiam ao sinal previamente ajustado com os conspiradores. O traidor e os seus nem tiveram tempo de se armarem para a resistência, sendo Camarequê morto logo no princípio da ação por um golpe de murucus que lhe arre-meçou Aruiara, quando, delirante, o procurava. O infame vinha em fuga com Ipoã, e morreu mesmo nos braços desta, pedindo à Aruiara que a poupasse, mas Ipoã replicava que não, que queria morrer também, e portanto a matasse igualmente com seu marido, cujo cadáver deixou cair dos seus braços.

Foi então que se deu uma cena assaz tocante entre as duas antagonistas. Aruiara, pisando o cadáver de Cama-requê, diz a Ipoã: — Digna filha do valente Mucunã, desculpai este excesso a que sou levada pelo ódio que voto a este miserável que para vos possuir, não duvidou trair os seus, nem vacilou de se prestar infame e covardemente a ser o assassino do seu chefe e benfeitor, atirando-me na mais dura e negra escravidão, juntamente com a nação que pertencíamos. Eu sou, pois, a vingança que veio cumprir o seu dever, e essa vingança não pode se estender à esposa leal e dedicada que, se culpa tem, é a de ter consagrado o seu amor a um ente vil e abjeto que certo não era digno da filha de um valente Caiapó. Não me é dado nem lícito, portanto, fazer à vítima o mesmo que fiz ao algoz. Sois livre, e garanto-vos todo o respeito de que sois digna pelo vosso proceder; não devo matar-vos, pelo contrário, estenderei a mão de amiga àquela que bem merece ser lastimada pelo seu infortúnio, esquecendo-me completamente de quaisquer ressentimentos que porventura possa guardar no coração.

Ao ouvir isto, exclamou Ipoã, revoltada: — Tu abusas, Aruiara, da minha posição; eu não te pedi e nem aceito as tuas garantias: julgar-me-ia vilipendiada e indigna dos meus se assim o fizesse: Não quero saber o que, em tua opinião, fora Camarequê, a quem insultas depois de morto, tripudiando sobre seu cadáver: neste momento só vejo diante de mim esse cadáver querido e uma covarde assassina a desrespeitá-lo, ao mesmo tempo que procura fingir-se de generosa para aquela que o amava extremamente em vida, e saberá honrar a sua memória, orgulhando-se, não de ter sido a sua vítima, mas de ter tanto ou maior responsabilidade em tudo que ele praticou ou fez praticar quando vivo. Atiras-me essas afrontas porque, inerme, não as posso repelir, castigando devidamente à infame que se prevalece das circunstâncias para amesquinhar a sua vítima, que só sente não ter tido a felicidade de sucumbir ao lado do seu estremecido esposo para não estar passando agora por esta revoltante humilhação. Guarda, pois, a tua comiseração para os indivíduos da tua laia; quanto o mim, em vez dela, melhor seria forneceres-me uma arma qualquer para em duelo de morte desagravar-me da afronta que me lançaste em rosto, embora muito me.custe descer da minha posição para bater-me com uma covarde escrava fugida.

Aruiara não se pôde conter diante desta provocação: irritada, arremeçou para um lado o mucurus ainda tinto de sangue que empunhava, como para mostrar que queria ficar em igualdade de condições e avançou furiosa para Ipoã à qual tenta agarrar e estrangular a pulso. Ipoã, porém, que tranquila observava os seus movimentos, fingia aguardá-la, mas, em momento oportuno, desvia-se facilmente de suas mãos, e apanhando-o mucurus que se achava junto ao cadáver de Camarequê, mata-a com um golpe certeiro, e em seguida, virando a arma contra si, cravou-a no coração, caindo inane sobre o cadáver do esposo, proferindo estas palavras: É assim que procede uma caiapó!

Com esse trágico acontecimento e desfecho alguns amigos de Camarequê, que ainda resistiam, submeteram-se incondicionalmente, os ânimos serenaram-se, e vingada ficou assim a nação dos Goiás, sendo Pedro Juraci, o mameluco paulista deixado pelo Anhangüera na aldeia dos Ferreiros, aclamado chefe da mesma. Como tal procurou prepará-la para resistir e repelir a qualquer agressão possível dos Caiapós e seus aliados, os quais clamavam vingança, não esquecendo o insucesso de seus planos e sobretudo a morte de Ipoã.

Certo é que, ou porque temessem a força dos Goiás, ou por outro motivo, a generosa nação nunca mais teve que defender-se de seus rancorosos inimigos; e assim foram vivendo em paz, melhorando suas tabas, cultivando suas terras, sem todavia deixarem de estar prontos e vigilantes para o que desse e viesse.

Coriam as coisas nesse pé quando, certo dia, uns índios que andavam caçando e procurando mel nos arredores da serra do Arari, e que haviam chegado até às vizinhanças das terras dos Carajás, vieram dar parte aos seus que uma índia Caiapó encontrada por eles naquelas alturas avisara-os que os de sua nação, juntamente com os Coroados e Carajás, tinham feito uma aliança para exterminar os Goiás, e nesse sentido preparavam-se, parecendo-lhe até que os Carajás já se achavam em marcha de guerra, pois que, vira há dias. seguindo em sentido contrário à corrente dos Ferreiros, uma multidão de guerreiros, que naturalmente não eram dessa nação.

Pedro Juraci não ligou muito apreço a este aviso, por julgá-lo mui vago, sem fundamentos, pois não podia acreditar, além disso, na aliança dos Carajás, .que eram mais amigos dos Goiás do que dos Caiapos, e depois, dificilmente se abalançavam a deixar as margens do Araguaia; mas, dias depois, um outro índio que também andava caçando na serra do Arari, veio dizer-lhe que do alto da mesma serra avistava-se muito ao longe um numeroso bando de índios que marchavam vagarosamente na direção da serra.

Esta notícia pareceu-lhe mais séria; levou-o a ir em pessoa verificá-la, e chegando ao Arari não conseguiu avistar mais nada, naturalmente porque tal bando se internara nas matas próximas, as quais as colunas de fumaça que se levantavam em vários pontos, bem indicavam essa circunstância.

Na dúvida portanto de serem inimigos, os que se aproximavam, tratou Pedro Juraci de tomar as providências necessárias para evitar surpresas às suas tabas. Assim sendo, como era bastante desabrigada a sua posição dos Ferreiros, resolveu abandoná-la, destruindo tudo quanto nela existia; fez reforçar a caiçara da taba de Arari com fortes contingentes dirigidos pelo chefe Uburitã, e com o resto dos Goiás seguiu para a posição que outrora ocuparam além da serra, tomando conta da bocaina que dá entrada nela.

Distribuindo assim seu pessoal, combinou com Uburitã que dirigia o Arari, para no caso do inimigo atacar aquela taba, opor-lhe, por todos os meios, séria e prolongada resistência para dar tempo a que fosse em seu auxílio, hosti-lizando-o pela retaguarda e obrigando-o a abandonar o campo; e no caso de ser sua posição atacada, seria ele quem devia ter tal procedimento, auxiliando a defesa do posto, o que faria a todo transe.

Combinara mais, que para esse fim deviam manter bandos de exploradores que observassem as intensões do inimigo, no caso de reconhecerem sua disposição de estabelecer no lugar da antiga taba dos Ferreiros, ou outro qualquer da vizinhança, demonstrar hostilidade alguma, fariam um ataque simultâneo à posição que ocupasse, procurando desalojá-lo.

Estavam nessa anciosa expectativa da chegada do inimigo previsto, que ameaçava ocupar a taba dos Ferreiros. Destarte, os Goiás tinham, consoante combinação prévia, de levar a efeito o ataque simultâneo a essa posição e preparavam-se para esse fim quando outro dos seus exploradores veio dizer a Juraci que, entre as gentes que se achavam nos Ferreiros, viu muitos brancos, barbados, com trajes idênticos aos que usavam os outros, que outrora ali estiveram e mais, ainda, uns individuos pretos, que andavam meio nus, a vigiarem uns animais grandes, que pastavam nos arredores do acampamento.

A vista desta informação ao chefe dos Goiás que não eram nem os Caiapós, nem os Coroados, nem os Carajás os inimigos que ali estavam, e sim os mesmos outros iguais aos que lá estiveram com o grande Anhangüera, cuja volta àquelas paragens, esperavam.

O cacique dos Goiás transmitiu essa tão auspiciosa nova aos seus, e o regosijo foi geral no acampamento. Em seguida mandou sustar o ataque que tencionavam levar a efeito, e, só, inteiramente desarmado, Pedro Juraci foi à presença do Anhangüera, para ainda uma vez, em nome dos Goiás, afirmar-lhe que os mesmos, sempre leais e dedicados, continuavam a ser seus amigos.

Ao alvorecer do dia, chegando às avançadas das forças paulistanas, o cacique Goiá a elas se apresentando, pediu permissão para falar aos chefes dos brancos de parte dos Goiás.

Concedida a permissão solicitada, com as cautelas do costume, Bueno, em sua tenda de campanha, e cercado dos principais chefes da bandeira, aguardou ali a vinda do tal índio. Daí a pouco, este, convenientemente escoltado e desarmado, apresenta-se ao chefe dos brancos; era um índio bastante idoso, trajava-se à moda dos chefes selvagens em dias de festa, tinha um porte sereno e respeitável, e caminhava de cabeça erguida e com desembaraço. Ao aproximar-se de Bueno, encarou-o com respeito e depois, curvan-do-se até quasi ao chão como sinal de cortesia e submissão, e ao que Bueno procurou corresponder com a gentileza e fidalguia que lhe eram peculiares, permitiu que o velho cacique falasse.

Bueno, que ouviu com atenção a narrativa do índio, ao vê-lo terminar, estendeu-lhe a mão de amigo e disse: — Que não era o Anhangüera, por que o tinha tratado, e sim o filho dele, tendo estado ali com seu pai quarenta anos passados; que as gentes que o acompanhavam, eram todas da mesma procedência daqueles que tão gratos eram aos Goiás pelo agasalho que lhes deram em tempo nas suas terras; e que, portanto, os de hoje saberiam imitar o procedimento dos de ontem, trazendo-lhe a paz e os benefícios de que eram dignos pela amizade demonstrada e serviços prestados a seu pai.

Exortava-o, pois, a voltar à floresta em que se achava com os seus, e a dizer a estes, que restabelecida estava a aliança de outrora, podendo por isso voltar às suas ferras e tabas, cuja posse lhes assegurava e garantia.

— Cumprirei as vossas ordens, retorquiu-lhe o índio; mas antes de o fazer, quero dar-vos uma boa notícia que me escapou na narrativa que fiz.

Refere-se ela a Pedro Ortiz de Camargo, ou por alcunha Pedro Juraci, o único dos nossos que escapou às garras de Camarequê.

Pedro, o amigo querido dos Goiás, ainda vive, se bem que velho e acabado; esquecido dos seus, que parecia terem-no abandonado nestes sertões entre os que eles chamam de selvagens, fez-se também selvagem, e como tal, diz desejar morrer. Estou porém certo, de que se êle aqui estivesse agora, a fitar, como eu, o filho de seu grande chefe, esquecer-se-ia de tudo, até de que se chama hoje Tapirapoã, para dar-lhe um abraço, como ora o faz…

E ambos os aventureiros cairam nos braços um do outro, chorando de satisfação.

Por este acontecimento tido como auspicioso em ambos os acampamentos, foram celebradas festas prolongadas, em que paulistas e indígenas se confraternizaram; mas um carai-bê-bê, passando à noite do último dia de festa no acampamento dos Goiás, vendo estes assim alegres e satisfeitos, a dançarem ao som das inúbias e borés, chamou a atenção deles para a côr escura que Jaçu (a lua) havia tomado na ocasião, e para os piados agourentos das corujas que não cessavam de esvoaçar por cima de suas cabeças…

Henrique Silva: Sumé e o Destino da Nação Goiás. Tipografia do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1910, pp. 7-51.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

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Gottfried Heinrich Handelmann (1827 – 1891)

História do Brasil

Traduzido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (IHGB) Publicador pelo MEC, primeiro lançamento em 1931.

TOMO II

CAPÍTULO X

A capitania geral do Rio de Janeiro

Ao sul do rio Mucuri (18°-30′ de latitude sul), começa o quarto grupo de Estados brasileiros, a capitania geral, depois vice-reino, do Rio de Janeiro, que, a 17 de setembro de 1658, portanto, mais ou menos ao mesmo tempo que a capitania geral de Pernambuco, foi emancipada da autoridade do governador-geral na Bahia.

O capitão-general deste novo território teve a sua sede na cidade de São Sebastião, situada na baía do Rio de Janeiro, e dali governava ele diretamente a real capitania de igual nome e a já completamente incluída, antes capitania feudal, dos Campos dos Goitacases (Paraíba do Sul ou São Tomé), ao passo que sobre os governos hereditários de Espírito Santo, São Vicente e Santo Amaro, apenas exercia fiscalização. Todavia, logo houve uma mudança nessa situação, pois também aqui foram pouco a pouco extintos os poderes feudais. Assim aconteceu com a capitania do Espírito Santo: depois de haver ela ficado século e meio na família do primitivo donatário, Vasco Fernandes Coutinho, um de seus descendentes, Antônio Luís da Câmara Coutinho, vendeu-a, cerca do ano 1690, pela quantia de 40.000 cruzados, ao coronel Francisco Gil Araújo; mais tarde, ainda mudou de dono duas vezes, até que, finalmente, em 1717, o rei d. João V comprou por 40.000 cruzados o Espírito Santo e incorporou o mesmo às terras da coroa.

Por outro lado, formou-se um feudo novo em Campos dos Goitacases; isto é, por um documento de 15 de setembro de 1674, concedeu o rei d. Pedro II ao visconde de Asseca um litoral de 20 léguas, portanto a maior parte da antiga capitania de São Tomé, sob o nome de capitania da Paraíba do Sul; e, de fato, foi com isto este donatário obrigado a fundar duas cidades, uma para porto e outra no interior das terras — condição que ele cumpriu de modo satisfatório, com o estabelecimento ou antes o restabelecimento dos dois povoados, São João da Barra e São Salvador (Campos), ambos no rio Paraíba.

A família do donatário, contudo, pouco gozou do seu novo domínio; os colonos, reunidos de muitas procedências diversas, sem escolha, eram uma gente muito desassossegada e viviam em contínuas rixas, ora com o clero, ora com a autoridade; no ano de 1720 chegou mesmo o estado de coisas a uma formal revolução. Justamente a esse tempo, o clero, após longas altercações, havia excomungado os funcionários civis; instigou então o povo, e este, guiado por Bartolomeu Bueno, sublevou-se; todos os magistrados foram encarcerados e, como prisioneiros, deportados para o Rio de Janeiro; apenas por um triz a tal tratamento indigno escapou o lugar-tenente do donatário, pela fuga. Imediatamente depois, mandou o capitão-general do Rio de Janeiro tropas contra os revoltosos, e, Bartolomeu Bueno, com o seu bando, depois de haver tentado diversas vezes, sem resultado, a sorte das armas, foi durante tanto tempo perseguido, que evacuou a região.

Todavia, também depois de sua retirada e apesar de uma nova remessa de tropas, em 1728, a tranqüilidade e a ordem não se restabeleceram de modo permanente. A autoridade feudal era sempre desafiada publicamente; cerca de 1740, o conselho municipal de São Salvador (Campos) mandou embora, sem mais, um oficial que, por patente do governador, vinha assumir o comando militar; oito anos depois, 1748, quando morreu o donatário, chegou mesmo a audácia ao ponto de se recusar reconhecimento ao próprio filho e herdeiro, e somente depois de formais avisos ameaçadores do Rio de Janeiro, condescendeu o conselho municipal de São Salvador em prestar homenagem ao novo senhor da terra; porém, então, revoltou-se o povo, destituiu o complacente conselho municipal de suas funções e obstinou-se na oposição.

De todo modo, não se pôde resistir às forças reunidas do Rio de Janeiro e Espírito Santo; já em julho de 1748, estava São Salvador nas mãos das tropas do governo, e uma guarnição permanente assegurou daí em diante a obediência da população; contudo, ficou bem evidente para todos que a forma de governo feudal já havia passado do tempo aqui. Concluiu-se então um ajuste entre o rei d. José Manuel e o donatário, visconde de Asseca, no qual este último, mediante uma renda anual de 3.000 cruzados, renunciava a todos os seus direitos de propriedade; extinguiu-se a capitania da Paraíba do Sul e foi incorporada à capitania do Espírito Santo (l9 de junho de 1753). Assim ficou ela, então, durante oitente anos, até que, no curso dos anos de 1832-33, o parlamento brasileiro, por diferentes decretos, a separou e anexou à província do Rio de Janeiro, da qual forma atualmente uma comarca, sob o nome de Campos dos Goitacases.

Finalmente, quanto aos dois últimos feudos, os mais meridionais, São Vicente e Santo Amaro, haviam sido concedidos, como se sabe, primitivamente, a dois irmãos, a Martim Afonso de Sousa e a Pero Lopes de Sousa, e se transmitiam hereditariamente, na sua descendência. Pelas singulares condições territoriais da posse — cada uma das duas capitanias repartia-se em duas partes e as quatro eram contíguas e entremeadas; e quanto a uma demarcação de fronteiras, a ciência de então não bastava — não faltavam motivos para atritos; todavia, durante o século XVI, tudo andou bem; ambas as famílias governantes entenderam-se mesmo para uma administração em comum, em muitos sentidos centralizada; porém, com o tempo, os dois ramos, pouco a pouco, se foram afastando cada vez mais um do outro, os laços de parentesco afrouxaram, começaram os conflitos e processos sobre questões de limites, que duraram muitos anos.

Simultaneamente, quando em princípios do século XVII em ambas as famílias se extinguiu a descendência masculina direta, declarou-se entre o perentesco colateral uma contenda sobre os direitos do parente mais próximo; não pormenorizamos aqui os resultados; basta mencionar que, cerca de 1617 até 1621, foram reconhecidos e sancionados os condes de Monsanto como legítimos herdeiros de Pero Lopes, em Santo Amaro, os marqueses de Cascais como legítimos herdeiros de Martim Afonso, em São Vicente; porém, os condes de Monsanto tomaram posse em primeiro lugar, e com toda a espécie de artimanhas conseguiram deslocar os limites, de tal modo que as três cidades, São Vicente, Santos e São Paulo, foram atraídas para a capitania de Santo Amaro; por outro lado, os loco-tenentes do marquês de Cascais estabeleceram agora a sua sede mais para o sul, na cidadezinha do Itanhaém, cerca do ano de 1624.

Assim, daí em diante, diferenciam-se, segundo as novas capitais, os feudos principais de São Vicente (mais acertadamente Santo Amaro e São Vicente) e Itanhaém. Com esses princípios, naturalmente, as contendas entre ambos os vizinhos limítrofes nunca cessaram; porém, em breve, a questão se tornou mais complicada, pelo fato de entrar na liça do novo candidato, o conde da Ilha do Príncipe, que se apoderou de ambas as povoações de Cananéia e Paranaguá, que faziam parte da capitania de Itanhaém (1653). E verdade que três anos depois, 1656, teve que se retirar dali; entretanto, a sua influência na corte de Lisboa era muito poderosa, e ele soube conseguir que os direitos de posse de ambas as famílias Monsanto e Cascais fossem anulados, porém que fosse adjudicada a ele, conde da Ilha do Príncipe, a herança total de ambos os irmãos Sousa (1679).

Em vez das duas capitais, como até aqui, foi, ao mesmo tempo, elevada a cidade São Paulo a sede do governo provincial, de ambas as capitanias. Santo Amaro-São Vicente e Itanhaém reuniram-se numa só, que daí em diante usou o nome da capital, São Paulo.

Pode-se logo imaginar que os donos desapossados, Monsanto e Cascais, levantaram vivos protestos; de novo surgiu um processo, que durou trinta anos, e afinal se concluiu tomando o rei d. João V posse para si do objeto da contenda, a capitania de São Paulo, que reuniu às terras da coroa; ao marquês de Cascais, cujos direitos se provaram melhores e mais extensos, ele concedeu, além de algumas honrarias, uma indenização de 40.000 cruzados (18 de setembro de 1711); porém, os condes de Monsanto e os condes da Ilha do Príncipe tiveram as suas reclamações simplesmente recusadas.

Assim, todo o território ao sul do rio Mucuri passou ao imediato domínio da coroa; porém, não ficou todo com a capitania do Rio de Janeiro; a jurisdição seria demasiado extensa, e os descobrimentos de ouro, de então, no interior (província de Minas Gerais), que atraíam de todos os lados imigrantes, na maioria, da espécie mais licenciosa, tornaram necessária uma severa fiscalização; o rei d. João V elevou, por isso, a capitania de São Paulo, com o interior rico em ouro, a capitania geral autônoma — São Paulo e Minas (9 de novembro de 1709).

A capitania geral do Rio de Janeiro ficou com isso limitada à atual província do mesmo nome e à vizinha Espírito Santo; mais tarde, porém, foi-lhe anexada, por decreto real de 11 de agosto de 1738, o extremo sul do Brasil, que hoje compreende as províncias de São Pedro do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Além disso, tocar-lhe-ia em breve ainda uma grande distinção, passando o título e as honrarias de vice-reino, que até então pertenciam ao governador-geral da Bahia, para a sua capitania geral; e o primeiro vice-rei do Estado do Brasil, que residiu no Rio de Janeiro, foi o conde Antônio Álvares da Cunha, o IX, de 16 de outubro de 1763 a 21 de novembro de 1767; sucedeu-lhe o X, Antônio Rolim de Moura, conde de Azambuja, até 4 de novembro de 1769; em seguida o XI, Luís d’Almeida Portugal Soares de Eça Alarcão Silva Mascarenhas, marquês do Lavradio, até 5 de abril de 1779; o XII, Luís de Vasconcelos e Sousa, até 9 de julho de 1890; o XIII, Luís de Castro, conde de Resende, até 14 de outubro de 1801; o XIV, Fernando José de Portugal, conde e mais tarde marquês de Aguiar, até 21 de agosto de 1806; finalmente o XV, Marcos de Noronha, conde dos Arcos102, que a 7 de março de 1808 entregou o bastão do seu cargo às mãos da rainha d. Maria e do príncipe-regente D. João VI; extinguiu-se o vice-reinado, quando um verdadeiro rei pisou o solo brasileiro.

Imediatamente, em seguida, foi dividida também a capitania geral do Rio de Janeiro, foram colocadas diretamente sob o governo central, como havia sido disposto, pelo decreto de 25 de fevereiro de 1807, ambas as províncias de São Pedro e de Santa Catarina; a mesma coisa aconteceu ao Espírito Santo. Somente ficou até certo ponto em comum a justiça, porque ainda atualmente devem recorrer à Relação de Segunda Instância, que foi fundada na cidade do Rio de Janeiro, a 15 de julho de 1751, quase todas as províncias que a princípio pertenciam à jurisdição da capitania geral deste mesmo nome.

Quanto às condições da Igreja, já havia sido estabelecida uma prelazia, por um breve papal, de 19 de julho de 1575 e decreto real de 11 de maio de 1577, na cidade do Rio de Janeiro; independente do bispo da Bahia, devia ela administrar as capitanias sul-brasileiras. Ela subsistiu cem anos; então foi o Rio de Janeiro elevado, pela bula de 16 de novembro de 1676, a diocese, cujo bispo devia ser sufragáneo do novo arcebispo da Bahia, e era essa diocese encarregada de toda a antiga esfera da capitania geral do Rio de Janeiro.

Todavia, fizeram-se depois importantes mudanças ali; por bula papal, de 6 de dezembro de 1746, tiveram as províncias de São Paulo e Minas Gerais cada uma o seu próprio bispo; igualmente, nos últimos anos, a província do Rio Grande do Sul; de sorte que a diocese do bispo do Rio de Janeiro compreende atualmente só três províncias: a de igual nome, a de Espírito Santo e a de Santa Catarina.

* * *

Contemplemos agora as diferentes províncias de nossa capitania geral. Primeiramente, a província do Espírito Santo, limitada ao norte pelo rio Mucuri, ao sul pelo rio Itabapoana, que desemboca algumas léguas ao norte do rio Paraíba do Sul, no oceano Atlântico; abrange ela uma área de 3.000 léguas quadradas, com mais ou menos 51.300 habitantes. Por conseguinte, se excetuarmos o Alto Amazonas, é a mais escassamente povoada entre todas as regiões brasileiras; ela constitui, com o território sul-baiano, a velha capitania de Porto Seguro e dos Ilhéus, o trecho de costa atlântica que, após 300 anos de colonização, é a que ainda mais atrasada permanece — uma região selvagem, pobremente cultivada, entre a baía de Todos os Santos e a baía do Rio de Janeiro.

 

E, entretanto, as condições naturais, aqui, não são, em absoluto, desfavoráveis. Ao longo da praia do mar, que é acompanhada por ininterrupta série de escolhos chamados Abrolhos (em português: "Abra os olhos"), continua em considerável largura a abençoada tira de costa que mencionamos em Pernambuco e Bahia como muito própria para o cultivo de produtos coloniais — açúcar, algodão e café.

Seguindo para o interior, eleva-se o solo pouco a pouco em lombadas baixas e vai sempre subindo para o planalto interior brasileiro de Minas Gerais; aqui não são mais as planícies desnudas e pobres de águas e de árvores, do planalto ao norte, mas por toda parte rica vegetação tropical, e solo regado e sulcado por numerosas caudais encachoeiradas.

Porém, justamente essas montanhas cobertas de matas foram grande impedimento à colonização, pois ofereciam ao indígena seguro esconderijo, de onde se lançava em assaltos devastadores sobre as colônias européias, e onde rapidamente se refugiava, antes que os prejudicados se pudessem levantar em represália.

Toda a historia dessa região e especialmente da província do Espírito Santo, visto ela (excetuando um assalto de holandeses contra a cidade de Vitória, 1625) não haver tomado parte alguma nos grandes acontecimentos históricos, limita-se às alternativas de guerra com as tribos selvagens dos Aimorés (Botocudos), Puris e Goitagases, que uma vez ou outra, depois de pesadas derrotas, se conservavam sossegados mais tempo, às vezes durante decênios, porém, logo que se restabeleciam ou se reforçavam com alianças novas, reencetavam as antigas guerras.

Contentamo-nos em apontar o resultado: a colonização portuguesa teve que limitar-se exclusivamente sempre à imediata proximidade do mar, e, como não recebesse auxílio, nem de imigração, nem outro qualquer, dificilmente também aqui ela se teria podido manter, -se não lhe houvessem vindo em socorro algumas numerosas tribos de índios da costa.

Estes, convertidos pelos jesuítas, na guerra contra as hordas selvagens das matas das montanhas, puseram-se ao lado dos brancos e acostumaram-se à vida de lavoura; eles fundaram perto das primitivas povoações dos brancos, Espírito Santo (Vila Velha), Vitória, São Mateus, as aldeias de missão — Itapemirim, Reri-tigba ou Benevente, Almeida, etc, cujos inícios datam, na maioria, dos fins do século XVI, e que até a expulsão da Companhia de Jesus (3 de setembro de 1759) alcançaram um considerável desenvolvimento e não pequeno grau de florescência; contavam-se então mais ou menos uns 40.000 índios civilizados, que viviam contíguos à população branca, mas, absolutamente, não mesclados à mesma pelo contrário, era por lei proibido aos brancos penetrar nas aldeias das missões, sem especial licença, e outra parede divisória era mantida pelo fato de conservarem os jesuítas o uso da língua primitiva dos índios.

Com o tempo, tudo isso mudou, para desvantagem dos índios; os novos regulamentos do marquês de Pombal, de 17 de agosto de 1758, produziram aqui o mais prejudicial efeito, como, aliás, por toda parte; os índios a princípio sob a fiscalização de diretores, depois entregues completamente a si mesmos, voltaram ao estado de selvageria e dispersaram-se, e assim subsiste atualmente aqui apenas um único aldeamento, com 70 habitantes meio civilizados; todas as restantes povoações índias, inteiramente ou em grande parte, passaram às mãos de colonos brancos, e tomaram lugar entre as mais importantes cidadezinhas provinciais.

Em lugar do sistema destruído, depois que o Espírito Santo, ano de 1809, obteve a sua completa autonomia provincial, recorreu-se a outros meios, para elevar de novo esta província abandonada. Primeiramente, procurou-se atrair para ali a imigração estrangeira. O governo do império mandou buscar dos Açores um certo número de colonos, cerca de 50 famílias, que, a 14 léguas ao noroeste da capital, Vitória, entre os rios Itaquari e Santo Agostinho, então se estabeleceram na encosta da serra dos Aimorés; a fundação recebeu o nome de Viana, nome do intendente -geral da polícia, Paulo Fernando Viana103, que vivamente se interessou pelo plano e cooperou na sua realização (1812-1816). Contudo, a princípio foi duvidoso o êxito; o clima tropical, as insalubres emanações das baixadas vizinhas e os pesados trabalhos dos primeiros estabelecimentos ceifaram muitas vidas de colonos; além do que Viana, que devia servir como que de obra avançada para Vitória, teve de sofrer repetidos ataques dos Botocudos selvagens, pelo que a maioria dos açorianos tratou de fugir; porém, o governo mandou buscá-los de novo por soldados e deu ao povoado uma guarnição para sua defesa e vigilância. Pouco a pouco, foram melhorando as condições, e Viana subsiste ainda, em geral cuidando da cultura do café, todavia sem grande importância, e sobretudo sem que o seu exemplo tenha exercido influência digna de nota para a imigração e a lavoura.

Somente no ano de 1847 foi empreendida segunda tentativa de colonização, fundando o então presidente provincial, Luís Pedreira do Couto Ferraz, a colônia Santa Isabel, nos arredores de Vitória; primitivamente povoada com 176 imigrantes alemães, que receberam as suas terras em donativo, contava, no ano de 1850 apenas 164 habitantes, que foram elevados, até 1856, a 225.

Além dessa, foram projetadas mais duas colônias em tempos recentes: Rio Novo, custeada por uma companhia de colonização, constando de 20 léguas quadradas de terras, onde são oferecidos lotes por aforamento ao imigrante, e Santa Maria, na margem do pequeno rio de igual nome, constando de quatro léguas quadradas, onde o próprio governo vende as terras para livre posse.

Todavia, todas estas coisas passam para segundo plano; o mais importante aspecto na história provincial moderna são os planos para a navegabilidade do rio Doce; e, para podermos apreciar esta obra, devemos lançar ainda um golpe de vista sobre as condições geográficas.

 

 

Do núcleo de rocha do coração do Brasil, da província de Minas Gerais, des-penham-se, em direção ao mar, perpendiculares à costa, três cursos de água de ordem média; ao norte, o rio Jequitinhonha (Belmonte), que desemboca a pouca distância de Porto Seguro, província da Bahia (e já mencionamos que desde mais de 40 anos se pensa em tornar navegável esse rio), depois o rio Mucuri e o rio Doce, que ambos têm a sua embocadura em terras do Espírito Santo. Todos estes rios, ao primeiro golpe de vista, parecem oferecer as naturais vias de comércio entre o interior e a costa; porém, tal não se dá, pois sendo o seu curso relativamente curto, tanto maior é a sua queda; em sucessivas cachoeiras fazem caminho pelos diversos degraus do planalto, e a grande quantidade de massa de aluvião, que as águas bravias arrebatam consigo e depositam no curso inferior, tornam essa parte da costa somente navegável por embarcações de pequeno calado; para efetuar uma comunicação fluvial, portanto, tem-se de contar com colossais esforços e despesas.

O governo português-brasileiro, enquanto persistia no velho cioso sistema colonial, não queria outra coisa; a fim de poder melhor fiscalizar a exportação, sobretudo de metais e pedras preciosas de Minas Gerais, procurava concentrar a mesma, quanto possível, no Rio de Janeiro; e, se o comércio feito ali com os portos do Espírito Santo (respectivamente Porto Seguro), não era formalmente proibido, todavia nada se fazia para torná-lo possível, para facilitá-lo; deixaram-se os rios no seu estado natural e deixaram-se em paz as tribos selvagens, que tornavam pouco seguras as vizinhas montanhas cobertas de matas.

Esse estado de coisas só mudou, quando, com a transferência da família de Bragança (1808), cessou o antigo constrangimento colonial; ambas as partes; o interior e a costa, desejavam ligar-se, e o governo, acedendo a estes desejos, resolveu construir uma estrada entre as cidades de Vitória (Espírito Santo) e Mariana (Minas Gerais), ao longo do rio Doce. Logo o primeiro governador provincial do Espírito Santo, Antônio Pires da Silva Pontes Leme (1809 e seguintes), empreendeu uma exploração desse rio e fundou, à margem sul do mesmo, a pouca distância da fronteira de Minas Gerais, o Porto de Sousa, que, provido de uma guarnição militar, devia conter os selvagens botocudos e assegurar o tráfego; nesse mesmo tempo, cerca de 1810, foi fundada segunda aldeia, no curso inferior do rio, Linhares, assim chamada em honra do ministro de Estado de então, conde de Linhares, a qual daí em diante progrediu bastante e no ano de 1839 subiu à categoria de vila.

Também pelo outro lado, alguma coisa se fez; em Minas Gerais: no curso superior do rio Doce, cerca do ano 1820 e seguintes, o francês Guido Tomás Mar-lière 104 e 104"A, como diretor geral, trabalhou com grande resultado para a civilizacão dos índios; conseguiu por seu modo de proceder, inteligente e humanitário, pacificar diversas populações selvagens, que até então haviam vivido na mais feroz inimizade com os brancos e entre si, e convertê-las para a vida domiciliada, de sorte que nestas regiões de certo modo se assegurou a paz pública. O tráfico foi pouco a pouco atraído para o novo caminho: todavia, pela condição do rio e como, demais, a travessia era sujeita a um imposto de fronteira provincial, ele ficou de pouca monta, razão pela qual se julgou conveniente chamar em auxílio o concurso do interesse estrangeiro.

O governo do império cedeu em 1824 a navegação do rio Doce e exploração das minas de ouro, e em todos os seus afluentes, a uma companhia anglo-brasileira, que de seu lado também não tirou proveito algum digno de nota e, depois de haver aplicado ali inutilmente avultadas quantias, extinguiu-se às caladas.

Sem embargo, formou-se dez anos depois segunda companhia anônima de acionistas, a Companhia de Navegação a Vapor para o rio Doce, que obteve plenos poderes para tornar navegável este rio, por arrebentamento das cachoeiras ou pelo estabelecimento de canais de desvio; para esse fim lhe foi garantido por vários anos o monopólio da navegação entre o mar e a cidade de Mariana, e, além disso, em todos os pontos da margem que julgasse apropriados para fundação de colônia, doação de duas léguas quadradas de terra (1835).

No ano de 1839, começaram os trabalhos preparatórios, e, em 1841, pôs-se em movimento o primeiro barco a vapor no rio Doce; porém, imediatamente depois, a empresa, com grande prejuízo dos acionistas interessados, acabou de modo lamentável.

Esse duplo insucesso de exploração estrangeira, sem dúvida alguma, deve ser imputado em parte às intrigas e à má vontade da população brasileira, que no seu ciúme via com maus olhos firmar-se uma potência financeira estrangeira nesse distrito suposto aurífero; porém, as razões principais foram, entretanto, os quase insuperáveis obstáculos naturais e, sobretudo, o clima insalubre do vale profundamente cavado. É que o rio Doce e seus afluentes, quando crescem no tempo das águas, transbordam por toda parte; e, como o seu curso passa em geral por entre densas matas virgens, não pode aqui o sol secar a terra encharcada; assim se formam nas matas extensos pantanais, cujas exalações mortíferas engendram as mais malignas febres; e essas doenças não ameaçam somente o imigrante estrangeiro, porém igualmente o colono indígena, mesmo no pior dos casos, o própio viajante que ali transita tem por muito tempo que sofrer as suas conseqüências. Em todo caso, pode esse inconveniente, com o tempo, ser removido pelas roçadas; porém isso custará muitos sacrifícios de vidas humanas, que o Brasil de fato não pode fazer; e a Europa dificilmente o quererá fazer.

Nos tempos mais recentes, volveu-se a atenção pública de preferência para o terceiro rio, o rio Mucuri, onde as condições para a navegação parecem mais favoráveis ; no mais, porém, é o mesmo que no rio Doce.

Já desde anos havia pensado o governo brasileiro em estabelecer colônias, aproveitando os malfeitores condenados das vizinhanças de Minas Gerais e Bahia, entre o Mucuri e o afluente Todos os Santos, em terras de Minas Gerais; todavia, nada deu esse plano; em compensação, atualmente a iniciativa particular tenta ali fundar uma colônia denominada Saxônia, povoada com imigrantes alemães. A coisa estava assim esboçada: a 19 de outubro de 1847 foi sancionada, por decreto imperial, a Companhia Mucuri, que se encarregava de tornar navegável o rio Mucuri, e por essa via estabelecer uma comunicação regular entre o Rio de Janeiro e a cidade de Minas Novas ou Fanado (província de Minas Gerais); em troca, obtinha como privilégio durante quarenta anos o exclusivo transporte de todas as mercadorias nessas paragens, a um preço máximo fixo, cessão do imposto provincial de importação e o (monopólio?) comércio de vinho, sal, ferro, chumbo, aço, etc. Ao que se diz, a companhia já havia adquirido um vapor de mar, Mucuri, para a viagem do Rio de Janeiro até São José de Porto Alegre, na foz do Mucuri, e dois pequenos rebocadores para a navegação fluvial, e a comunicação se inaugurou a 20 de agosto de 1855.

Entretanto, parece que não se considera toda essa empresa como bastante rendosa, e, por isso, se quer anexar a ela um negócio de terras. Assim foram compradas no acima mencionado distrito (província de Minas Gerais) 10 léguas quadradas de terras do Estado e no ponto central das mesmas, à margem do rio Todos os Santos, foi demarcada uma "cidade do amor fraternal", Filadélfia, pela engenheiro alemão Robert Schlobach, a qual devia servir como estação intermediária entre Minas Novas e São José de Porto Alegre. Logo em seguida apareceu em Leipzig — como disse a crítica105 brasileira, — uma publicação "espontânea, totalmente alemã", que recomendava o mais calorosamente possível a empresa aos emigrantes alemães; ao passo que de um lado gabava, exaltava a segurança da Companhia Mucuri e às favoráveis condições para compra de terras que se ofereciam aos colonos, por outro lado dava da natureza do terreno e do clima as mais tranquilizadoras garantias106.

Nós cremos e esperamos que o mencionado folheto não tenha tido nem venha a ter resultado digno de nota; "de mais a mais", assim refere uma carta particular da Bahia, que temos presente, "quem não tiver medo das febres palustres e maleitas, das quais morrem até os próprios soldados e engenheiros e seus auxiliares brasileiros, esse cuide de reconciliar-se com Deus" *.

* * *

A vizinha do Espírito Santo, ao sul, a província do Rio de Janeiro, que desde 1832-33 também contém os Campos de Goitacases, é limitada em sua maior parte pelo curso principal do rio Paraíba (índio— "o rio claro")107 e alguns afluentes, compreende uma área de cerca de 1.352 léguas quadradas. Ela consiste, em grande parte, de um planalto médio, no qual as montanhas da costa, quase a meia distância entre o Paraíba e o mar, percorrem toda a província e de ambos os lados estendem as suas ramificações e declives; na proximidade de Cabo Frio, o planalto vem quase à imediata vizinhança da costa. Assim, devemos considerar a parte norte da província, Campos de Goitacases, como o último prolongamento da fértil baixada da costa, que começa mais ou menos junto do rio Paraíba do Norte, vindo terminar aqui junto do Paraíba do Sul.

Todavia, também o planalto primitivamente, e ainda hoje, em grande parte coberto de matas, não é estéril, absolutamente; além de ser próprio para o cultivo das plantas alimentícias comuns, presta-se especialmente para o cafeeiro; e este último tornou-se aqui, como nos territórios vizinhos de igual formação — províncias de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina — o principal artigo de comércio, de maneira que este grupo de províncias cafeeiras pode ser equiparado às províncias açucareiras do Norte tropical.

No capítulo oitavo caracterizamos o cafeeiro como planta democrática, em contraste com os aristocráticos algodoeiro e cana-de-açúcar; portanto, dever-se-ia esperar aqui uma composição social diferente; contudo, não é esse o caso. Pois, assim como no Norte, também na costa sul a princípio era o açúcar propriamente a principal indústria, e, somente depois que por seu efeito se firmaram as condições das fazendas e da sociedade, é que surgiu a produção do café; só em 1770, sobretudo graças aos especiais esforços do vice-rei marquês do Lavradio, se deu ao plantio do café maior atenção; só desde 1820 é que figurou o café entre os artigos de exportação; e, embora daí em diante, de ano para ano, ele sempre fosse tomando a precedência sobre o açúcar, não conseguiu até aqui modificar coisa alguma nas condições locais estabelecidas.

Encontra-se por isso aqui, no Rio de Janeiro, fundamentalmente a mesma composição de povo, como nas províncias do norte (açucareiras): uma população escrava, que pelo menos faz contrapeso à população livre, e, por outro lado, entre os livres, em contraste com uma grande massa de povo destituída de recursos, uma pequena aristocracia de fazendeiros rurais, que tem nas suas mãos mais ou menos todas as terras e, embora incapaz de só por si tirar proveito delas, todavia, pelo seu cioso capricho de soberania, não quer abrir mão de coisa alguma. Daremos a este respeito apenas um exemplo mais frisante.

No início do século XIX, estava quase todo o distrito de Campos dos Goitacases repartido entre quatro fazendeiros apenas, portanto cada um deles tinha de seu um território de colossal extensão; contava cada um deles com um grande número de arrendatários, que anualmente pagavam módico imposto territorial e cujo contrato, em regra geral, só valia por quatro anos; contudo, raramente se negava prorrogação do mesmo, e muitos sítios arrendados estavam já desde muitas gerações nas mãos da mesma família. Se esse estado de coisas subsiste até ao tempo atual, é o que resta a saber; em todo caso, porém, o certo é que ainda é sempre muito difícil para o pequeno lavrador, é mesmo quase impossível adquirir a sua parenteticamente o étimo indígena "der böse Fluss", isto é, "o rio mau". Mas, à pág. 448, à qual corresponde a desta nota, adotou outra forma gráfica, Paraíba, dando-lhe novo sentido, "der klare Strom", "o rio claro". Ora, o vocábulo é o mesmo, e a sua exata significação é a primeira acima indicada, "rio mau", como se pode ver no livro, já tantas vezes citado, de Teodoro Sampaio, O Tupi na geografia nacional, pág. 254.

 

No ano de 1854 foi apresentado ao imperador d. Pedro II um ancião de mais de cem anos, Francisco Tomás da Silva, filho de pais brancos, de Pirai, na província do Rio de Janeiro, que havia reunido em torno de si uma prole de filhos, netos e mais descendentes, num total de 263 pessoas; e, entre todos, nem um só deles, nem o avô nem o neto, jamais havia podido chamar seu um só palmo de terra que fosse; sempre o trabalho de suas mãos havia beneficiado um estranho: o dono das terras. Como teria sido em tudo diferente a sorte de uma tal família nos Estados Unidos da América do Norte!

É quanto basta dizer sobre o desenvolvimento do povo no interior; voltemq-nos agora para a história exterior. A capitania do Rio de Janeiro havia tido durante os primeiros cem anos, com curtas interrupções, três governadores de uma só família, dos Correas de Sá: Salvador (1568-72, 1576-1598), seu filho Martini (1602-8, 1618-31), e seu neto Salvador (1637-42, 1658-62); e sob o governo deles rapidamente progrediu, tanto que por suas próprias forças o último referido Salvador pôde reunir um considerável contingente de soldados e dinheiro para aquela expedição marítima que ele, no ano de 1648, empreendeu para reconquistar as antigas colônias portuguesas na África.

O motivo dessa relativamente rápida florescência em grande parte residia no negócio de comissões e corretagem que os comerciantes das praças marítimas brasileiras, sobretudo as de Santos e São Sebastião, faziam com as colônias do Prata e, por intermédio delas, ainda mais além, com o interior do Peru. A princípio severamente proibido (1552), a coroa de Espanha, todo o tempo de seu domínio sobre Portugal (1580-1640), tacitamente consentiu nesse tráfico; em seguida, depois da separação dos dois reinos, ela procurou na verdade suprimi-lo, e em quase todos os tratados devia Portugal prometer a sua cooperação para esse fim, promessa que, contudo, por muito tempo, não foi cumprida.

Porém, quanto era importante tal comércio, demonstra-o a seguinte notícia: no ano de 1693 sobreveio, afinal, uma paralisação desses negócios, pela ação conjunta das duas coroas, e, então, só na cidade do Rio de Janeiro ficou retido em mercadorias um capital de 600.000 cruzados, sem contar as quantias menos avultadas, porém sempre importantes, nos outros portos sul-brasileiros. Desse golpe nunca mais se restabeleceu inteiramente aquele comércio, c, se de fato não se extinguiu, todavia mudou de roteiro daí em diante. Ê que o gabinete de Lisboa, sobretudo desde lins do século XVII, quando, pelos descobrimentos de ouro em Minas Gerais, o território central do Brasil havia adquirido excepcional valor para a coroa de Portugal, julgou necessário suprimir ali, com o máximo rigor, todo o comércio estrangeiro; ao contrário, os portos mais importantes, do Sul, especialmente a recém-fundada colônia do Sacramento, portuguesa (no atual Uruguai), de boa vontade foram deixados abertos aos contrabandistas, e, assim, esta última povoação se tornou, em lugar do Rio de Janeiro, o principal empório para o contrabando hispano-português.

Porém, não foi menos ricamente indenizado o Rio de Janeiro desse pesado prejuízo; simultaneamente com o descobrimento do ouro, também se estendeu desde o início do século XVIII a colonização portuguesa em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso; e para esse imenso <• rico território interior era a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, então, o mais importante, mesmo o quase exclusivo porto e praça do comércio; uma nova inesgotável fonte de bem-estar com isto se criava, a qual manou abundantissimamente, durante muitos anos seguidos, e tornou possível a essa cidade, e a toda a província do Rio de Janeiro, tomar pouco a pouco a dianteira sobre todas as outras províncias brasileiras.

Deste modo, ocupados desde o princípio em intensa atividade comercial, os "fluminenses"108, assim se chamavam os habitantes do Rio de Janeiro, levaram em geral uma existência tranqüila, regrada. Quando aqui a habitual ordem pública era de qualquer modo perturbada, em geral isso se dava por influência de fora, ou sendo a província atraída a uma revolução das suas vizinhas, ou sendo chamada pelas autoridades para suplantar tal sublevação.

À primeira categoria pertencem, em primeiro lugar, ambas as perturbações da ordem ocorridas durante o governo de Salvador Correa de Sá e Benevides: a revolta de 22 de junho de 1640, em que os jesuítas foram assaltados, no seu colégio em São Sebastião do Rio de Janeiro pela população, e forçados a anuir a um-acor-do desvantajoso; e o levante de 8 de novembro de 1660, etc, que visava até à deposição do mesmo capitão-general, c que foi abafado dentro de pouco tempo; ambos estes movimentos são, todavia, tão ligados à muito citada questão dos Índios, que mais minuciosamente deles trataremos, quando estudarmos esta questão no Sul do Brasil.

Por outro lado, na segunda categoria, citamos os esforços dos capitães-generais do Rio de Janeiro para manter de pé a ordem ameaçada, ao tempo do descobrimento do ouro, nas "minas gerais", mormente as duas expedições que foram empreendidas para ali, nos anos 1708 e 1709; porém naturalmente estes sucessos só serão incluídos na história do descobrimento do ouro.

Muito mais importante e, de fato, o acontecimento de maior importância na história do Rio de Janeiro, foi o duplo ataque dos franceses à cidade de São Sebastião (1710 e 1711). Como se sabe, também, a coroa de Portugal tomou temporariamente parte na guerra da sucessão espanhola (1701-1715) e aí se achou no partido dos adversários da França. Nada mais natural, portanto, do que haver ocorrido que um dos muitos corsários e comandantes de navios de guerra, que então percorriam o oceano, o capitão Duclerc, se dirigisse ao reino colonial português no Sul da América, para atacá-lo e saqueá-lo; e ele optou pela capital da antiga "França Antártica", Rio de Janeiro, que, no momento, como porto de exportação das terras interiores ricas de ouro, parecia prometer despojo especialmente farto. Ao cair da tarde de 16 de agosto de 1710, apareceu a sua esquadra, forte de cinco velas, à entrada da baía do Rio de Janeiro; no dia imediato tentou ele penetrar na mesma, porém as fortalezas à beira-mar o repeliram energicamente, e então ele navegou de novo para o alto-mar (18 de agosto).

No Rio de Janeiro acreditou-se com isso haver passado todo o perigo: entretanto, Duclerc absolutamente não havia abandonado o seu plano; ele tomou rumo do sul, e, depois de duas tentativas de desembarque, frustradas diante da milícia por toda parte prontamente alarmada, conseguiu afinal tomar pé na costa, perto de Guaratiba, 12 léguas OSO da capital; ali foram desembarcados mil soldados da marinha, dois negros aprisionados tiveram que servir de guias, e pôs-se então Duclerc em marcha para São Sebastião. A sua caminhada durou sete dias, passando em parte por ínvios morros cobertos de matas; contudo, nada se fez do lado dos portugueses para embargar-lhe o passo.

O capitão-general, Francisco de Castro de Morais, à testa de alguns mil soldados e milícias da terra, resolveu esperar o inimigo no Rio de Janeiro, e tomou uma posição fortificada. Nem ainda quando finalmente chegaram à vista os inimigos (18 de setembro), ele não se mexeu; depois de havê-los presenciado desbaratar os primeiros destacamentos avançados, deixou-lhes franca a entrada na cidade, e os franceses, com rapidez inconsiderada, a invadiram. Em pequenos destacamentos, eles se dispersaram pelas ruas, ao passo que o corpo principal marchou a dar assalto ao palácio do governo; era como se revivesse neles a temeridade petulante dos flibusteiros, que, no século precedente, sob as vistas do exército espanhol, superior de muito em número, haviam conquistado e saqueado ricas cidades. Porém, o resultado não foi tão feliz; no palácio do governo cinqüenta jovens opuseram uma eficaz resistência aos atacantes; os cidadãos organizaram-se em grupos para defender os seus lares, ao que um religioso, Francisco de Meneses, gloriosamente, os incitava com palavras e com o exemplo; o capitão-general, de seu lado, destacou afinal tropas, que foram ao encalço dos destacamentos dispersados do inimigo e os debandaraml09.

Viu-se assim Duclerc, depois de encarniçados combates de rua, vencido por todos os lados; na verdade, ele julgava poder ainda exigir sua livre retirada, porém a proposta foi repelida, e, quando se ameaçou canhonear os prédios onde ele havia tomado posição, teve que se render à discrição. Com isto haviam os brasileiros alcançado uma vitória, porém pouco gloriosa; e ainda menos glorioso foi o tratamento que deram aos vencidos: durante o combate e depois dele, muito sangue se derramou inutilmente; o povo matava fugitivos e prisioneiros; dentre os feridos, muitos morreram, por lhes haverem faltado os devidos cuidados; o próprio Duclerc, a quem se havia concedido, sob solene palavra de honra, a cidade por mensagem, foi alguns meses depois assassinado uma noite, sem que as autoridades municipais julgassem valer a pena ordenar uma investigação judicial.

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O castigo para tudo isso não faltou. Apenas chegou à França a notícia do empreendimento de Duclerc e do seu lamentável desfecho, a opinião pública, unânime, exigiu desforra pela afronta sofrida.

Um dos mais experimentados navegantes, Du Gay Trouin, declarou-se pronto para tentar novo ataque ao Rio de Janeiro; seis particulares, a saber, cinco cheio de casas comerciais em Saint-Malo (Bretanha) e um funcionário do tesouro real. puseram à sua disposição, para esse fim, a quantia de 1.200.000 libras; também o governo sancionou a empresa e deu navios e tripulações; e, depois de se havei caladas, em diferentes pontos da costa, providenciado sobre os aprestos nece» rios, reuniu-se a esquadra no porto de La Rochelle e dali se fez de vela, a 9 de junhe de 1711.

A 27 de agosto, havia a frota, que constava de quinze veleiros, alcançado a latitude da Bahia; e pensou então o almirante em primeiramente entrar neste pono e na cidade de São Salvador; porém o plano foi rejeitado pelo conselho de guerra reunido e a viagem continuou, e chegaram à entrada da baía do Rio de Janeiro ¿ 11 de setembro.

Ali já se estava prevenido; justamente havia chegado de Lisboa a trota anual de comércio, que havia trazido os primeiros boatos, e imediatamente em seguida um veleiro rápido inglês trouxe a notícia lormal da expedição francesa; entretanto. não se haviam feito os preparativos necessários para a defesa, e, assim, conseguiram os franceses, protegidos por uma forte cerração matinal, entrar no porto; quando finalmente, ao meio-dia, se dissipou o nevoeiro, já eles davam as costas para fortalezas do porto e ancoravam defronte da cidade (12 de setembro).

Agora, as autoridades portuguesas perderam completamente a cabeça; à sua ordem foram tocados para a praia e incendiados os navios de guerra e os de mércio parcialmente armados, que se achavam no porto; os canhões, na vizinha ilha das Cobras, foram encravados, e depois abandonaram aos franceses esta importante posição, que domina toda a cidade, quase que sem resistência (13 de setembro).

Du Gay Trouin mandou logo estabelecer ali novas baterias, e sob a sua proteção desembarcou no dia imediato os seus soldados e marinheiros, ao todo uns 3.000 homens, com 24 peças de campanha.

O capitão-general Francisco de Castro de Morais tinha em número de tropas decisiva superioridade sobre essas forças militares; todavia, do mesmo modo que no ano precedente c justamente na mesma posição fortificada, ficou ele também esta vez quieto, sem barrar os acessos da cidade; desta feita, porém, não conseguiu atrair o inimigo à armadilha.

Os franceses procederam com toda a ordem; depois de se haverem fortificad na costa, levantaram novas baterias para eventual bombardeio, e então mandou almirante intimar o capitão-general para imediata rendição. "A cidade e a pro vinda — acrescentou ele — estavam nas suas mãos, toda resistência seria baldada contudo, não faria represálias, com igual crueldade, pelo que havia acontecido > ano precedente; o rei, seu senhor, o havia encarregado somente de libertar os seus compatriotas prisioneiros e levantar na cidade um tributo, como expiação dos habitantes pelos crimes cometidos, e a fim de cobrir as despesas desta segunda expedição Irancesa".

Quando o capitão-general, como era de esperar, deu resposta negativa a essa mensagem (19 de setembro), começou no dia 20 o canhoneio contra as trincheira-portuguesas, como preparo do ataque geral, que estava marcado para o dia seguinte. Entretanto, já antes, na noite de 20-21 de setembro, chegou o momento decisivo; um destacamento francês, que, sob a proteção da noite, se encaminhava para tomar a sua posição de assalto, foi descoberto pelos portugueses e violentamente atacado; os franceses responderam logo com o fogo de todos os seus canhões; toda a noite, durante a qual desabou uma pavorosa tempestade, lançavam seus brandões acesos no meio da cidade.

Tão dura provação não pôde suportar a coragem da população e da guarnição portuguesa; tumultuosamente fugiram com os seus haveres para os arredores; também o capitão-general se retirou, depois de haver entregado às chamas os armazéns públicos. E, quando, então, na manhã seguinte, Du Gay Trouin se preparava para o assalto, eis que se lhe apresenta um compatriota, antigo ajudante do capitão Duclerc, com a notícia inesperada da vitória; cheios de júbilo, entraram os franceses na conquistada Rio de Janeiro e foram ali acolhidos com vofos de boas-vindas pelos 500 compatriotas prisioneiros, que os receberam como libertadores (21 de setembro de 1711).

A cidade de São Sebastião foi então entregue ao mais terrível saque, sendo, porém, por gratidão, poupadas as casas daqueles cidadãos que haviam tratado com bondade os homens ide Duclerc, durante o seu cativeiro; foi enorme o despojo e, como cada um tratava de arrecadá-lo por si mesmo, em breve apresentava a cidade conquistada, com a soldadesca francesa, o espetáculo da mais selvagem confusão.

Debalde se esforçava Du Gay Trouin por manter a ordem; ele matou, com as próprias mãos, alguns recalcitrantes; mandou circular patrulhas, porém estas se dispersaram, para tomar parte no saque; e, houvesse o capitão-general português, que dispunha de forças combatentes superiores de muito e ainda se achava às portas, aproveitado este momento, ele teria podido recuperar com pouco trabalho a cidade perdida, teria desbaratado e esmagado o inimigo. Porém disso ele não cogitou; cerca de uma légua de distância, foi tomar posição entrincheirada, para onde mandou chamar as milícias das províncias vizinhas; por outro lado, voltaram os franceses à ordem, pouco a pouco, e então também se lhes entregaram, à primeira intimação, as poderosas fortalezas do porto, de sorte que dominavam completamente a baía do Rio de Janeiro.

Estavam aqui as coisas tais quais no princípio da invasão holandesa, na Bahia e Pernambuco (1624-25, 1630-32): cidade e porto estavam nas mãos de uma potência estrangeira, que era cercada por todos os lados pelos nacionais; entretanto, caso havia uma diferença essencial: Du Gay Trouin não havia vindo para conquistar; ele não cogitava, de todo, de conservar o que havia ganho, sustentando um demorado cerco, mas ele só fazia questão de uma coisa: obter alto resgate da ddade. Mandou ele, por isso, informar ao capitão-general que se, dentro em breve, não pagasse contribuição pesada pelas casas e restantes bens de raiz, ele arrasaria tudo, antes de embarcar; e, para mostrar que a ameaça era séria, começou logo com a destruição de umas casas de campo nos arredores. Isso surtiu efeito: o capitão-general ofereceu um resgate de 600.000 cruzados, que o almirante francês a princípio recusou como insuficiente, esperando com ameaças novas extorquir maior quantia; contudo, depois de algumas negociações, finalmente se deu por satisfeito, e, por intermédio de alguns padres jesuítas, foi ultimado um ajuste, em virtude do qual os franceses, contra o pagamento da dita quantia, prometiam poupar a cidade e evacuá-la (10 de outubro de 1711).

Justamente a tempo, pois ao cabo de alguns dias, chegou ao acampamento português o capitão-general da vizinha província de São Paulo e Minas, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho; acompanhavam-no 1.500 cavaleiros e outros tantos homens a pé, e 6.000 negros armados estavam apenas a alguns dias de marcha. Antônio de Albuquerque era homem de resolução e de reconhecidos dotes militares, c na verdade para os franceses os negócios estariam mal parados, se tivesse ele podido proceder à sua vontade; todavia, estava firmado o pacto; e, embora ele não aprovasse a atitude medrosa do capitão-general do Rio de Janeiro, contudo não se sentiu autorizado a quebrar a palavra dada, de um colega de iguais direitos.

Assim foi o convênio por ambas as partes pontualmente executado; a 4 de novembro de 1711 pagou-se a última quota; no mesmo dia, embarcaram e fizeram-se de vela os franceses, com todo o despojo que puderam transportar, depois de haver o almirante reunido e entregado todos os objetos roubados da igreja, à mão fiel da Companhia de Jesus. O solo do Rio de Janeiro foi libertado dos invasores, e daí em diante nunca mais foi profanado pelos pés de um inimigo estrangeiro.

Na verdade, o relativamente tão fácil e tão brilhante sucesso de Du Gav Trouin (embora na viagem de regresso se perdessem diversos navios e com eles uma parte do despojo, ainda assim rendeu a expedição aos empresários 92% de lucro) convidou à imitação, e, de fato, aprestou-se na França no ano seguinte, por especulação particular, terceira esquadra de flibusteiros, porém esta limitou as suas atividades a fazer presas no alto-mar.

Por outro lado, os funcionários portugueses da coroa, que por sua pusilanimi-dade se tornaram culpados da desgraça do Rio de Janeiro, foram severamente castigados; à expressa vontade do conselho municipal do Rio de Janeiro, o capitão-general Francisco de Castro de Morais depôs o seu cargo às mãos de Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, provisoriamente; porém, no ano seguinte, foi ele, à ordem do rei, chamado a apresentar-se à justiça e foi condenado à destituição do seu cargo e à perpétua prisão numa fortaleza das índias Orientais; idênticos castigos soíreram os chefes subordinados, mais ou menos culpados.

Depois dos anos 1710-11 (que, sobretudo, na história do Brasil do século XVIII, são de extraordinária importância, pois recaem neles, contemporâneos da invasão francesa que acabamos de citar, em Pernambuco, a guerra contra o Recife, c na Bahia o levante em São Salvador), quase nada digno de nota, para a história geral, se tem que destacar na história particular da província do Rio de Janeiro.

Em geral, se os governadores da coroa mereceram recordação, foi na maioria das vezes por sua colaboração na política exterior do Brasil (nas negociações sobre limites hispano-portugueses durante o século XVIII, das quais nos ocuparemos depois, na respectiva ocasião) ou simplesmente por melhoramentos locais, que para nós não têm interesse.

Mencionaremos apenas de passagem a gestão de trinta anos de Gomes Freire de Andrade, conde da Bobadela (26 de julho de 1733 e seguintes), que durante todo o tempo governou, além da capitania geral do Rio de Janeiro, também a de Minas Gerais, e provisoriamente ainda a capitania geral de São Paulo, além de Goiás e Mato Grosso, para o que ele se fazia substituir, ora aqui ora acolá, por um lugar -tenente por ele mesmo nomeado; coroa e povo depositavam nele a mais incondicional confiança, e tiveram motivos de sobra para se satisfazerem com o seu governo. O seu domínio era, de fato, um vice-reinado, pois compreendia a maior parte de todo o Sul e Oeste do Brasil; todavia, Gomes Freire não teve o título de vice-rei; somente depois de sua morte (ele morreu em São Sebastião, a 1? de janeiro de 1773), foi transferida a sede do vice-reinado da Bahia para o Rio de Janeiro, sem que, entretanto, algum dos seus sucessores jamais exercesse de fato uma tão extensa autoridade.

Depois ainda sete vice-reis (IX-XV) residiram no Rio de Janeiro; foi o último o conde dos Arcos e a ele competiu dar as boas-vindas à família real de Bragança, quando ela fugiu de Portugal, e, depois de pequena demora na Bahia, a 7 de marco de 1808, desembarcou na baía do Rio de Janeiro, a fim de aqui estabelecer a sede de sua residência.

A cidade de São Sebastião, a província do Rio de Janeiro tornaram-se com isso para o Brasil o que Lisboa e Portugal haviam sido, até aqui, o ponto central do governo, de onde irradiava e era guiado o desenvolvimento político geral; devemos, por isso, interromper agora a história provincial desta região, a fim de que (na 111 seção) nos possa servir de arcabouço para a história geral do Estado independente — reino e império — do Brasil.

Somente um fato da história provincial moderna devemos e queremos separar e encaixar aqui, um golpe de vista sobre o mais recente desenvolvimento material e as condições de então do Rio de Janeiro.

Contemplando primeiramente o que ao tempo se chama colonização no Brasil, os esforços para atrair ali imigrantes estrangeiros e concentrá-los em pequenos núcleos isolados, veremos que já d. João VI havia começado: a 32 léguas a NE da capital, no Morro Queimado, ele mandou construir pequena casa de campo, para seu uso, e resolveu fundar próximo uma colônia suíça, que devia servir de modelo aos brasileiros para a indústria de laticínios, isto é, para o fabrico de manteiga e de queijo.

Nicolas Gachet, agente do cantão de Friburgo, encarregou-se, por ajuste de 16 de maio de 1818, de mandar trazer os colonos, e assim foram transportados para aqui, no ano de 1819, 1.682 suíços, na maioria procedentes dos cantões de língua francesa, à custa do governo; eles receberam terrenos gratuitos e durante os primeiros anos também algum auxílio em dinheiro; todavia, não teve o devido sucesso Nova Friburgo, como foi batizada a colônia, por ordem real de 3 de janeiro de 1820.

O sítio da fundação foi mal escolhido; toda a região em volta é árida, muito pedregosa, densamente coberta de matas e tão acidentada, que poucos pontos se oferecem aptos para roçadas; e, para estabelecer campos de lavoura e pastagens, foram necessários os mais penosos esforços.

Muitos dos colonos suíços (645) em breve se aborreceram da empresa e se dispersaram por todos os lados; para substituí-los, foram mandados vir 342 alemães, da região do Reno, que receberam passagem e terras gratuitas; porém, em seguida, não se lhes forneceu auxílio financeiro, e, assim, foi assegurada a existência de Nova Friburgo; ela pode contar agora, com as povoações vizinhas filiais, 1.500 a 1.600 almas. Porém os colonos por muito tempo passaram vida miserável; mesmo atualmente só uma minoria goza de sólido bem-estar, e também para o futuro a perspectiva é pouco promissora: produtos tropicais não prosperam aqui, tão alto acima do nível do mar; campos de lavoura e pastagens são raros, e pela falta de comunicações se torna muito difícil a venda dos produtos, de sorte que o lugar provavelmente nunca conseguirá verdadeiro florescimento.

A glória única de Nova Friburgo consiste no grande colégio ali fundado pelo alemão Johann Heinrich Freese e que desde muitos anos por ele é dirigido; é um instituto que se equipara aos melhores estabelecimentos de igual gênero, públicos eparticulares, no Brasil, e atrai alunos de toda a parte do império.

Desde a fundação de Nova Friburgo se passou um quarto de século antes que se formasse na província do Rio de Janeiro segunda colônia, e esta exclusivamente alemã. O que lhe deu origem foi o seguinte: no ano de 1843, a legislatura da província tomou a resolução de, a fim de estabelecer melhores e mais seguras comunicações com a região vizinha de Minas Gerais, construir algumas estradas e canais; tratava-se, para isso, de mandar vir os necessários trabalhadores, e com esse intento o presidente provincial, a 15 de junho de 1844, assinou contrato com Eugênio Pisani, agente da firma Delrue e Cia., de Dunquerque, segundo o qual essa casa de negócio se comprometia a mandar, dentro de dezoito meses, 600 famílias para o Rio de Janeiro; de seu lado, prometeu o governo provincial indenizar as despesas de viagem e pagar 245 francos por cabeça, a metade por criança. Delrue &: Cia. começaram logo o seu recrutamento na Alemanha, mormente na região do Reno e do Mosela, no qual foi empregada toda a antiga arte enganadora de sedução do negociador de carne humana, e, apesar de repetidas advertências, teve completo sucesso; dentro em breve foi arrebanhado o número exigido e ainda mais, e puseram-se a caminho para o embarque em Dunquerque.

Não se pode descrever o que eles sofreram nesse porto e na viagem do mar, por culpa do armador que, animado da mais vil cobiça, não providenciou para o necessário, faltando os devidos cuidados aos viajantes; depois, no próprio Brasil, a terra sonhada dos diamantes e palmeiras, esperava pior sorte aos imigrantes (julho de 1845). O governo provincial do Rio de Janeiro havia entrementes abandonado o projeto de construção de estradas, sobretudo não pensava mais nos operários encomendados, e para seu acolhimento nenhuma disposição tomou: de sorte que os desgraçados, ao desembarcar, se acharam completamente abandonados, ao meio de um povo estrangeiro, não acostumados ao clima tropical, entregues à mais cruel miséria, foram vitimados por uma epidemia, que, dentro de umas três semanas, arrebatou uma sexta parte deles, 314 pessoas.

Então os negociantes alemães e o pessoal da legação alemã se apiedaram desses desgraçados padecentes; entre todos se salientou o imperador d. Pedro II nos socorros eficazes concedidos aos recém-chegados; em parte pagou do seu bolso um considerável número dos compromissos obrigatórios do contrato, e os mandou despachar para o Sul, para as colônias alemãs das províncias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde no meio de parentes e compatriotas facilmente acharam emprego; outros se destinaram à fundação de mais algumas colônias alemãs; ainda outros foram para o Espírito Santo, onde fundaram a colônia de Santa Isabel.

Além disso, para dar ocupação aos restantes, o imperador retomou um plano longamente afagado e mandou construir, mais ou menos 15 léguas ao norte da capital, na serra, à margem do córrego Seco, uma quinta de recreio, para residência de verão; em torno foram repartidas em aforamento as terras do governo provincial entre os colonos alemães, livres de taxas por 10 anos, depois sujeitas a módico imposto territorial. Assim nasceu a cidade de Petrópolis, que no ano de 1850 contava 2.565 habitantes de raça alemã, entre eles 985 protestantes, e, segundo a narração de um viajante contemporâneo (Burmeister), já apresentava quase que o aspecto elegante de uma estação balneária européia; mas, para chegar a tanto, muito custou.

Quando os colonos chegaram ao solo e território da atual Petrópolis, existiam ali apenas cinco miseráveis choças de barro, cercadas por frondosa mata virgem, e a eles competia agora o pesado trabalho das roçadas, quando já tinham que lutar contra a miséria, doenças e privações de toda espécie; foi, além disso, a paz interior perturbada por ódios de religião e maquinações de proselitismo, a que desta vez deram início, segundo se diz, os protestantes, mas isso, graças ao bom senso da população alemã, não durou muito.

Mais séria era a oposição nacional, entre brasileiros e alemães, que já diversas vezes deu ocasião para cenas tumultuarias. Junto dos imigrantes vivem, naturalmente, na cidade e vizinhança, também nacionais, e à frente de todos estava o funcionalismo brasileiro, de resto, não da melhor qualidade, que em geral pesava de modo particular sobre os estrangeiros; os assim chamados diretores da colônia que dispõem da autoridade discricionária e ilimitada, como parece, não souberam até agora obter a amizade e consideração dos alemães, e freqüentemente usavam de seu poder de modo interesseiro ou tirânico, até mesmo o primeiro, major J. F. Kohler, embora sendo de nacionalidade alemã.

De mais a mais, declarou-se recentemente, janeiro-abril de 1855, entre o pároco católico alemão, dr. Th. Wiedemann, e seu colega brasileiro uma rivalidade de jurisdição, que, embora a razão estivesse sem dúvida do lado do primeiro, todavia terminou desfavorável para ele, com a sua expulsão; foi então com isso abolido o pároco católico alemão e somente o evangélico alemão continua a subsistir até hoje. Também para a organização de escolas alemãs nada se faz.

Aquela questão eclesiástica isolada poderia, contudo, parecer insignificante; porém, pelo que as altas autoridades civis e eclesiásticas declararam ao pároco Widemann, é vontade do governo que daí em diante se faça uma fusão em Petrópolis, no sentido de tudo ser disposto de conformidade com os costumes brasileiros; não se pode tolerar que se desenvolva no Estado segundo Estado; e por isso, ele, como campeão do germanismo, devia ser afastado, por perigoso para o Estado; isso merece especial consideração. E a isto acrescentaremos: pode Petrópolis chegar a feliz desenvolvimento, como cidade brasileira, porém, como colônia alemã, ela está em decadência e não pode exercer atração alguma para a colonização, alemã*.

De outras empresas de colonização no interior da província do Rio de Janeiro, pouca coisa há para relatar.

Por ocasião da fundação de Petrópolis, recrutou o dr. Saturnino de Sousa e Oliveira, naquela leva de imigrantes alemães, cerca de uns 140, que se encaminharam com ele para Macaé, na costa do mar, onde num profundo vale úmido foi estabelecida uma colônia; oito meses depois, 23 desse número haviam morrido e dos restantes nenhum mais prestava para o trabalho; quem ainda podia, fugiu.

Foi depois, em 1847, fundada a colônia Valão dos Veados, pela "Companhia para combater o comércio dos escravos e promover a colonização", com auxílio do governo, e povoada com imigrantes de diversas nacionalidades — belgas, alemães, franceses, portugueses; em 1850 contava 246 habitantes, e daí em diante não terá aumentado o número antes diminuído, visto que já então todos aqueles que tinham uma profissão se dispersaram pelos arredores.

Finalmente, subsistem ainda cinco colônias, que todas datam do ano de 1852: a do visconde de Baependi — Santa Rosa, com 132 habitantes; a de N. A. N. Vale da Gama — Independência, com 172; a de Brás Carneiro Beléns — Santa Justa, com 155; a do marquês de Valença — Coroas, com 143, e a de José Cardoso de Meneses — Martim de Sá, com 67 habitantes; esta última, desde muito em completa, decadência (relatório oficial de 1855); todas elas se baseiam no sistema de parceria, onde o colono tem que entregar, como pagamento, a metade de sua colheita (café) ao dono do terreno; e todos foram recrutados na Alemanha (Holstein, Turín-gia, etc.).

Resumindo agora em poucas palavras o resultado total, vemos que, quanto à província do Rio de Janeiro, o acréscimo em lavradores colonos, vindos da Europa, até aqui tem sido de pouca monta; esse contingente é de muito inferior à corrente européia de negociantes, artistas e operários profissionais, de capitais, que ininterruptamente, desde que o Brasil foi aberto, em 28 de janeiro de 1808, ao comércio mundial, afluíram aos grandes portos do Pará, Pernambuco, Bahia e, mais que todos, à cidade do Rio de Janeiro, proporcionando-lhes os melhoramentos materiais modernos e ainda conservando sempre em mão a mais importante parte do seu comércio e indústria.

Para a lavoura, ao contrário, foi de muito maior importância a imigração africana, que o tráfico de escravos fornecia; até aos tempos recentes, a par de Pernambuco e Bahia, o porto do Rio de Janeiro era a terceira praça para a introdução de africanos; e, desde que foi definitivamente suprimido esse tráfico, pela lei de 4 de setembro de 1850, a província do Rio de Janeiro’recruta!a sua população do trabalho por meio de comércio interno de escravos, comprando-os nas províncias do Norte. Contudo, com o aumento da produção, e depois da pavorosa devastação nos últimos anos, ocasionada pelo cólera e a febre amarela, não bastam os existentes braços de trabalho.

Imitou-se, então, o recurso não menos atroz, que os ingleses foram os primeiros a inventar, para substituir o tráfico de negros, a saber, o trato de jornaleiros livres, da China ou da índia, que, transportados grátis, depois (como antes os escravos brancos, Redemptioners, na América do Norte) eram vendidos aos fazendeiros, para determinado tempo de trabalho; a 9 de fevereiro de 1855, alcançou a baía do Rio de Janeiro uma nau mercante americana, que entregou, à consignação de Manuel de Almeida Cardoso, os primeiros 300 chineses; e a este carregamento daí em diante seguiram-se outros, de navios da mesma espécie, endereçados para diferentes portos.

De resto, não era de todo a primeira vez que se empreendia a entrada de imigrantes chineses no Rio de Janeiro; a propósito, devemos lembrar uma antiga tentativa singular de colonização, que ocorreu no reinado de d. João VI: foi quando se tratou de, com eles, introduzir o cultivo do chá no Brasil (tal como a fundação da colônia suíça de Nova Friburgo devia apresentar ao povo brasileiro um modelo de uma fazenda de laticínios).

Cerca do ano de 1817 ocorreu à idéia do então ministro do império, conde de Linhares, o plano de mandar vir dois milhões de chineses e com o auxílio deles fundar uma produção de chá brasileiro no, que deveria fazer concorrência ao chá chinês. Efetivamente, foram atraídos do interior do Celeste Império, a verdadeira pátria da árvore do chá, 400 a 500 imigrantes, somente homens, e chegaram a salvamento; uma quantidade de casitas chinesas foram construídas no domínio da coroa, Santa Cruz, 12 léguas SO da capital, e a plantação de chá medrou bastante bem; todavia, a mercadoria não achava mercado.

 

Entretanto, morria o protetor do empreendimento; os auxílios do governo foram cada vez mais minguados e mais raros, e o povinho, desgostoso com o pouco compensador lucro e com o celibato, começou a dispersar-se. A maioria se entregou ao negócio de retalho: tomava a crédito, de negociantes, mercadorias chinesas, a fim de as vender nas ruas, até haver ajuntado o dinheiro para o regresso à pátria; outros deixaram-se batizar e casaram com raparigas do país, de sorte que, em poucos anos, dispersada toda a colônia chinesa, deixou de existir. Não cremos que se possa oferecer melhor prognóstico para uma imigração chinesa moderna!

 

* * *

Volvamos agora um golpe de vista geral para o atual estado de coisas.

A província do Rio de Janeiro, que até então formava um todo, desde os anos de 1834-1835 foi separada em duas partes. Quando, na ocasião do Ato Adicional à Constituição do Império, 12 de agosto de 1834, todas as províncias obtiveram uma certa autonomia e, por conseguinte, também o Rio de Janeiro tratou de se constituir, considerou o poder executivo do império brasileiro necessário reservar para si um território propriamente seu, que em todos os sentidos fosse sujeito à sua imediata gestão (tal como o poder central dos Estados Unidos o possui no Distrito Federal, em Colúmbia). Para esse fim foi a cidade de São Sebastião (Rio de Janeiro) com os seus distritos, ao todo 16 freguesias, sendo oito na cidade e oito rurais, separada da província do Rio de Janeiro e elevada a município independente (Município Neutro ou também Município da Corte); como tal, tem o seu próprio conselho municipal, escolhido ali mesmo, e governo próprio em todos os sentidos, porém é diretamente sujeito às autoridades do império, que ali têm a sua sede, como também por outro lado os estabelecimentos públicos e instituições desta cidade são custeados diretamente pelo tesouro geral, pelo orçamento do Interior e da Justiça.

Todo o restante do território, por sua vez, ficou pertencendo à recém-consti-tuída província do Rio de Janeiro, e o seu governo provincial (presidente e legislatura) tomou sede à margem fronteira da baía do Rio de Janeiro, na velha vila de Praia Grande, que daí em diante (6 de março de 1835) era elevada a capital da província, e no ano seguinte, sob o nome de Niterói, recebeu os foros de cidade (2 de abril de 1836).

Assim existem, dentro do mesmo território, uma província e um município! Acerca do número de almas de ambas as partes, possuímos minuciosas informações de tempos recentes, que em toda a estatística da população do Brasil maior crédito merecem; damo-las a seguir, resumidas.

Primeiramente, o município, que no ano de 1838 apenas tinha 137.078 habitantes, contava, nos fins de 1849, 266.466 com 27.024 moradas, do que resulta para os anos intermediários um acréscimo de 11.762 almas, na média; desse número total competem à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro 36.330 estrangeiros brancos, domiciliados, 77.989 brancos nacionais, 78.855 escravos e 10.732 livres de cor, ao todo 203.906 habitantes; nas freguesias rurais, 1.594 brancos estrangeiros, 26.490 brancos nacionais, 31.747 escravos e 2.629 livres de cor, ao todo 62.560. As informações sobre a província são mais recentes, cerca de fins de 1851, e dão 556.080 almas, das quais 262.526 livres e 293.554 escravos. Existe, pois, entre as duas estatísticas um espaço de dois anos, e devemos, portanto, antes de as adicionar, juntar um acréscimo igual ao dobro da média anual no município; assim encontraremos nos fins do ano de 1851, para ambas as partes do território do Rio de Janeiro, um provável total de 850.000 almas.

Não podemos, portanto, absolutamente, tanto mais por haverem, nesse espaço de tempo, grassado o cólera e a febre amarela, dar crédito à estatística brasileira oficial, quando lhe aprouve estimar recentemente o número de habitantes em 1.200.000 (relatório oficial de 1856); e este exemplo dá demonstração concludente da pouca fé que merece.

É o café o principal ramo de indústria da província, como já se disse, e de fato só ela produz de muito a maior parte de todo o café brasileiro; no ano financeiro de 1854-55, em que o total de exportação deste artigo montou a 13.027.523 arrobas, só do porto do Rio de Janeiro (que certamente também encaminha alguma coisa das províncias vizinhas) saíram 11.900.790 arrobas, e do vizinho porto de Santos (província de São Paulo) 846.184 arrobas, no valor de 44.471 e 2.960 contos, respectivamente. Ao contrário, a exportação do açúcar, antigamente principal produção do Rio de Janeiro, é atualmente escassa e morta, quando muito, à 8* ou 10ª parte das da Bahia e Pernambuco, apenas 400.000 arrobas.

Com uma tão importante e sempre crescente produção, goza a província de muito alto bem-estar, e o seu orçamento excede de muito o das outras províncias; assim, por exemplo, no ano de 1855 obteve ela dois impostos provinciais e municipais uma receita total de 2.048 contos, ao passo que nesse mesmo ano a da Bahia só orçava em 919 contos e a de Pernambuco só em 844 contos.

E, assim como a província do Rio de Janeiro entre as províncias brasileiras, tem a primazia a cidade de igual nome entre portos e praças de comércio, não somente do Brasil, porém de toda a América do Sul. Sem nos empenharmos nos pormenores das estatísticas do movimento comercial, citamos apenas que no ano financeiro de 1854-1855 a exportação do mesmo foi avaliada em 51.171 contos e a importação em 47.064 ni, mais da metade do valor da importação e exportação de todo o Brasil (respectivamente, 90.570 e 84.780 contos); o movimento comercial aqui foi, portanto, cerca do quádruplo do da Bahia e Pernambuco (com, respectivamente, 10 a 12.000 contos), cerca de doze vezes o do Pará (com 3 a 4.000 contos). Além disso, a fim de caracterizar a recente florescência da vida comercial, aqui damos atenção somente ao significativo acréscimo da arrecadação da alfândega; a do Rio dc Janeiro cobrou, em 1845, em direitos de importação 8.043 contos, nos de exportação 1.747 contos; no ano de 1850, respectivamente, 9.195 e 2.889 con-. tos; finalmente, no ano financeiro de 1854-55, respectivamente, 12.791 e 2.618 contos; ao passo que os três seguintes grandes portos brasileiros (Pernambuco, com, respectivamente, 3.704 e 502 contos.; Bahia, com 3.539 e 585 contos; Pará, com 1.103 e 202 contos) ficavam muito distanciados. Essa arrecadação da alfândega do Rio, no total de 15.409 contos, é mais da metade dò conjunto da receita aduaneira do Brasil, que então montou a, respectivamente, 23.680 e 4.632 contos, e muito mais de uma terça parte de toda a receita do império, então de 35.595 contos.

Rio de Janeiro, ou, consoante o decreto de 9 de janeiro de 1823, segundo o seu título oficial, "a muito fiel e heróica cidade de São Sebastião", já é por conseguinte atualmente a mais valiosa jóia da coroa imperial brasileira e, por sua feliz situação, como empório de uma região colossal, ricamente dotada pela natureza, além disso, situada a meio caminho do comércio mundial para o arquipélago Índico e o oceano Pacífico, ainda a espera no futuro o mais grandioso desenvolvimento; "todo o mundo civilizado teria de novo que voltar a barbaria, antes que ela possa perder a sua categoria entre os mais consideráveis lugares do globo terrestre" (Southey).

A velha cidade colonial, ainda bastante modesta no princípio deste século, mormente dos últimos dez anos para cá se tem então esforçado deveras por enfeitar-se magnificamente, como rainha do comércio, para o que os meios não lhe faltam, pois, além do próprio orçamento do município — 392 contos — costuma ultimamente também o governo do império (que pelo outro lado arrecada diretamente aqui uma grande parte dos impostos municipais) empregar anualmente, pelo próprio ministério do Interior 250 contos, pelo da Justiça 700 contos, para a administração, para instituições públicas, construções e melhoramentos. Assim se conseguirá muito, sem dúvida, dentro de pouco tempo, e com justo orgulho mostram os brasileiros a sua cidade imperial; porém, nós, de nosso lado, não devemos nunca perder de vista que a pulsação intensa de vida, a riqueza e magnificência que o Rio de Janeiro apresenta (Bahia e Pernambuco em menor escala) não dão de todo a medida, antes formam contraste do estado material do resto do império.

111 Na importação do Rio de Janeiro figurava, em primeiro lugar, a Grã-Bretanha, com 24.116 contos; depois a França, com 6.223; a América do Norte, com 3.671; os Estados Platinos, com 3.306; Portugal, com 3.133; as cidades hanséaticas, com 2.202; a Bélgica, com 1.291; e o Chile, com 1.128 contos. (Nota do autor).

 

 

O mesmo se pode dizer de certo modo da vida intelectual do Rio de Janeiro. Já o grande número de estrangeiros, que aqui se domiciliaram de vez, fez que se tornasse possível e necessária instituição de bons colégios, sobretudo para as mais altas classes dos cidadãos; e isso havia de irradiar também além dos muros da cidade, de sorte que a instrução pública nesta província é melhor, e maior é a freqüência das escolas do que em qualquer outra.

Aqui, onde, por um decreto real de 13 de maio de 1808, foi criada a primeira imprensa brasileira, se tem desenvolvido desde então uma rica publicação de periódicos. Além disso, acumula-se no Rio de Janeiro, como capital do império, a maioria das instituições científicas, um Instituto Histórico e Geográfico, fundado a 21 de outubro de 1838, uma Biblioteca Nacional, um Museu Nacional, um Jardim Botânico, etc, que todos, porém, pertencem não à cidade nem à província, mas a todo o império, e, por este motivo, quando mais adiante nos ocuparmos do grau geral de cultura brasileira, de novo serão objeto de consideração.

Para concluir, ainda algumas palavras sobre as vias de comunicação.

A cidade do Rio de Janeiro alcança, desde fins do século XVII, entre todos os portos brasileiros, o primeiro lugar; a esfera do seu comércio compreendia todo o sul e oeste do Império; e uma rede de estradas de caravana e picadas, que se estendem até às nascentes do Paraguai, na província de Mato Grosso, vêm todas às suas portas, ao passo que por outro lado uma incipiente navegação costeira mantém comércio bastante insignificante comas demais cidades da costa. Todavia, era tudo sumamente irregular e não podia mais bastar, quando a província e a cidade do Rio de Janeiro em 1808 se tornaram a sede do governo imperial e logo a seguir o centro e o ponto de partida de vida política movimentada.

Contudo, nos primeiros decênios nada de importância se fez nessa matéria; as condições, quando muito, melhoraram um pouco com a abertura de novas picadas, pelo mesmo processo usual. Somente no fim do quarto decênio deste século se cuidou a sério do estabelecimento de um sistema regular de comunicações, e para ele devia o Rio de Janeiro, naturalmente, ser o ponto central; aqui, em São Sebastião, se assentou a sede do correio do império.

A baía do Rio de Janeiro era o porto principal para ambas as linhas de vapores subvencionadas pelo tesouro do império, linhas que, em períodos regulares determinados, navegavam ao longo da costa oriental brasileira, sendo uma do Rio de Janeiro para o norte, até Belém (Pará), a outra para o sul, até Porto Alegre (Rio Grande do Sul); formaram-se depois muitas outras linhas menores, a fim de manter o comércio entre os diferentes pontos da baía do Rio de Janeiro, entre si ou com os portos vizinhos, como Santos (São Paulo), por meio de vapores; nos últimos tempos juntou-se à linha principal para o norte, do Rio a Pará, a Companhia

de Navegação a Vapor do Amazonas; e atualmente se cogita mesmo de fundar uma linha de vapores que, partindo do Rio de Janeiro, deve alcançar Cuiabá (Mato Grosso), passando por Buenos Aires e Montevidéu, e tomando pelo rio da Prata e Paraguai. Com isso, todos os caminhos por água, abertos pela natureza, ficarão utilizados para via regular de comunicação, ao passo que aqueles cursos de água, que necessitam previamente de forte auxílio da mão do homem, como o São Francisco, o Jequitinhonha, etc, ainda continuam imiteis.

Porém, por outro lado, permaneciam más as comunicações por terra, e, se em algumas se fizeram muitos melhoramentos, em regra geral as viagens e transportes de mercadorias no interior são, ainda hoje, tão difíceis como há cem anos atrás. Somente desde um decênio se vê também neste sentido maior atividade: os governos provinciais, a cuja competência pertence a construção das estradas, pontes e canais, procuram obrar tanto quanto os seus meios lhes permitem, e o poder central concede-lhes um auxílio anual, que a princípio, em 1845 e seguintes, consistia em somente 112 contos, nos últimos anos, porém, subiu a 400 contos; recentemente, sobretudo as províncias de São Paulo e Bahia, projetaram extensas redes de estradas, que devem abranger todo o território provincial; e, naturalmente, entre todas a mais rica província, Rio de Janeiro, tomou a dianteira com o bom exemplo.

Aqui também surgiu, então, outro movimento, cujo contágio com demasiada rapidez se estendeu às outras províncias, que não dispunham de tão avultados recursos; queremos dizer, a paixão pelas estradas de ferro. Antes de tudo, foi a vaidade nacional, o desejo de obter a primazia também a este respeito sobre todos os outros Estados americanos, o móvel que deu o impulso. Primeiro, começou-se com uma pequena ferrovia, que corria umas três léguas alemãs, das portas do Rio de Janeiro a Mauá, na raiz da serra da Estrela, sendo inaugurados solenemente os trabalhos a 29 de agosto de 1852, e a 30 de abril de 1854 entregue a linha ao tráfego; todavia, ela é destituída de importância comercial, uma simples estrada de ferro de recreio, para facilitar as comunicações entre a capital do império e a residência estival do imperador — Petrópolis (a colônia alemã).

Outra coisa foi a segunda ferrovia, de cuja construção se cogitou logo a seguir; porque com esta é patente o propósito de realizar uma possivelmente rápida ligação entre todo o distrito da produção do café e o seu porto. E a denominada Estrada de Ferro D. Pedro II, que, partindo do Rio de Janeiro, segue para o interior, subindo a serra e tomando o vale do Paraíba do Sul, onde se separa em duas linhas férreas, das quais uma segue até à vila de Cachoeira, à margem do Paraíba, província de São Paulo; a outra desemboca em Porto Novo do Cunha, no Paraíba, alfândega de fronteira de Minas Gerais.

A 26 de junho de 1852 foi este plano sancionado pelo imperador e pelo parlamento; o governo imperial prestou-se também a dar uma garantia de juros de 5%, e a essa acrescentou o governo provincial do Rio de Janeiro mais uma garantia adicional de 2% (13 de outubro de 1854); todavia, ambas essas garantias, de acordo com as suas cláusulas vigentes, durarão apenas 33 anos, e não excederão do capital calculado para a construção, 38.000 contos; também por outro lado os garanti-dores, se durante o dito prazo os dividendos se elevarem a mais de 8%, reclamam para si a metade do excedente; igualmente há transporte gratuito, respectivamente redução de preço, para remessas oficiais e passageiros do governo. Baseada nessas condições, formou-se no Rio de Janeiro, com auxílio de capitalistas ingleses, uma companhia para empreender a construção e exploração da projetada estrada de ferro; a 9 e 10 de maio de 1855 foram sancionados pelo imperador d. Pedro II os estatutos e o contrato em questão, e ainda no mesmo ano começaram as obras, pois a primeira seção, até ao rio Guandu, que será construída pelo inglês Edward Price, deve, segundo o contrato, estar concluída a 9 de agosto de 1857, e toda a estrada de ferro a 9 de agosto de 1866. Se será possível observar exatamente esses prazos, só o tempo nos dirá112; à falta geral de braços para o trabalho no Brasil, e tanto mais por se haver convencionado a imposição de só empregar gente livre, nenhum escravo, terá, sem dúvida, a companhia que lutar com grandes dificuldades; contudo, aqui já se pode antes esperar o feliz resultado, e sem dúvida alguma a província do Rio de Janeiro dentro em breve possuirá inteiramente a sua primeira grande ferrovia, ao passo que a realização das mesmas na Bahia e Pernambuco nos parece ao menos ainda muito problemática*.

set 092010
 
Marechal deodoro da fonseca

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO (Lisboa, 1611-1666). Diz o Sr. Teófilo Braga que foi esse o homem com mais alta concepção da História em Portugal, no século XVII. Este elogio é com referência à História das Guerras da Catalunha, escrita em castelhano, e reproduz o juízo encomiástico de Philarête Chasles. Em língua portuguesa são suas melhores obras: Epanáforas de Vária História, Carta de Guia de Casados, Apólogos Dialogais, Cartas Familiares e Obras Métricas.

Foi homem de vida acidentada: militou em Flandres e na Catalunha, teve como rival em amores D. João IV, foi preso como réu de assassinato, permaneceu em prisão nove anos e ao cabo deles partiu desterrado para o Brasil. Alexandre Herculano tinha em grande conta este escritor, admirando o tacto com que censurava as ridicularias do seu tempo. Castelo-Branco aplaude-lhe a riqueza lingüística.

Revolução Pernambucana

Preparava-se, entretanto, em Portugal uma armada para ir em socorro dos briosos Pernambucanos, que tão denodadamente tinham levantado o grito de liberdade contra os Holandeses; saiu, com efeito, a armada da barra de Lisboa, e apareceu sobre Pernambuco no dia 20 de dezembro: no dia 25 ajuntaram-se todos os cabos de mar e guerra, tendo primeiro lugar João

Fernandes Vieira, principal instrumento de toda aquela empresa; e foi então que o acerto dos conselhos deu direção e ordem à ousadia de espritos inquietos e agitados. Propôs-se o ataque em toda a linha de fortificação, que era assaz longa, no dia 15 de janeiro, e, quando eram 26 do mesmo mês, (432) tremulavam triunfantes as quinas portuguesas nos baluartes, onde dantes se despregavam ufanas as cores holandesas.

Neste acometimento fêz-se mui notável o cabo Henrique Dias, governador das Minas, o qual, sendo encarregado de tomar de assalto o forte de Altané, chamou primeiramente seus soldados, e, com razões e exemplos do esforço dos brancos, lhes mostrou como o valor não consiste nas cores; e com tal energia e com tão boa fortuna, se abalançou à empresa, que em pouco tempo estava senhor daquele reduto.

Não menos se distinguiu um célebre Camarão, cabo dos Índios, homem astuto e valoroso; este, com trezentos de seus soldados, rodeou pela parte da Barreta, passando tanto avante que foi achar uma casa forte guarnecida de Holandeses armados, os quais acometeu e desalojou a um tempo; seguindo-os depois até ao forte de Barreta, onde, encerrados e de novo acometidos, assim de repetidas cargas como de temeroso alarido, conceberam não menos terror pelas armas que pelas vozes, a quem a escuridão da noite fazia mais horríveis; de sorte que, desesperando da defesa, salvando-se uns, perdendo-se outros, retirando-se muitos, desampararam todos o forte, que em breve caiu nas mãos de Camarão, sem golpe de espada nem tiro de mosquete: tal era o respeito que a este cabo tinham os inimigos.

A estas gentilezas de valor e muitas outras que a História refere, a estes refletidos conselhos, e mais que tudo à presteza

e diligência com que os cabos (433) souberam aproveitar o ardor daquele povo, que pugnava por expulsar um jugo estranho, se deve o glorioso acabamento daquela facção, que será sempre pela fama aplaudida e de grande glória para os habitantes de Pernambuco.

(Epanáforas), obra de D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

A um parente moço que partia para a guerra

Ide com Nosso Senhor. Lembrai-vos sempre dele e de quem sois. Falai verdade. Não aporfieis. Perguntai pouco. Jogai menos. Segui os bons; obedecei aos maiores. Não vos esqueçais de mim. E sede embora Plínio Júnior, que, se tudo isto fizerdes, ainda sereis mais. Deus vos leve, defenda e traga. — Torre, sábado.

(Cartas familiares, Carta, 97.a)., obra de D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

 

(432) mês, que se escrevia erradamente mez, vem do lat. mense, em cuja evolução fonética se desnasalou o primeiro — e — e pereceu desamparado o segundo; o circunflexo veio apenas tonificar o monossílabo. Vocábulos de formação semelhante, com desnasalação, deparam-se em mesa (de mensa), defesa (de defensa), peso (de pensu), teso (de tensu), aceso (de accensu), presa (de prehensa), esposo (de sponsu), mesura (de mensura), ofeso (de offensu), pesar (de pensare), pisar (de pinsare), siso (de sensu), tosar (de tonsare) e em todos permanece o — s — que se segue à sílaba nasal. Os que provêm do som — ce, — ci — latino, esses conservam o — ç — ou mudam-no mais normalmente em — x —, vez (vice), paz (pace), noz (nuce), pez (pice), dez (decem), sagaz (sagace), feliz (felice), atroz (atroce), fiz (feci), foz (fauce), luz (luce) etc.
(433) os cabos = os chefes: ambos esses vocábulos vêm do lat. caput, cabeça: o primeiro diretamente, o segundo através do francês chef.

 

set 072010
 
Marechal deodoro da fonseca

EDUARDO PRADO (São Paulo, 1860-1901) formou-se em Direito na Faculdade da sua província natal e, membro de opulenta família paulistana, longamente viajou, não só pela Europa como por outras partes do mundo. Das suas peregrinações por todas essas terras há dois volumes interessantes: Viagens à Sicília, Malta, Egito e Viagens na América, Oceania e Ásia. l

Escrevendo para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, assinalou com admirável perspicácia os pródromos sociais e políticos da proclamação da República.

Contra a nova ordem de coisas compôs na Europa um livro que teve franca repercussão entre os monarquistas, Os Fastos da Ditadura Militar, de que há uma edição prefaciada pelo Visconde de Ouro Preto,

Infenso à propensão, então manifestada, para imitação do regime e das praxes dos Estados Unidos, publicou a sua Ilusão Americana, cuja primeira edição foi confiscada e destruída pela polícia de São Paulo.

Estilista nervoso e vibrante, Eduardo Prado temperava a combatividade aliás sempre delicada, mesmo quando ferina, com erudição pacientemente formada nas bibliotecas e arquivos. Exemplo deste seu feitio nos oferece o seu magnífico trabalho sobre a Bandeira Nacional, criticando irrefutavelmente os deslizes cosmográficos e históricos dos positivistas, planeadores da atual bandeira.

Publicaram-se, depois da sua morte, quatro volumes de Coletâneas, isto é, uma coleção dos seus melhores escritos sobre assuntos brasileiros.

Por ocasião do tri-centenário de Anchieta, Eduardo Prado colaborou no volume comemorativo, e sempre com a habitual galhardia das suas contribuições. ,

A morte prematura deste homem de letras, salteado pela febre amarela no Rio de Janeiro e indo fenecer em São Paulo, encheu de luto não só o Brasil como as rodas finamente literárias que na Europa, e principalmente em Portugal, tanto ou talvez mais do que nós, apreciavam o ilustre Brasileiro.

A História do Brasil – Trecho da Obra de Eduardo Prado

A nossa História é cheia de emocionantes episódios, de dúvidas que despertam e prendem a curiosidade, de lendas poéticas que seduzem e de problemas cuja solução desafia a sagacidade do estudioso.

O grande mistério da espécie humana na América pre-his-tórica, está, em grande parte, escrito e oculto no Brasil, nas línguas indígenas, onde os filólogos o querem decifrar; nas camadas do solo, onde há os vestígios de extintas espécies, e onde se descobrem as imagens impressas e, às vezes, os restos da fauna do passado, entre os quais Lund, nas furnas da Lagoa Santa, julgou descobrir o homem contemporâneo de um mundo desaparecido. Na cerâmica dos vasos de Marajó há o aparecimento de uma arte, pela qual o sentimento estético daqueles desconhecidos oleiros se aproxima da pureza das formas e da harmonia das linhas que os ceramistas da Ática consagram.

À beira das praias, onde o mar espuma, a recordação das gerações que passaram está nas conchas amontoadas, entre as quais se acha, dentro da sua urna funerária, a múmia misteriosa do homem sem nome; e o estudioso pergunta se aqueles mortos e se os habitantes selvagens das nossas terras não são ruínas de povos, e, como diz Martius, "o resíduo de uma muito amiga, posto que perdida história".

E quando é que o Brasil começou a existir para o resto do mundo? Em que época se veio juntar à torrente da História?

Foi na época deslumbrante da Renascença que o fio, tênue então, mas para sempre ininterrupto da sua vida, se veio entretecer na trama (141) universal da vida das nações. As viagens oceânicas, um dos grandiosos episódios daquele tempo, franquearam o Atlântico, e assim a Europa e, mais tarde, a África, puderam vir reunir-se neste grande pedaço da América e formar o Brasil. Vieram então as armadas, velejaram ao longo das nossas costas as caravelas e as naus, tomando alturas, recebendo água em caminho da Índia, erigindo padrões, deixando homens desterrados. Pereceram em ignorados naufrágios alguns navios e os desterrados e os salvos das ondas, esses padrões vivos da nossa raça conquistadora, aí ficavam na terra e eram o misterioso João Ramalho, o obscuro bacharel de Cananéia, mais tarde o lendário Caramuru ou o ingênuo e tão interessante Hans Staden. Portugueses e Franceses chegavam à costa brasileira; traficavam em pau-brasil, estabeleciam feitorias, depósitos ou pontos de negócio, e isto sem deixar vestígios, como se vê do que aconteceu na história tão obscura do comércio dos Fenícios e Cartagineses, que rodearam a África, foram ao incerto Ofir do Oceano Indico e, em busca do estanho e do âmbar, às costas da Inglaterra e às praias hiperbóreas do Báltico.

Foi nesse século XVI que se esculpiu o coro da Igreja de São Jaques, em Diepe, onde, na figuração das cenas da vida dos mercadores da cidade, aparecem Índios, contando e carregando pau-brasil, todos armados das suas emplumadas araçóias (*). E outros Índios então levados à França, como curiosidade, acampavam em Ruão à margem do Sena e iam ornar a entrada triunfal de Henrique II, cristianíssimo rei de França, e da muito ilustre dama Catarina de Médicis, sua esposa. Carlos IX dialogava com outros Índios e Montaigne, fazendo traduzir uma canção dos Tupinambás, declarava achar nela um sabor todo anacreôntico (**).

Quem se dedica à História do Brasil não se encerra dentro de uma especialidade árida e estreita. Desde a época da descoberta nenhum grande fato europeu deixou de ter a sua repercussão no Brasil ou de influir em nossos destinos. Se alguém entre nós fizesse a experiência de ensinar a um adolescente a História do Brasil, explicando-lhe sucessivamente os acontecimentos da História da Europa e pintando-lhe os seus personagens, (142) à medida que em nossa história fossem aparecendo os efeitos daqueles acontecimentos ou a influência daquelas figuras — esse adolescente acabaria sabendo não só a história da sua pátria, mas também quase que (143) a história completa do Ocidente do velho mundo dos últimos três séculos.

A reforma repercutiu no Brasil na tentativa da colonização huguenote de Villegagnon e, à sombra dos alterosos rochedos da baía do Rio de Janeiro, discutiram teólogos de Genebra com teólogos católicos e, perante os selvagens nus, a mais elevada teologia, e terçaram os argumentos mais sutis sobre a Graça, a Presença Real e a Predestinação. Surge no campo católico a reação organizada na Companhia de Jesus, e dos primeiros dos seus soldados vêm muitos ao Brasil, cuja história fica então ligada à dos Jesuítas.

 

(*) Margry, Les Navigations Françaises, Paris, 1867, p. 171. (**) Montaigne, Essais, livro 1, cap. XXX.

(141) entretecer na trama. O verbo tecer, componente do verbo acima, devia escrever-se com dois ss, consoante o seu étimo, que é o verbo lat. texXre (pron. técsere), no qual, perdido o fonema explosivo — c (—k), restou o — í — surdo, que se duplicou entre vogais. A forma tecer (com c: por analogia com os verbos incoativos), está, porém, tão arraigada que o próprio Vocabulário a regista. O vernáculo trama, do lat. trama, é geralmente feminino;

e não se deve incluir entre os termos acabados em — ma, de origem grega, todos masculinos: anagrama, panorama, teorema, telefonema, clima, sintoma, idioma, carcinoma etc. Alguns dicionários, todavia, ao averbar o termo, dão-lhe os dois gêneros, indiferentemente; outros distinguem trama (fio, tecido) feminino, de trama (intriga, ardil, tramóia) masculino. Rui serviu-se do vocábulo nos dois gêneros: feminino, na Réplica, 326; masculino, na Queda do Império, I, p. 328, e na Réplica, 20, in fine. (142) Vide nota 65. (143) O uso de um que depois de certos advérbios e locuções {felizmente, certamente, quase, talvez, sem dúvida) tem sido aceito, por se deparar em escritores cabais: — "quase que se sucedem um ao outro". (Rui, Répl., 201); "quase que já chegaram." (Id., Cartas de lngl., 2.a ed., p. 208); "quase que é o mesmo". (Herculano, Lendas e Narr., p. 286); " Talvez que o último dia". (Rebelo da Silva, ap. Dicion. de Laudelino e Campos, sub. v. talvez); "Verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira"… (R. Lobo, Corte na aldeia, diálogo I); "Felizmente que não estava só". (Garrett, Viagens na Minha Terra, p. 50); "Em suma que nada justifica a implantação desse neologismo". (Rui, Répl., 131). Isso leva a supor nesse que um possível conectivo integrante, ligado a um verbo elíptico. é fato, porém, que esse expletivo acarreta, não só na linguagem das crianças e do povo, senão também na de homens cultos, a feitura de frases francamente erradas, que é mister corrigirem-se: Onde que você esteve? quando que iremos?; quem que disse? por que que não responde? Pode-se aí supor a elipse do verbo ser. Melhor parece, porém, que se evitem tais formas, pouco acomodadas à castidade da língua.

 

A Espanha quase realiza o sonho da monarquia universal e nessa monarquia entra o Brasil, como parte do domínio de Felipe II. Há o primeiro anúncio da futura supremacia marítima da Inglaterra, quando Elisabeth promove por todos os meios o desenvolvimento naval e Eduardo Fenton, um dos vencedores futuros da Invencível Armada, penetra em Santos, que Cavendish mais tarde saqueia; Withrington assola os arredores da Bahia, Lancáster ataca o Recife.

Nasce o poder marítimo dos Holandeses e Olivier van Noort surge diante do Rio de Janeiro, van Carden tenta apossar-se da Bahia; Joris van Spilbergen hostiliza Santos. Prenúncios estes de que a revolta dos Países Baixos contra a Espanha ia ter também como teatro de ação a nossa terra; e assim foi nos trinta anos das invasões e das guerras holandesas ao norte do Brasil. Desde então, na solução das grandes crises européias, por ocasião das pazes de Vestfália e de Munster no século XVII; na paz de Utrecht no século XVIII; e, em nosso século, nos tratados de Viena em 1815, o Brasil, isto é, a questão da legitimidade e dos limites da soberania portuguesa na América, foi objeto de discussão e de transação.

No século XVIII, a maior vitória do filosofismo foi a destruição dos Jesuítas, fato da maior gravidade para o Brasil.

E, noutra ordem de idéias, de que alcance não foi para a vida econômica e social do mundo inteiro toda a inundação de ouro saído do Brasil, quando houve ano em que só a capitania de Minas produziu mais de 500 arrobas de ouro?

E, mais perto de nossos dias, a tormenta revolucionária e a passagem de Napoleão pelo mundo tiveram como conseqüência, deste lado do oceano, a forma extraordinária pela qual, sem sacrifício, foi ganha a nossa Independência.

Um ilustre poeta inglês prestou um imenso e inestimável serviço a nós todos, escrevendo uma (144) notável História do Brasil.

Meditando sobre a nossa história, Roberto Southey ficou compenetrado da importância e do valor futuro do Brasil. E, ao terminar a sua grande obra, diz-nos que escolheu esta grande tarefa "na sua virilidade madura e que a propôs como objeto de uma vida dedicada à literatura, no que esta tem de mais elevado e digno".

(144) O indefinido um é, muitas vezes, dispensável em português; empregá–lo antes de quaisquer qualificativos e nomes é incidir em construção francesa. Digamos, sem o indefinido: prestou imenso serviço, escreveu notável obra, recebemos cordial acolhida, sentiu vontade, teve prazer etc.

E isto fêz aquele estrangeiro ilustre, porque, como êle próprio o diz, ficou convencido, ao estudar os trabalhos dos fundadores do Brasil, "que das empresas desses homens obscuros surgiram conseqüências mais amplas e provavelmente mais duradouras que as conquistas de Alexandre e Carlos Magno".

(Coletânea, vol. III, São Paulo, 1906)


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

ago 312010
 

ESCRITORES PORTUGUESES

JOÃO BATISTA DA SILVA LEITÃO DE ALMEIDA GARRETT, Visconde de Almeida Garrett (Porto, 1799-1854) ainda quando estudante de Direito em Coimbra, já escrevia a tragédia Merope e o poema didático Retrato de Vénus. Serviu como oficial da Secretaria do Reino e, demitido desse emprego por ter publicado o elogio do revolucionário Manuel Fernandes Tomás, emigrou para a Inglaterra duas vezes, primeiro em 1823, voltando em 1826, e depois em 1828, regressando em 1832, com o exército libertador. Em 1837 foi deputado às Cortes constituintes e desde então viveu cumulado de honras, chegando a ministro de Estado e par do Reino.

É um dos da gloriosa trindade romântica em Portugal; e entre suas numerosas obras citaremos: o poema-romance Camões; o tratado da Educação; o Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa; Auto de Gil Vicente, Alfageme de Santarém, Frei Luís de Sousa, dramas; Flores sem Fruto, Folhas Caídas, livros de poesias; Arco de SanVAna, romance; Viagens na Minha Terra, misto de romance e crítica.

O Grego e o Latim

Texto de Almeida Garrett sobre educação

O grego e o latim são necessários elementos desta educação nobre. Deixar falar modernos e modernices, petimetres (175) e neologistas de toda espécie; o homem que se destina, ou que o destinou seu nascimento, a uma vocação pública, não pode sem vergonha ignorar as belas-letras e os clássicos. Saiba êle mais Matemática do que Laplace, mais Química do que Lavoi-sier, mais Botânica do que Jussieu, mais Zoologia do que Linneu e Buffon, mais Economia Política do que Smith e Say, mais Filosofia de legislação do que Montesquieu e Bentham; se êle não fôr o que os ingleses chamam a good schoolar, triste figura há de fazer, falando, ou seja na barra, na tribuna, no púlpito, — tristíssima escrevendo, seja qual fôr a matéria, porque não há assunto em que as graças do estilo e correção da frase e beleza da dição não sejam necessárias e indispensáveis. Ponham-me (176) Demóstenes, Cícero — e Canning também, — com seus grandes talentos, fortes de químicas e economias políticas, e com todos os códigos de suas respectivas nações na cabeça, mas desprovidos de suas imensas riquezas literárias, do irresistível feitiço de sua linguagem clássica — ponham-nos no areópago de Atenas, no senado de Roma e na câmara de Londres, e veremos se são os mesmos homens, os mesmos estadistas, os mesmos oradores onipotentes, diante de quem tremem o Filipes, os Ca-tilinas e as Santas Alianças.

Escreva alguém com dobrada erudição e engenho o Espírito das Leis, mas sem os encantos do estilo clássico de Montesquieu, e veja quantos lho lêem. (177) Traduzam em língua de tarelos as obras de Plutarco, de Cícero, de Laplace, e veremos quantos leitores têm. (178).

Ora, é tão impossível escrever bem em português, em castelhano, em inglês, em qualquer das línguas do ocidente da Europa, sem saber grego, e principalmente latim, como era impossível aos escritores de Roma fazê-lo bem na sua, sem conhecerem a de Atenas; ou ainda hoje ao poeta ou orador de Ispahã ou de Estambul o escrever bom turco ou bom persiano, sem saber o árabe antigo, a língua do Corão e de Hafiz, agora tão morta para eles como o grego e latim para nós, como o sânscrito para Índios e Mongóis.

(Educação, carta I).

(175) Transcrição do fr. petit-maitre = casquilho, peralta, janota, pelintra, peralvilho. (176) ponham-me. Esse me é o chamado dativo ético, não pedido pelo verbo mas indicativo de certo interesse de quem fala; é como se fora: ponham diante de mim… Pouco adiante lê-se o mesmo verbo com o objeto direto pleonástico nos, que é o acusativo los, nasalizado sob o influxo da desinência nasal do verbo. (177) Lêem, crêem, vêem, dêem, 3.a pess. do plural de lê, crê, vê e dê, todos com o circunflexo e com duas sílabas no plural. (178) Têm, vêm, com circunflexo no pl. e uma só sílaba.

POETAS PORTUGUESES

JOÃO BATISTA DA SILVA LEITÃO DE ALMEIDA GARRETT – Poemas (Vide no l.a parte a bio-bibliografla).

A Visão – Poesia de Almeida Garrett

Aberta era par do templo estava a porta:
Entrei. Naquelas pedras animadas
Por cinzel primoroso se pasciam
Meus olhos admirados: as erguidas
Colunas, as abóbadas altivas,
As palmas, as cordagens enlaçadas,
E o sinal santo que as remata e une,
E que por toda a parte está marcando
As vitórias do lenho triunfante, (677)
O vexilo da glória portuguesa,
Nunca, nunca tão alto me clamaram
Que sós, sem Deus, sós pelo esforço humano,
Não fariam jamais os Portugueses
O que hão feito no mundo… Dei co túmulo
De custoso lavor, que aí resguarda
As cinzas do monarca afortunado,
Afortunado em vida: — a morte fecha-lhe,
Selo do Eterno, os lábios descarnados;
São segredos de Deus os do sepulcro.
Mais cansado que pio, ajoelhei-me
Sobre os degraus do túmulo: insensível,
No recostado braço a fronte inclino
E descaí num lânguido delíquio,


(677) lenho — a cruz de Cristo; lenho é também navio: …”cometendo / o duvidoso mar num lenho leve”… (Lus., I, 27), et passim.

Que nem morte, nem sono, mas olvido
Suavíssimo é da vida. Sono embora
Lhe chamaria, se as visões tão claras,
Mais rapto d’alma em êxtase sublime
Que imagem vã de sonhos, as não visse.
Talvez seria natural efeito
De agitados sentidos, porventura
Mui crédulo serei… Mais alta causa
De fenômeno estranho então a tive.
Oh! sonho não foi esse, afigurou-se-me
Ver do moimento (678) erguer-se um vapor leve,
Raro, como de nuvem transparente,
Que mal embaça o lume das estrelas
No puro azul dos céus: foi pouco a pouco
Condensando-se espesso, e longes dava
De humana forma irregular, qual soem (679)
Ao pôr do sol fantásticas figuras
As nuvens debuxar pelo horizonte.
Logo, mais certas, mais distintas formas,
Qual mole cera em mãos d’hábil artífice,
Tomando foi. Já claro ante mim era.
Roupas trajava alvíssimas e longas;
Seus braços de extensão desmesurada,
Um sobre o peito co índice apontava
Ao coração, que as vestes resplendentes
Transparecer deixavam. Viva chama,
Como luz de carbúnculo (680) brilhava
Na víscera patente; e em radiosas
Letras lhe soletrei: Amor da Pátria.
Da maravilha como por encanto,
Sem receio ou terror a contemplava,

(678) moimento — monumento; vem de ‘monimentu por monumentu-. Esse termo foi refeito. (679) soem — v. soer (do lat. solere, costumar, ter por hábito) do soíam. A raiz de soUre encontra-se ainda em soedor, acostumado, e sóllto, usado (arcaicos); insólito, fora do modo habitual; insolente, fora do hábito, das boas maneiras. Soem debuxar — é expressão verbal, de que é suj. as nuvens. (680) carbúnculo (diminut. do lat. carbane) é aqui rubi.

Quase por tal prodígio enfeitiçado;
Quando esses sons, entre áspero e suave,
Mas solenes ouvi: “Jovem ousado,
Grande empresa te coube, acerba glória,
De que não gozarás! Desgraças cruas
Fadam teus dias. . . Mas a fama ao cabo.
A pátria, que foi minha, que amei sempre,
Que amo inda agora, grão serviço aguarda
De ti. Um monumento, mais durável
Do que as moles do Egito, erguer-lhe deves…
Pirâmide será por onde os séculos
Hão de passar de longe e respeitosos.
Galardão, não o esperes. Fui ingrato
Eu, fui! ingrato rei, ingrato amigo…
E a quem! Maiores de meu sangue ainda
Ingratos nascerão. Tu serve a pátria: (681)
É teu destino celebrar seu nome.
Os homens não são dignos nem de ouvi-las,
As queixas do infeliz. (682) Segue ao Oriente
Salva do esquecimento essas ruínas,
Que já meus netos de amontoar começam
Nos campos, nos alcáçares de glória,
Preço de tanto sangue generoso.
Um dia… Em vão perante o excelso trono
Do Eterno me hei prostrado; irrevogável,
A sentença fatal tem de cumprir-se…
Um dia inda virá que, envilecido,
Esquecido na terra, envergonhado
O nome português… Opróbrio, magoa,
Dura pena de crimes! tábua única
Lhe darás tu para salvar-lhe a fama
Do naufrágio. Tu só dirás aos séculos,
Aos povos, às nações: Ali foi Lísia!

(681) Tu serve a pátria — Às vezes, por ênfase, como aqui, o pronome sujeito pode preceder o imperativo verbal: “Agora tu, Calíope, me ensina”… (Lus., 111. 1); “Tu, grande, excelso nume, e sempiterno, / que isto vês, me socorre e o mar serena”. (Gabriel P. de Castro, Ulisséia, V, 54). “Tu do grão caso a pura luz revela” (Caramuru, I, 2); “Gênio da inculta América, que inspiras / ao meu peito o furor que me transporta / Tu me levanta nas seguras asas”. (O Uruguai, c. IV). (682) Aqui, o pronome vicário, repetidor pleonástico do objeto dir., antecede elegantemente esse complemento do verbo.

Como o encerado rolo sobre as águas
Único leva à praia o nome e a fama
Do perdido baixel. Parte. Salvá-lo!
Salvá-lo, enquanto é tempo! Extinto… Infâmia!
Extinto Portugal… Oh dor!…” — Rompeu-lhe
O derradeiro acento destas vozes
Em som de pena tal e tão tremendo,
De tão profunda mágoa que inda agora
Nos cortados ouvidos me ribomba:
Estremeci, olhei; já nada vejo:
Ou acordei, ou a visão se fôra.

(Poema Camões)

Retrato – Poesia de Almeida Garrett

Onde vais tão alva e linda,
Mas tão triste e pensativa,
Pura, celeste Adozinda,
Da côr da singela rosa,
Que nasceu ao pé do rio?
Tão ingênua, tão formosa
Como a flor, das flores brio,
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
À doce manhã de abril!
Roupas de seda que leva,
Alvas de neve que cega,
Como os picos do Gerês,
Quando em janeiro lhe neva;
Cinto côr de violeta,
Que à sombra desabrochou;
Cintura mais delicada
Nunca outro cinto apertou;
Anéis louros do cabelo
Como o sol resplandescentes,
Folgam soltos; dá-lho vento,
Dá no véu ligeiro e belo,
Véu por suas mãos bordado,
De um santo ermitão fadado.

(Poema-canto Adozinda)


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

mai 272009
 
fernão cardim, jesuíta português
fernão cardim, jesuíta português

Fernão Cardim (1540? – 1625) – Tratados da Terra e Gente do Brasil

III

INFORMAÇÃO   DA  MISSÃO   DO   P.   CHRISTOVÃO GOUVÊA ÁS PARTES DO BRASIL – ANNO DE 83,

OU

NARRATIVA EPISTOLAR DE UMA VIAGEM E MISSÃO JESUITICA.

Pela Bahia, llheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente, (S. Paulo) etc. desde o anno de 1583 ao de 1590, indo   por  visitador o  P.   Christovão de  Gouvêa

Escripta em duas Cartas ao P. Provincial em Portugal

NARRATIVA EPISTOLAR DE UMA VIAGEM E MISSÃO JESUÍTICA

I

Nesta com o favor divino darei conta a Vossa Reverencia da nossa viagem e missão a esta província do Brasil, e determino contar todo o principal que nos tem succedido, não somente na viagem, mas também em todo o tempo da visita que Vossa Reverencia tenha maior conhecimento das cousas desta província, e para maior consolação minha, porque em tudo desejo de communicar-me com Vossa Reverencia e mais padres e irmãos desta província (I).

Recebendo o padre Christovão de Gouvea (II) patente de nosso padre geral, Cláudio Aquaviva, para visitar esta província lhe foi dado por companheiro o padre Fernão Cardim, ministro do collegio d’Evora, e o irmão Barnabé Tello. Juntos em Lisboa no principio de Outubro de 82 residimos ahi cinco mezes pela detença que fez o Sr. Governador Manuel Telles Barreto (III). Em todo este tempo se aparelhava matalotagem e.se negociaram muitas cousas, ás quaes tinha ido o padre Rodrigo de Freitas (IV). O padre visitador tratou por vezes com alguns prelados e letrados casos de muita importância sobre os captiveiros, baptismos e casamentos dos indios e escravos de Guiné, de cujas resoluções se seguiu grande fructo e augmento da chris-tandade depois que chegámos ao Brasil. Também fallou algumas vezes com El-Rei, o qual com muita liberaiidade lhe fez esmola de quinhentos cruzados para os padres que residem nas aldeias dos indios, e deu uma provisão para se darem ornamentos a todas as igrejas que os nossos têm nesta província, se. frontaes e vestimentas de damasco com o mais aparelho para os altares, o que tudo importaria passante de dous mil cruzados, e por sua grande benignidade e zelo que tem da christandade e protec-ção da Companhia, deu ao padre cartas em seu favor e dos indios para todos os capitães e câmaras das cidades e villas, encommendando-lhes muito o padre e o augmento de nossa santa fé e que com elles tratassem particularmente todas as cousas pertencentes não somente ao serviço de Deus, mas também ao governo da terra e conservação deste seu estado.

Chegado o tempo de partida nos embarcámos com o Sr. governador na náu Chagas S. Francisco, em companhia de uma grande frota. Viemos bem acommoda-dos em uma câmara grande e bem providos do necessário. Aos 5 de Marco de 83 levámos anchora, e com bom tempo, em 9 dias arribámos á ilha da Madeira, onde fomos recebidos do padre Rodrigues, Reitor, e dos mais padres e irmãos, com grande

alegria e caridade. O governador saindo em terra, se agasalhou em o collegio e foi bem servido, etc. O padre visitou aquelle collegio como V. Rva tinha ordenado, declarou-lhe as regras novas, e com práticas e colloquios familiares ficaram todos mui consolados: foi por vezes visitado do Sr. Bispo e mais principaes da terra. Passados dez dias nos fizemos á vella aos 24 de Março, véspera de N. Senhora da Annuncia-ção e com tal guia e estrella do mar cursando as brisas, que são os Nordestes geraes daquella paragem, nem tomando o Cabo Verde, em breve nos achámos em 4 graus da equinocial, aonde por cinco ou seis dias tivemos grandes calmarias, trovoadas, e chuveiros tão escuros e medonhos, e tão fortes ventos, que era cousa d’espanto, e no meio dia ficávamos numa noite mui escura. Neste tempo (pelas grandes calmas, faltas de bons mantimentos, e abundância de pescado que se tomava e comia, por não ser muito sadio) adoeceram muitos dumas febres tão coléricas, e agudas que em breve os punham em perigo manifesto da vida. Eram estes doentes de nós ajudados em suas necessidades, os quaes com confissões, práticas, lição das vidas dos santos, e animados de dia, e de noite, e no temporal ajudados com medicinas, e outros mi mos de doentes, conforme ás suas necessidades, e nossa pobreza e possibilidade; com elles houve não pequena matéria de merecimento, e não pequena consolação, porque com as diligencias que se lhes faziam, foi Nosso Senhor servido que só um morresse em toda a viagem, excepto outro que caiu ao mar, sem lhe podermos ser bons. Os nossos também participaram desta visitação das mãos de Deus. O primeiro que caiu foi o padre visitador, das mesmas febres tão agudas, e rijas, que nos parecia que não escaparia daquella. Foi sangrado três vezes, enxaropado, e purgado, provido de todas as gallinhas, alcaparras, perrexil, chicorias, e alfaces verdes, e cousas doces, e outros mimos necessários, que pareceria estarmos em o collegio de Coimbra; e tudo se deve á caridade do irmão Sebastião Gonçalves, que com grande amor mais que de pai e de mãe, prove a todos que se embarcam para estas partes. O segundo foi o padre Rodrigo de Freitas que, adoecendo das mesmas febres chegou á grande fraqueza, da qual com três sangrias, e uma purga se convalesceu. Os mais companheiros tivemos saúde nem nos pesou para os curar, e servir, graças ao Senhor, com tudo. Todo o tempo de viagem exercitámos nossos ministérios com os da náu, confessando, pregando, pondo em paz os discordes, impedindo juramentos e outras offensas de Deus, que em semelhantes viagens, se commettem todos os dias, Á noite havic ladainhas ás quaes se achava o Sr. Governador com seus sobrinhos e mais da náu. Na semana santa houve mandato (7 de Abril), ladainhas e Miserere em canto d’orgão. A manhã da gloriosa Ressurreição (10 de Abril) se celebrou com muitos foguetes, arvores, e rodas de fogo, disparando algumas peças d’artilharia, depois houve procissão pela náu, e pregação. O governador, com todos os seus, trataram sempre o padre com grande respeito e reverencia, algumas vezes o convidava a jantar, o que o padre visitador lhe acceitou algumas vezes. Toda a viagem se confessou commigo, e algumas vezes na Bahia; mas como chegaram os frades Bentos, logo se confessou com elles (V).

Passada a equinocial entraram os ventos geraes, com que arribámos á Bahia de todos os Santos, a 9 de Maio de 83. Gastámos na viagem, com dez dias de detença na ilha da Madeira, 66 dias (VI). Os padres visitador e Rodrigo de Freitas, dous ou três dias antes da chegada, tornaram a recair gravemente," e tanto que demos fundo veio á nau o padre Gregório Serrão, Reitor (VII), e outros padres: saímos logo em terra na praia; á porta da nossa cerca, nos esperavam quasi os mais padres e irmãos, que nos levaram ao collegio com grande alvoroço e contentamento. Estava um cubículo enramado e bem concertado para o padre visitador, no qual foi curado com grande caridade, não faltando medico, e muitos e diligentes enfermeiros, com os mais mimos de todas as conservas, e cousas necessárias para sua saúde, e com suar cada dia três ou quatro camisas nunca faltavam. Dahi a três ou quatro dias, adoeceu o -irmão Barnabé Tello, esteve muito ao cabo, foi sangrado sete vezes, e purgado, tinha grande fastio.e com vinho se lhe foi; e pela bondade de Deus, e diligencia grande, que com elles se teve, todos recuperaram a saúde desejada, e a Deus com orações de todos pedida.

Convalescido o padre, começou visitar o Collegio, lendo-se primeiro a patente na primeira prática; nella, e em outras muitas que fez, e mais colloquios familiares, consolou muito a todos. Ouviu as confissões geraes, renovaram-se os votos com devoção, e alegria; distribuiu a todos muitas relíquias, AgnusDei, relicarios, imagens, e contas bentas; deram-se a todos regras novas e se puzeram em execução as que ainda a não tinham, com que todos ficaram com maior luz, renovando-se no espírito de nosso instituto. Era matéria de grande consolação ver a alegria com que todos declaravam suas consciências ao padre, o fervor das penitencias com outros exercícios de virtude, e humildade.

Quando o padre visitou as classes, foi recebido dos estudantes, com grande alegria e festa. Estava todo o pateo enramado, as classes bem armadas com guarda-mecins, painéis e varias sedas. O padre Manuel de Barros (VIM), lente do curso, teve uma eloqüente oração, e os estudantes duas em prosa e verso: recitaram-se alguns epigramas, houve boa musica de vozes, cravo e descantes. O padre visitador lhes mandou dar a todos Agnus Dei, relíquias e contas bentas, de que ficaram agradecidos. Dahi a dous ou três dias, vindo o Sr. governador á casa, os estudantes o receberam com a mesma festa, recitando-lhe muitos epigramas; o padre Manuel de Barros lhe teve uma oração cheia de muitos louvores, onde entraram todos os troncos, e avoengas do Monizes, com as mais maravilhas que têm feito na índia, de que ficou muito satisfeito (IX).

Trouxe o padre uma cabeça das Onze mil virgens, com outras relíquias engastadas em um meio corpo de prata, peça rica e bem acabada. A cidade e os estudantes lhe fizeram um grave e alegre recebimento: trouxeram as santas relíquias da Sé ao Collegio em procissão solemne, com frautas, boa musica de vozes e danças. A Sé, que era um estudante ricamente vestido, lhe fez uma falia do contentamento que tivera com sua vinda; a Cidade lhe entregou as chaves; as outras duas virgens, cujas cabeças já cá tinham, a receberam á porta de nossa igreja; alguns anjos as acompanharam, porque tudo foi a modo de dialogo. Toda a festa causou grande alegria no povo, que concorreu quasi todo (X).

A Bahia é cidade d’EI-Rei, e a corte do Brasil; nella residem os Srs. Bispo, governador, ouvidor geral, com outros officiaes e justiça de Sua Magestade; dista da equinocial treze graus. Não está muito berri situada, mas por ser sobre o mar é de vista aprazível para a terra, e para o mar: a barra tem quasi três léguas de bocca, e uma enseada com algumas ilhas pelo meio, que terá em circuito quasi 40 leguas. É terra farta de mantimentos, carnes de vacca, porco, gallinha, ovelhas, e outras criações; tem 36 engenhos, nelles se faz o melhor assucar de toda a costa; tem muitas madeiras de paus de cheiro, de varias cores, de grande preço; terá a cidade com seu termo passante de três mil vizinhos portuguezes, oito mil Índios christãos, e três ou quatro mil escravos de Guiné; tem seu cabido de conegos, vigário geral provisor, etc. com dez ou doze freguezias por fora, não fallando em muitas igrejas e capellas que alguns senhores ricos têm em suas fazendas.

Os padres têm aqui collegio novo quasi acabado; é uma quadra formosa com boa capella, livraria, e alguns trinta cubículos, os mais delles têm as janellas para o mar. O edifício é todo de pedra e cal de ostra, que é tão boa com a de pedra de Portugal. Os cubículos são grandes , os portaes de pedra, as portas d’angelim, forradas de cedro; das janellas descobrimos grande parte da Bahia, e vemos os cardumes de peixes e balêas andar saltando n’agua, os navios estarem tão perto que quasi ficam á falia. A igreja é capaz, bem cheia de ricos ornamentos de damasco branco e roxo, veludo verde e carmesim, todos com tela d’ouro; tem uma cruz e thuribulo de prata, uma bôa custodia para as endoenças, muitos e devotos painéis da vida de Christo e todos os Apóstolos. Todos os três altares têm dóceis, com suas cortinas de tafetá carmesim; tem uma cruz de prata dourada, de maravilhosa obra, com Santo Lenho, três cabeças das Onze mil virgens, com outras muitas e grandes relíquias de santos, e uma imagem de Nossa Senhora de S. Lucas, mui formosa e devota.

A cerca é muito grande, bate o mar nella, por dentro se vão os padres embarcar, tem uma fonte perenne de boa água com seu tanque, aonde se vão recrear; está cheia de arvores d’espinho, parreiras de Portugal, as quaes se as podam a seus tempos, todo o anno estão verdes, com uvas, ou maduras ou em agraço. A terra tem muitas fructas, se. ananazes, pacobas, e todo o anno ha fruetas nos refeitórios. O ananaz é frueta real, dá-se em umas como pencas de cardos ou folhas d’erva babosa, são da feição e tamanho de pinhas, todos cheios de olhos, os quaes dão umas formosíssimas flores de varias cores: são de bom gosto, cheiram bem, para dôr de pedra são salutiferos: deltas fazem os Índios vinho, e tem outras boas commodidades; a maior parte do anno os ha. Tem alguns coqueiros, e uma arvore que chamam cuieira que não dá mais do que cabaças, é fresca e muito para ver. Legumes não faltam da terra e de Portugal; bringellas, alfaces, couves, abóboras, rabãos e outros legumes e hortalices. Fora de casa, tão longe como Villa Franca de Coimbra, tem um tanque mui formoso, em que andará um bom navio; anda cheio de peixes: junto a elle ha muitos bosques de arvoredos mui frescos; alli se vão recrear os assuetos, e no tanque entram algumas ribeiras de bôa água em grande quantidade (XI).

O Collegio tem três mil cruzados de renda, e algumas terras adonde fazem os mantimentos; residem nelle de ordinário sessenta; sustentam-se bem de mantimentos, carne e pescados da terra; nunca falta um copinho de vinho de Portugal, sem o qual se não sustenta bem a natureza por a terra ser desleixada e os mantimentos fracos; vestem e calçam como em Portugal; estão bem empregados em uma lição de Theoiogia, outra de casos, um curso d’artes, duas classes de humanidades, escola de ler e escrever; confessam e pregam em nossa igreja, sé, etc. Outros empregam-se na conversão dos Índios, e todos procuram a perfeição com grande cuidado, e serve-se Nosso Senhor muito deste collegio, ao qual será honra e gloria (XII).

Depois da renovação dos votos, quiz o padre vêr as aldêas dos índios brevemente para ter algumas noticias dellas. Partimos para a aldêa do Espirito Santo (XIII), sete léguas da Bahia, com alguns trinta indios, que com seus arcos e frechas vieram para acompanhar o padre e revezados de dous em dous o levavam numa rede. Os mais companheiros iamos a cavallo, os tapyaras (XIV) sc. padres moradores iam a pé com suas abas na cinta, descalços como de ordinário costumam. Aquella noite nos agasa-Ihou um homem rico (XV), honrado, devoto da Companhia, em uma sua fazenda, com todas as aves e caças e outras muitas iguarias, e elle mesmo servia á mesa. Ao dia seguinte dissemos missa ante-manhã, a qual acabada já o almoço estava prestes de muitas e varias iguarias, que nos ajudaram passar aquelle dia muitos rios caudaes. Um deites passaram os indios o padre na rede, pondo-o sobre as cabeças, porque lhes dava a água quasi pelo pescoço, os mais passamos a cavallo com bem de trabalho. Passado este chegámos ao grande rio Joannes; este passámos em uma jangada de paus levíssimos, o padre visitador ia na jangada sobre uma sella, por se não molhar e os indios a nado levavam a jangada.

Chegando o padre á terra começaram os frautistas tocar suas frautas com muita festa, o que também fizeram em quanto jantámos debaixo de um arvoredo de aroeira mui altas. Os meninos indios, escondidos em um fresco bosque, cantavam varias cantigas devotas emquanto comemos, que causavam devoção, no meio da-quelles matos, principalmente uma pastoril feita de novo para o recebimento do padre visitador seu novo pastor. Chegámos á aldêa á tarde; antes delia um bom quarto de Iegua, começaram as festas que os indios tinham aparelhadas as quaes fizeram em uma rua de altíssimos e frescos arvoredos, dos quaes saiam uns cantando e tangendo a seu modo, outros em ciladas safam com grande grita e urros, que nos atroa-vam e faziam estremecer. Os cunumis (XVI) sc. meninos, com muitos molhos de frechas levantadas para cima, faziam seu motim de guerra e davam sua grita, e pintados de várias cores, nusinhos, vinham com as mãos levantadas receber a benção do padre, dizendo em portuguez, "louvado seja Jesus Cristo". Outros sairam com uma dança d’escudos á portugueza, fazendo muitos trocados e dançando ao som da viola, pandeiro e tamboril e frauta, e juntamente representavam um breve dialogo, cantando algumas cantigas pastoris. Tudo causava devoção debaixo de taes bosques, em terras estranhas, e muito mais por não se esperarem taes festas de gente tão barbara. Nem faltou um anhangá (XVII) sc. diabo, que saiu do mato; este era o diabo Am-brosio Pires, que a Lisboa foi com o padre Rodrigo de Freitas. A esta figura fazem os indios muita festa por causa de sua formosura, gatimanhos e tregeitos que faz; em todas as suas festas mettem algum diabo, para ser delles bem celebrada.

Estas festas acabadas, os Índios Murubixaba (XVIII), sc. principaes, deram o Ereiupe (XIX) ao padre, que quer dizer Vieste? e beijando-lhe a mão recebiam a benção. As mulheres nuas (cousa para nós mui nova) com as mãos levantadas ao Céo, também davam seu Ereiupe, dizendo em portuguez, "louvado seja Jesus Christo". Assim de toda a aldêa fomos levados em procissão á igreja com danças e boa musica de frauta, com Te Deum laudamus. Feita oração lhes mandou o padre fazer uma falia na lingua, de que ficaram muito consolados e satisfeitos; aquella noite os Índios principaes, grandes línguas, pregavam da vida do padre a seu modo, que é da maneira seguinte: começavam pregar de madrugada deitados na rede por espaço de meia hora, depois se levantam, e correm toda a aldêa pé ante pé muito devagar, e o pregar também é pausado, freimatico, e vagaroso; repetem muitas vezes as palavras por gravidade, contam nestas pregações todos os trabalhos, tempestades, perigos de morte que o padre padeceria, vindo de tão longe para os visitar, e consolar, e juntamente os inicitam a louvar a Deus pela mercê recebida, e que tragam seus presentes ao padre, em agradecimento. Era para os ver vir com suas cousas, sc. patos, gallinhas, leitões, farinha, beijús com algumas raizes, e legumes da terra. Quando dão essas cousas commumente não dizem nada, mas botando-as aos pés do padre se tornam logo. Foi o padre delles visitado muitas vezes, agradecendo-lhes dava das cousas de Portugal, como facas, tesouras, pentes, fitas, gualterias, Agnus Dei em nominas de seda; mas o com que mais folgavam era com uma vez de cagui-été, se. vinho de Portugal.

Ao dia seguinte, dia da visitação de Santa Isabel, (3 de Julho), precedendo as confissões geraes, renovaram os padres e irmãos das aldêas seus votos, para que estavam alli juntos, e o padre visitador disse missa cantada com diacono, e sub-diacono, officiada em canto d’orgão pelos indios, com suas frautas. Dali fomos á aldêa de S. João (XX), duas léguas desta, onde houve semelhantes recebimentos e festas, com muita consolação dos indios e nossa.

É cousa de grande alegria ver os muitos rios caudaes e frescos bosques de altíssimos arvoredos, que todo o anno estão verdes e cheios de formosíssimos pássaros que em sua musica não dão muita avantagem aos canários, rouxinoes e pintasilgos de Portugal, antes !h’a levam na variedade e formosura de sua penna. Os indios caminham muito por terra, levando o padre sempre de galope, passando muitos rios e atoleiros, e tão depressa que os de cavallo os não podiam alcançar. Nunca entre elles ha desavença nem peleja sobre quem levou mais tempo ou menos, etc., mas em tudo são amigos e conformes. Outra cousa me espantou não pouco, e foi que saímos de casa algumas quarenta pessoas, sem cousa alguma de comer, nem dinheiro; porér onde quer que chegávamos, e a qualquer hora éramos agasalhados com toda a gente de todo o necessário de comer, carnes, pescados, mariscos, com tanta abundancia que não fazia falta a ribeira de Lisboa. Nem faltavam camas, porque as redes, que servem de cama, levávamos sempre comnosco, e este é cá o modo de peregrinar, sine pena, mas Nosso Senhor a todos sustenta nestes desertos com abundância.

Passados três mezes de visita depois da nossa chegada, aos 18 d’Agosto partimos para Pernambuco: se. o padre visitador, padre provincial, padre Rodrigo de Freitas, os irmãos Francisco Dias (XXI) e Barnabé Tello e outros padres e irmãos; e logo no dia seguinte com vento contrário, por mais não podermos, arribámos á Bahia. Tornando a partir o dia seguinte com o mesmo vento contrário, lançamos anchora em a barra do Camamú, terras do collegio da Bahia (que delia dista 18 léguas): aqui estivemos oito dias, esperando tempo e vendo aquellas terras. O Camamú são doze léguas de terra, por costa, e seis em quadra, para o sertão: tem uma barra de três léguas de bocca, com uma bahia e formosa enseada, que terá passante de quinze léguas, em roda e circuito; toda ella está cheia de ilhotes muito aprazíveis, cheios de muitos papagaios; dentro nelia entram três rios caudaes tamanhos ou maiores que o Mondego de Coimbra, afora muitas outras ribeiras, aonde ha águas para oito engenhos copeiros, e podem-se fazer outros rasteiros, e trapíches (XXII). As terras são muito boas; estão por cultivar, por serem enfestadas dos Guaimurés (XXIII), gentio silvestre, tão bárbaro que vivem com brutos animaes nos matos, sem povoação, nem casas: a enseada traz muitos pescados e peixes-bois: os iagostins, ostras e mariscos não têm conta: se estas terras foram povoadas bem poderam sustentar todos os collegios desta província e ainda fazer alguma caridades, maximé de assucar a esta província; mas como agora está, rende pouco ou nada. O governador Men de Sá fez doação destas terras ao collegio da Bahia (XXIV).

Do Camamú tornámos a tentar viagem, e não podendo, arribámos á capitania dos llhéos, donde temos casa, a qual o padre visitou por espaço de oito dias que esperamos tempo: da visita ficaram os nossos mui consolados e animados. Os portuguezes maiores visitaram por vezes o padre, com muitas mostras de amor e refazendo os bastimentos para a viagem, com gallinhas, patos, e farinhas e outras cousas, conforme á sua caridade e possibilidade.

Os llhéos distam da Bahia 30 léguas: é capitania do senhorio, se. de Francisco Giraldes (XXV): é villa intitulada de S. Jorge; terá 50 vizinhos com seu vigário; tem três engenhos de assucar: é terra abastada de mantimentos, criações de vaccas, porcos, gallinhas, e algodões: não tem aldêas de Índios, estão muito apertados dos Guaimurés, e com elles em contínua guerra: não se estendem pelo sertão adentre-mais de meia até uma légua, e pela costa, de cada parte, duas ou três léguas.

Os nossos têm aqui casa, aonde residem de ordinário seis; tem quatro cubículos de sobrado bem acommodados, igreja e off icinas; está situada em logar alto sobre o mar: tem sua cerca aprasivel, com coqueiros, laranjeiras, e outras arvores de espinho e fruetas da terra: as arvores de espinho são nesta terra tantas que os matos estão cheios de laranjeiras e limoeiros de toda sorte, e por mais que cortam não ha desinça-los.

Acabada a visita dos llhéos, tornámos a partir aos 21 de Setembro, dia do glorioso apóstolo S. Matheus: ao dia seguinte nos deitou o tempo em Porto Seguro. (E ainda que eram arribadas, tudo caía em proveito, porque visitava o padre de caminho estas casas, e o tempo contrario dava logar para tudo.) Fomos recebidos de um irmão com muita caridade, porque os outros três estavam na aldêa de S. Matheus com o Sr. Administrador (XXVI), que tinham ido á festa. Partimos logo para a mesma

aldêa visitar aquelles indios: passámos um rio caudal mui formoso egrande:caminhá-mos uma légua a pé, em romaria a uma nossa Senhora da Ajuda (XXVII), que antigamente fundou um padre nosso; e a mesma igreja foi da Companhia: e cavando junto delia o padre Vicente Rodrigues (XXVIII), irmão do padre Jorge Rijo (que é um santo velho, que dos primeiros que vieram com o padre Manuel da Nobrega, eile só é vivo) cavando como digo, junto da igreja, arrebentou uma fonte d’agua, que sae debaixo do altar da Senhora, e faz muitos milagres, ainda agora (XXIX): tem um retábulo da Annunciação de maravilhosa pintura e devotissima: o padre que edif icou a casa, que é um velho de setenta annos, vai lá todos os sabbados a pé dizer missa, e pregar a quasi toda a gente da villa, que alli costuma ir os sabbados em romaria, e para sua consolação lhe deu o padre licença que se enterrasse naquella igreja quando fallecesse; e bem creio que recolherá a Virgem um tal devoto e receberá sua alma no Séo, pois a tem tão bem servido. Chegámos á aldêa, que dista cinco léguas da villa, por caminho de uma alegre praia. Foi o padre recebido dos indios com uma dança mui graciosa de meninos todos empennados, com seus diademas na cabeça, e outros atavios das mesmas pennas, que os fazia mui lustrosos, e faziam suas mudanças, e invenções mui graciosas: da!li tornámos á villa, e vindo encalmados por uma praia, eis que desce de um alto monte uma india vestida como ellas costumam, com uma porcelana da índia, cheia de queijadinhas d’assucar, com um grande pucaro d’agua fria; dizendo que aquillo mandava seu senhor ao padre provincial Joseph (XXX). Tomámos o padre visitador e eu a salva, e o mais dissemos desse ao padre Joseph, que vinha de traz Com as abas na cinta, descalço, bem cançado: é este padre um santo de grande exemplo e oração, cheio de toda a perfeição, despresador de si e do mundo; uma columna grande desta província, e tem feito grande christandade e conservado grande exemplo: de ordinário anda a pé, nem ha retirá-lo de andar, sendo muito enfermo. Emfim, sua vida é verè apostólica.

Depois que o padre visitou a casa, ouvindo as confissões geraes com muita consolação de todos, e deixando os avisos necessários, partimos para outra aldêa de S. André (XXXI), dahi cinco léguas: está situada junto de um rio caudal, e da villa Santa Cruz, que foi o primeiro porto que tomou Pedr’Alvares Cabral no anno de mil e quinhentos, indo para a India; e por ser bom o porto, lhe chamou Porto Seguro (XXXII). No dia do Anjo preguei na matriz da villa: houve muitas confissões, e communhões, com extraordinária consolação do povo por haver dias que não ouviam missa, por estar seu vigário suspenso: dos moradores portuguezes e indios, fomos bem agasalha-dos, com grandes signaes de amor e abundância do necessário.

A Capitania de Porto Seguro é do Duque d’Aveiro (XXXIII): dista da Bahia 60 léguas: a villa está situada entre dois rios caudaes em um monte alto, mas tão chão, e largo que pudera ter uma grande cidade. A barra é perigosa, toda cheia de arrecifeí e terá quarenta vizinhos com seu vigário. Na misericórdia tem um crucifixo de estatura de um homem, o mais bem acabado proporcionado e devoto que vi e não se como a tal terra veio tão rica cousa. A gente é pobre, por estar a terra já gastada, e estão apertados dos Guaimurés: as vaccas lhe morrem por causa de certa herva, de que ha copia, e comendo-a, logo arrebentam. Tem um engenho de assucar; foi fértil de algodão e farinhas, mas também estas duas lhe vão já faltando, pelo que se despovoa a terra.

Aqui temos casa em que residem de ordinário quatro: tem igreja bem acommodada, e ornada; o sitio é mui largo com uma formosa cerca de todas as arvores d’espinhos, coqueiros, e outras da terra, hortaliça, etc. Toda a casa é aprasivel por estar edificada sobre o mar. Os padres têm a seu cargo duas aldêas de indios, que terão passante duzentas pessoas e visitam outras cinco ou seis, com muito perigo dos Guaimurés.

Junto a Porto Seguro quatro léguas, está a villa chamada Santa Cruz, situada sobre um formoso rio; terá quarenta vizinhos com seu vigário; é algum tanto mais abastada que Porto Seguro. De Santa Cruz partimos aos dois de Outubro com um camboeiro, que em um dia e noite nos deitou sessenta léguas, e tornando a calmar, corremos com nordeste franco toda a tarde para a Bahia, já determinados de não ir naquellas monções, que se iam acabando, a Pernambuco, e também porque se chegara o tempo da congregação, que se havia de começar a 8 de Dezembro.

Chegados á Bahia, vendo o padre visitador que todo aquelle anno e o seguinte; até Junho não podíamos ir a Pernambuco, começou de tratar mais de propósito dos negócios de toda a província, tomando mais noticia das pessoas delia, e das mais cousas que nella ocorrem. Occupou-se muito tempo com os padres Ignacio Toiosa (XXXIV), Quiricio Caxa (XXXV), Luiz da Fonseca (XXXVI), e outros padres superiores e theologos, em concluir algumas duvidas de casos de consciência; e fez fazer um compêndio das principaes duvidas que por cá occorrem, principalmente nos casamentos e baptismos dos índios e escravos de Guiné, de que se seguiu grande fructo; e os padres ficaram com maior luz para se poderem haver em semelhantes casos. Fez também compilar os privilégios da Companhia, declarando os que estavam mal entendidos, e fez que os confessores tivessem a parte distincta dos que lhes pertencem, para que entendessem os poderes que têm. E tudo se seguiu muito fructo: glória ao Senhor.

Chegado o tempo da congregação, se começou a 8 de Dezembro estando presente o padre provincial com os professores de quatro votos que estavam no collegio, que eram somente quatro, e o superior dos llhéos, com o padre Antonio Gomes (XXXVII), procurador da província, porque aos mais não chegaram as cartas a tempo, nem poderam vir por falta das monções e embarcações. Foi eleito o padre Antônio Gomes por procurador.

No tempo da congregação se recolheu o padre visitador em Nossa Senhora da Escada, (XXXVIII) ermida do collegio, que dista duas léguas da cidade. Acabada a congregação por ordem do padre visitador por reitor do collegio do Rio de Janeiro o padre Ignacio de Toiosa com três padres e alguns irmãos; foram bem acommoda-dos em nosso navio. Também deu profissão de quatro votos ao padre Luiz da Fonseca, companheiro do padre provincial, e quatro padres coadjutores espirituaes, e três irmãos temporaes, entre os quaes entrou o irmão Barnabé Tello. Eu fiquei uns quinze dias com o cuidado dos noviços em lugar do padre Tolosa, em quanto não vinha de uma missão o padre Vicente Gonçalves, (XXXIX) que lhe havia de succeder.

Tivemos pelo natal um devoto presépio na povoação, aonde algumas vezes nos ajuntavamos com boa e devota musica, e o irmão Barnabé nos alegrava com seu berimbau. Dia de Jesus, precedendo as confissões geraes, que quasi todos fizeram com o padre visitador, se renovaram os votos: pregou em nossa igreja o Sr. Bispo: tinha o padre visitador já neste tempo aviado de sua parte o padre Antônio Gomes de todos papeis, cartas e avisos necessários, para tratar em Roma e em Portugal; pelo que determinou visitar a segunda vez as aldèas dos indios mais devagar.

Aos 3 de Janeiro partimos o padre visitador, padre provincial e outros padres e irmãos. Fomos aquella noite agazalhados em casa de um sacerdote devoto da Companhia, que depois entrou nella (XL). Fomos servidos de várias iguarias com todo bom serviço de porcelanas da índia e prata, e o mesmo sacerdote servia a mesa com grande diligencia e caridade. Todo o dia seguinte estivemos em sua casa, e á tarde nos levou a um rio caudal que estava perto, mui alegre e fresco, e para que a água, ainda que era fria e bôa, não fizesse mal, mandou levar várias cousas doces tão bem feitas, que pareciam da Ilha da Madeira. Ao dia seguinte depois da missa nos acompanhou até á aldêa, e no caminho junto da cachoeira de outro formoso rio, nos deu um jantar com o mesmo concerto e limpeza, acompanhado de várias iguarias de aves, e caças. Em quanto comemos os indios pescaram alguns peixes: eram tão destros nisto que em chegando a um rio suados, logo se deitam a nadar e lavar, tiram das linhas, tomam peixes, fazem fogo, e se põem a assar e comer; e tudo com tanta presteza, que é cousa d’espanto. Também os frautistas nos alegraram, que alli vieram receber o padre. Junto da aldêa do Espirito Santo nos esperavam os padres que delia têm cuidado, debaixo de uma fresca ramada, que tinha uma fonte portátil, que por fazer calma, além de bôa graça, refrescava o lugar. Debaixo da ramada se representou pelos indios um dialogo pastoril, em lingua brasilica, portugueza e castelhana, e têm elles muita graça em fatiar línguas peregrinas, maximé a castelhana. Houve bôa musica de vozes frautas, danças e d’alli em procissão fomos até á igreja, com várias invenções; e feita oração lhes deitou o padre visitador sua benção, com que lhes cuidam que ficam santificados, pelo muito que estimão uma benção do Abaré-guaçú (XLI).

Dia dos Reis (6 de Janeiro de 84) renovaram os votos alguns irmãos. O padre visitador antes da missa revestido em capa d’asperges de damasco branco com diacono e subdiacono vestidos do mesmo damasco, baptisou alguns trinta adultos. Em todo o tempo do baptismo houve bôa musica e motetes, e de quando em quando se tocavam as frautas. Depois disse missa solerhne com diacono e subdiacono, officiada em canto d’orgão pelos indios, com suas frautas, cravo e descante: cantou na missa um mancebo estudante alguns salmos e motetes, com extraordinária devoção.

O padre na mesma missa casou alguns em lei da graça, precedendo na mesma missa os banhos; deu a communhão a cento e oitenta indios e indias, dos quaes vinte e quatro, por ser a primeira vez, commungaram á primeira mesa, com capella de flores na cabeça; depois da communhão lhes deitou o padre ao pescoço algumas veronicas e nominas com Agnus Dei de várias sedas, com seus cordões e fitas, de que todos ficaram mui consolados. Um destes era um grande principal por nome Men de Sá (XLII) que havia vinte annos que era christão; foi tanta a consolação, que teve de ter commungado, que não cabia de alegria. Todo o dia trouxe a capella na cabeça e a guardou, dizendo que a havia de ter guardada até morrer, para se lembrar da mercê que Nosso Senhor lhe fizera em o chegar a poder commungar.

É muito para ver e louvar Nosso Senhor a grande devoção de fervor, que se vê nestes Índios, quando hão de commungar; porque os homens quasi todos se disciplinam á noite antes por espaço de um Miserere, precedendo ladainha e sua exhortação espiritual na lingua: dão em si cruelmente; nem têm necessidade de esperar pela noite, porque muitos por sua devoção, acabando-se de confessar ainda que seja de dia, se disciplinam na igreja, diante de todos, e quasi todos tem disciplina, que sabem fazer muito boas.

As mulheres por sua devoção jejuam dois ou três dias antes, e todos ao commungar têm muita devoção, e choram alguns muitas lagrimas: confessam-se de cousa mui miúdas, e ao dia da communhão se tornam a reconciliar, por levíssima que seja a matéria da absolvição. Se lhes dizem que não é nada, que vão commungar, respondem: pai, como hei de commungar sem me absolveres?

No meio da missa houve pregação na lingua, e depois procissão solemne com danças e outras invenções. O padre visitador levava o Santíssimo Sacramento em uma custodia de prata debaixo do pallio, e as varas levavam alguns principaes, e levam-nas tão attento propósito, e vão tão devotos ou pasmados, que é para vêr.Tive grande consolação em confessar muitos Índios e Índias, por interprete (XLIII); são candi-dissimos, e vivem com muito menos peccados que os portuguezes. Dava-lhes sua penitencia leve, porque não são capazes de mais, e depois da absolvição lhes dizia, na lingua: xê rair tupã toçô de hirunamo (XLIV) sc. — filho, Deus vá comtigo.

Acabada a festa espiritual lhes mandou o padre visitador fazer outra corporal, dando-lhes um jantar a todos os da aldêa, debaixo de uma grande ramada. Os homens comiam a uma parte, as mulheres a outra: no jantar se gastou uma vacca, alguns porcos mansos e do mato, com outras caças, muitos legumes, fruetas, e vinhos feitos de várias fruetas, a seu modo. Emquanto comiam, lhes tangiam tambores, e gaitas. A festa para elles foi grande, pelo que determinaram á tarde alegrar o padre, jogando as laranjadas, fazendo motins e suíças de guerra a seu modo, e á portugueza. Quando estes fazem estes motins, andam muitos juntos em um corpo como magote com seus arcos nas mãos, e molhos de frechas levantadas para cima; alguns se pintam, e empenam de várias cores. As mulheres os acompanham, e os mais delles nús, e juntos andam correndo toda a povoação, dando grandes urros, e juntamente vão bailando, e cantando ao som de um cabaço cheio de pedrinhas (como os pandeirinhos dos meninos em Portugal (XLV) ). Vão tão serenos e por tal compasso que não erram ponto com os pés, e calcam o chão de maneira que fazem tremer a terra. Andam tão inflammados em braveza, e mostram tanta ferocidade, que é cousa medonha e espantosa. As mulheres e meninos também os ajudam nestes bailos e cantos; fazem seus trocados e mudanças com tantos gatimanhos e tregeitos, que é cousa ridícula. De ordinário não se bolem de um lugar, mas estando quedos em roda, fazem os me-neios com o corpo, mãos e pés. Não se lhes entende o que cantam, mas disseram-me os padres que cantavam em trova quantas façanhas e mortes tinham feito seus antepassados. Arremedam pássaros, cobras, e outros animaes, tudo trovado por comparações, para se incitarem a pelejar. Estas trovas fazem de repente, e as mulheres são insignes trovadoras. Também quando fazem este motim tiram um e um a terreiro, e ambos se ensaiam até que algum cansa, e logo lhe vem outro acudir. Algumas vezes procuram de vir a braços e amarrar o contrario, e tudo isto fazem para se embravecer. Emfim por milagre tenho a domar-se gente tão fera; mas tudo pôde um zeloso e humilde, cheio de amor de Deus, e das almas, etc.

Moravam os índios antes de sua conversão, em aldêas, em umas ocas (XLVI) ou casas mui compridas, de duzentos, trezentos, ou quatrocentos palmos, e cincoenta em largo, pouco mais ou menos fundadas sobre grandes esteios de madeiras, com as paredes de palha ou de taipa de mão, cobertas de pindoba, que é certo gênero de palma que veda bem água, e dura três ou quatro annos. Cada casa destas tem dois ou três buracos sem portas nem fecho: dentro neilas vivem logo cento ou duzentas pessoas, cada casal em eu rancho, sem repartimento nenhum, e moram duma parte e outra, ficando grande largura pelo meio, e todos ficam como em communidade, e entrando na casa se vê quanto nella está, por que estão todos á vista uns dos outros, sem repartimento nem divisão. E como a gente é muita, costumam ter fogo de dia e noite, verão e inverno, porque o fogo é sua roupa, e elles são mui coitados sem fogo. Parece a casa um inferno ou labyrintho, uns cantam, outros choram, outros comem, outros fazem farinha e vinhos, etc. e toda a casa arde em fogos; porem é tanta a conformidade entre elles, que em todo o anno não ha uma peleja, e com não terem nada fechado não ha furtos; se fora outra qualquer nação, não poderiam viver da marfeira que vivem sem muitos queixumes, desgostos, e ainda mortes, o que se não acha entre elles. Este costume das casas guardam também agora depois de christãos. Em cada oca destas ha sempre um principal a que têm alguma maneira de obediência (ainda que haja outros mais somenos). Este exhorta a fazerem suas roças e mais serviços, etc, excita-os á guerra; e lhe têm em tudo respeito; faz-lhes estas exhortações por modo de pregação, começa de madrugada deitado na rede por espaço de meia hora, em amanhecendo se levanta, e corre toda a aldêa continuando sua pregação, a qual faz em voz alta, mui pausada, repetindo muitas vezes as palavras. Entre estes seus principaes ou pregadores, ha alguns velhos antigos de grande nome e autoridade entre elles, que têm fama por todo o sertão, trezentas e quatrocentas léguas, e mais. Estimam tanto um bom lingua que lhe chamam o senhor da falia. E sua mão tem a morte e a vida, e os levará por onde quizer sem contradição. Quando querem experimentar um e saber se é grande lingua, ajuntam-se muitos para ver se o podem cançar, fallando toda a noite em peso com elle, e ás vezes dois, três dias, sem se enfadarem.

Estes principaes, quando o padre visitador chegava, pregavam a seu modo dos trabalhos que o padre padeceu no caminho, passando as ondas do mar, e vindo de tão longe, exposto a tantos perigos para os consolar, incitando a todos que se alegrassem com tanto bem, e lhe trouxessem suas cousas. Dos principaes foi visitado muitas vezes, vindo todos juntos, per modum universi com suas varas de meirinhos nas mãos, que estimam em muito, porque depois de christão se dão estas varas aos principaes, para os honrar e se parecerem com os brancos. Esta é toda a sua honra secular.

É cousa não somente nova, mas de grande espanto, ver o modo que têm em agasalhar os hospedes, os quaes agasalham chorando por um modo estranho, e a cousa passa desta maneira. Entrando-lhe algum amigo, parente ou parenta pela porta, se é homem logo se vai deitar em uma rede sem faltar palavras, as parentas também sem faIlar o cercam, deitando-lhe os cabellos sobre o rosto, e os braços ao pescoço, lhe tocam com a mão em alguma parte do seu corpo, com joelhos, hombro, pescoço, etc. Estando deste modo tendo-o no meio cercado, começam de lhe fazer a festa (que é a maior e de maior honra que lhe podem fazer): choram tantas lagrimas a seus pés, correndo-lhe em fio, como se lhe morrera o marido, mãi ou pai; e juntamente diz em trova de repente todos os trabalhos que no caminho poderia padecer tal hospede, e o que ellas padeceram em sua ausência. Nada se lhe entende mais que uns gemidos mui sentidos. E se o hospede é algum principal, também lhe conta os trabalhos que padeceu, e se é mulher chora da mesma maneira que as que a recebem. Neste tempo do triste ou alegre recebimento, a maior injuria que lhes podem fazer é dizer-lhes que se calem, ou que basta com estes choros. Não havia quem se ouvisse nas aldêas quando chegávamos. Acabada a festa e recebimentos alimpam as lagrimas com as mãos e cabellos, ficando tão alegres e serenas como que se nunca choraram, e depois se saúdam com o seu Ereiupe e comem (XLVII), etc.

Para os mortos têm outro choro e tom particular, os quaes choram dias e noites inteiras com abundância de lagrimas, mas tornando á festa dos hospedes, quando chegávamos, ou se fazia alguma festa, se punham a chorar, dizendo em trova muitas lastimas, de como seus parentes e antepassados não ouviram os padres nem sua doutrina.

Os pais não têm cousa que mais amem, que os filhos, e quem a seus filhos faz algum bem tem dos pais quanto quer. As mais os trazem em uns pedaços de redes, a que chamam typoia (XLVIII). De ordinário os trazem ás costas ou na ilharga escan-chados, e com elles andam por onde quer que vão, com elles ás costas trabalham, por calmas, chuvas e frio. Nenhum gênero de castigo têm para os filhos; nem ha pai nem mãi que em toda a vida castigue nem toque em filho, tanto os trazem nos olhos. Em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mais, e todos muito amáveis e aprazíveis; têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muita mais festa e alegria que os meninos portuguezes. Nestes jogos arremedam vários pássaros, cobras, e outros animaes, etc, os jogos são mui graciosos, e desenfadadiços, nem ha entre elles desavença, nem queixumes, pelejas, nem se ouvem pulhas, ou nomes ruins, edeshonestos. Todos trazem seus arcos e frechas, e não lhes escapa passarinho, nem peixe n’agua, que não frechem, pescam bem a linhas, e são pacientíssimos em esperar, donde vem em homens a ser grandes pescadores e caçadores, nem ha mato nem rio que não saibam e revolvam, e por serem grandes nadadores não temem água nem ondas nem mares. Ha indio que com uma braga ou grilhões nos pés nada duas e três léguas. Andando caminho, suados, se botam aos rios: os homens, mulheres e meninos, em se levantando se vão lavar e nadar aos rios, por mais frio que faça; as mulheres nadam e remam como homens, e quando parem algumas se vão lavar aos rios.

Tornando á viagem, partimos da aldêa do Espirito Santo para a de Santo Antônio, passámos alguns rios caudaes em jangadas, fomos jantar em uma fazenda do collegio, onde um irmão além de outras muitas cousas tinha muito leite, requeijões e natas que faziam esquecer Alemtejo. Comemos debaixo de um acajueiro muito fresco, carregado de acajús, que são como peros repinaldos ou camoezes, são uns amarellos, outros vermelhos, têm uma castanha no olho, que nasce primeiro que o pêro, da qual procede o pero; é fructa gostosa, bôa para tempo de calma, e toda se desfaz em sumo, o qual põe nodoas em roupa de linho ou algodão que nunca se tira. Das castanhas se fazem maçapães, e outras cousas doces, como de amêndoas; as castanhas são melhores que as de Portugal; a arvore é fresca, parece-se com os castanheiros, perde a folha de todo, cousa rara no Brasil, porque todo o anno as arvores estão tão verdes e frescas como as de Portugal na primavera.

Aquella noite fomos ter á casa de um homem rico que esperava o padre visita-dor (XLIX):é nesta Bahia o segundo em riquezas por ter sete ou oito léguas de terra por costa, em a qual se acha o melhor âmbar que por cá ha, e só em um anno colheu oito mil cruzados delle, sem lhe custar nada. Tem tanto gado que lhe não sabe o numero, e só do bravo e perdido sustentou as armadas d’EI-rei. Agasalhou o padre em sua casa armada de guadamecins com uma rica cama, deu-nos sempre de comer aves, perus, manjar branco, etc. Elle mesmo, desbarretado, servia a mesa e nos ajudava á missa, em uma sua capella, a mais formosa que ha no Brasil, feita toda de estuque e timtim de obra maravilhosa de molduras, laçarias, e cornijas; é de abobada sextavada com três portas, e tem-na mui bem provida de ornamentos. Nesta e outras ermi-das me lembrava de Vossa Reverencia, e de todos dessa província.

Daqui partimos para a aldêa, atravessando pelo sertão, caminhámos toda a tarde por uns mangabaes que se parecem alguma cousa com maceiras d’anafega. Dão umas mangabas amarellas do tamanho e feição de albricoques, com muitas pintas pardas que lhes dão muita graça; não têm caroço, mas umas pevides mui brandas que também se comem; a fructa é de maravilhoso gosto, tão leve e sadia que, por mais que uma pessoa coma, não ha fartar-se, sorvem-se como sorvas, não amadurecem na arvore, mas. cahindo amadurecem no chão ou pondo-as em madureiros: dão no anno duas camadas, a primeira se diz de botão, e dá flor, mas o mesmo botão é a fructa. Estas são as melhores e maiores, e vêm pelo natal; a segunda camada é de flor alva como neve, da própria maneira que a de jasmim, assim na feição, tamanho, e cheiro. Estas arvores dão-se nos campos, e com se queimarem cada anno as mais dellas dão no mesmo anno fructo. De quando em quando nos ajudávamos dellas para passar aquelles matos. Aquela noite nos agasalhou um feitor do mesmo homem de que acima fallei, a quem elle tinha mandado recado,. Fomos providos de todo o necessário com toda a limpeza de porcelanas e prata, com grande caridade.

Ao dia seguinte ás dez horas pouco maré ou menos, chegámos á aldêa de Santo Antônio: dos Índios fomos recebidos com muitas festas a seu modo, que deixo por brevidade, e ao domingo seguinte baptisou o padre visitador antes da missa sessenta adultos, vestido de pontificai, com grande alegria e festa, e consolação de todos. Na missa, que foi de canto d’orgão, casou a muitos em lei de graça, e deu a communhão a 80; e tudo se fez com as mesmas festas e musica que na aldêa do Espirito Santo. Á tarde lhes mandou dar o padre um bom jantar em que se gastou uma vacca, muitos porcos do mato, que elles mesmo traziam mortos e os deitavam aos pés do padre (têm estes porcos o umbigo nas costas, e em algumas cousas dífferem dos de Portugal). Havia mesa em que por banda caibam cem pessoas: os indíos á tarde, para fazerem festa ao padre jogaram as laranjas, fizeram as laranjadas, fizeram os seus motins de guerra, e foram a um rio dar tinguf, se. barbasco ao peixe, e ficaram bem providos, trouxeram tantos ao padre, que encheram duas grandes gamellas, que era uma formosura de vêr. Ao dia seguinte levou o padre visitador todos os padres e irmãos a um rio caudal que estava perto de casa, aonde ceámos. Iam comnosco alguns sessenta meninos nusinhos, como costumam. Pelo caminho fizeram grande festa ao padre, umas vezes o cercavam, outra o captivavam, outras arremedavam pássaros muito ao natural; no rio fizeram muitos jogos ainda mais graciosos, e têm elles n’agua muita graça em qualquer cousa que fazem. Estas cousas de ordinário faziam de si mesmos, que não é tão pouco em brasis e meninos achar-se habilidade para saberem festejar e agasalhar o Payguaçú. (L)

Desta aldêa fomos á de S. João, dali sete léguas, tornando a dar volta para o mar. É caminho de grandes campos e desertos; antes da aldêa uma grande légua vieram os indios principaes, os quaes revesando-se levaram o padre em uma rede, e pelo caminho ser já breve, a cada passo se revesavam para que não ficasse algum deites sem levar o padre, e não cabiam de contentes tendo aquillo por grande honra e favor. Fomos recebidos com muitas festas, etc. Ao domingo seguinte baptisou o padre 30 adultos, casou na missa outros tantos em ação de graça e deu a communhao a 120. Houve missa cantada, pregação com muita solemnidade, e depois das festas espirítuaes tiveram outro jantar como os passados, e toda a tarde gastaram em suas festas.

Em quanto aqui estivemos fomos bem servidos de aves, rolas e faisões, que têm três titelas uma sobre a outra, é carne gostosa semelhante á de perdiz, mas mais sadia.

Em todas estas três aldêas ha escola de ler e escrever, aonde os padres ensinam os meninos indios; e alguns mais hábeis também ensinam a contar, cantar e tanger; tudo tomam bem, e ha já muitos que tangem frautas, violas, cravos, e officiam mis-sasí em canto d’orgão, cousas que os pais estimam muito. Estes meninos faliam por-tuguez, cantam á noite a doutrina pelas ruas, e encommendam as almas do purgatório.

Nas mesmas aldêas ha confrarias do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora, e dos defuntos. Os mordomos são os principaes e mais virtuosos; têm sua mesa na igreja com seu panno, e elles trazem suas opas de baeta ou outro panno vermelho, branco e azul; servem de visitar os enfermos, ajudar a enterrar os mortos, e ás missas, levando a seus tempos os cirios acesos, o que fazem com modesta devoção e muito a ponto; dão esmolas para as confrarias, as quaes têm bem providas de cera, e os altares ornados com frontaes de várias sedas; em suas festas enramam as igrejas com muita diligencia e fervor, e certo que consola ver esta nova christandade.

Todos os das aldêas, grandes e pequenos, ouvem missa muito cedo cada dia antes de irem a seus serviços, e antes ou depois da missa lhes esinam as orações em portuguez e na lingua, e á tarde são instruídos no dialogo da fé, confissão e com-munhão. Alguns assim homens como mulheres, mais ladinos, resam o rosário de Nossa Senhora; confessam-se a miudo; honram-se muito de chegarem a commungar, e por isso fazem extremos, até deixar seus vinhos a que são muito dados, e é a obra mais heróica que podem fazer; quando os incitam a fazer algum peccado de vingança ou deshonestidade, etc. respondem que são de communhão, que não hão de fazer a tal cousa. Enxergam-se entre elles os que commungam no exemplo de bôa vida, modéstia e continuação das doutrinas; têm extraordinário amor, credito e respeito aos padres, e nada fazem sem seu conselho, e assim pedem licença para qualquer cousa_por pequena que seja, como se fossem noviços. E até aos do sertão dahi duzentas, trezentas e mais léguas, chega a fama dos padres e igrejas, e se não fossem estorvos, todo o sertão se viria para as igrejas, porque os que trazem os portuguezes todos vêm com promessa e titulo que os porão nas igrejas dos padres, mas em chegando ao mar nada se lhes cumpre.

Três festas celebram estes Índios com grande alegria, applauso e gosto particular. A primeira é as fogueiras de S. João, porque suas aldêas ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro. A segunda é a festa de ramos, porque é cousa para vêr, as palavras, flores e boninas que buscam, a festa com que os têm nas mãos ao officio, e procuram que lhes caia água benta nos ramos. A terceira que mais que todas festejam, é dia de cinza, porque de ordinário nenhum falta, e do cabo do mundo vêm á cinza, e folgam que lhes ponham grande cruz na testa, e se acontece o padre não ir ás aldêas, por não ficarem sem cinza elles a dão uns aos outros, como aconteceu a uma velha que, faltando o padre, convocou toda a aldêa á igreja e lhes deu a cinza, dizendo que assim faziam os Aharés, sc. padres, e que não haviam de ficar em tal solemnidade sem cinza.

Visitadas as aldêas, determinou o padre vêr algumas fazendas e engenhos dos portuguezes, visitando os senhores dellas, por alguns lhe terem pedido, e outros porque os não tinha ainda visto, e era necessário conciliar os ânimos d’alguns com a Companhia, por não estarem muito benevolos. Partimos de S. João para o mar: era para vêr neste caminho a multidão, variedade e formosura das flores das arvores umas amarellas, outras vermelhas, outras roxas, com outras muitas várias cores misturadas, que era cousa para louvar o Creador. Vi neste caminho uma arvore carregada de ninhos de passarinho (LI), pendentes de seus fios de comprimento de uma vara de medir ou mais, que ficavam todos no ar com as boccas para baixo. Tudo isto fazem os pássaros para não ficar frustrado seu trabalho, usam daquella industria que lhes ensinou o que os criou, para se não fiarem das cobras, que lhes comem os ovos e filhos.

Folgara de saber descrever a formosura de toda esta Bahia e recôncavo, as enseadas e esteiros que o mar bota três, quatro léguas pela terra dentro, os muito frescos e grandes rios caudaes que a terra deita ao mar, todos cheios de muita fartura de pescados, lagostins, polvos, ostras de muitas castas, caranguejos e outros mariscos.

Sempre fizemos caminho por mar em um barco da casa bem equipado, e quasi não ficou rio nem esteiro que não víssemos, com as mais e maiores fazendas, e engenhos, que são muito para ver. Grandes foram as honras e agasalhados, que todos fizeram ao padre visitador, procurando cada um de se esmerar não somente nas mostras d’amor, grande respeito e reverencia, que no tratamento e conversão lhe mostravam, mas muito mais nos grandes gastos das iguarias, da limpeza e concerto do serviço, nas ricas camas e leitos de seda (que o padre não aceitava, porque trazia uma rede que serve de cama, e cousa costumada na terra). Os que menos faziam, e se tinham por não muito devotos da Companhia, faziam mais agasalhados do que costumam fazer em Portugal os muito nossos amigos e intrínsecos; cousa que não somente nos edificava, mas também espantava vêr o muito credito que por cá se tem á Companhia.

0 padre Quiricio Caxa e eu pregávamos algumas vezes em as ermidas, que quasi todos os senhores de engenhos têm em suas fazendas, e alguns sustentam ca-pellão á sua custa, dando-lhes quarenta ou cincoenta mil réis cada anno, e de comer á sua mesa. E as capellas têm bem concertadas, e providas de bons ornamentos: não somente.os dias da pregação, mas também em outros nos importunavam que dissemos missa cedo, para exercitarem sua caridade, em nos fazer almoçar ovos reaes e outros mimos que nesta terra fazem muito bons, nem faltava vinho de Portugal. Confessávamos os portuguezes, ouvindo confissões geraes, e outras de muito serviço de Nosso Senhor. Os dias de pregação e festas de ordinário havia muitas confissões e com-munhões, e por todas chegariam a duzentas, afora as que fazia um padre, língua de escravos de Guiné, e de índios da terra, prégando-lhes e ensinando-lhes a doutrina, casando-os,baptisando-os, e em tudo se colheu copioso fructo, com grande edificação de todos. Nem se contentavam estes senhores de agasalhar o padre, mas também lhe davam bogios, papagaios, e outros bichos e aves que tinham em estima, e lhe mandavam depois á casa muitas e várias conservas, com cartas de muito amor, e quando vinham á cidade, o visitavam amiúde, dando os devidos agradecimentos pela consolação e visita que o padre lhes fizera.

Os engenhos deste recôncavo são trinta e seis (Lll); quasi todos vimos, com outras muitas fazendas muito para vêr. De uma cousa me maravilhei nesta jornada, e foi a grande facilidade que têm em agasalhar os hospedes, porque a qualquer hora da noite ou dia que chegávamos em brevíssimo espaço nos davam de comer a cinco da Companhia (afora os moços) todas as variedades de carnes, gallinhas, perus, patos, leitões, cabritos, e outras castas e tudo têm de sua criação, com todo o genero de pescado e mariscos de toda sorte, dos quaes sempre têm a casa cheia, por terem deputados certos escravos pescadores para isso, e de tudo têm a casa tão cheia que na fartura parecem uns condes, e gastam muito. Tornando aos engenhos cada um delles é uma machina e fabrica incrível: uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quaes moem mais e com menos gastos; outros não são d’agua, mas moem com bois, e chamam-se trapiches; estes têm muito maior fabrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo o tempo do anno, o que não têm os d’agua, porque ás vezes lhes falta. Em cada um delles, de ordinário ha seis, oito e mais fogos de brancos, e ao menos sessenta escravos, que se requerem para o serviço ordinário; mas os mais delles têm cento, e duzentos escravos de Guiné e da terra. Os trapiches requerem sessenta bois, os quaes moem de doze em doze revezados; começa-se de ordinário a tarefa á meia noite, e acaba-se ao dia seguinte ás três ou quatro horas depois do meio dia. Em cada tarefa se gasta uma barcada de lenha que tem doze carradas, e deita sessenta e setenta fôrmas de assucar branco, mascavado, maio e alto. Cada fôrma tem pouco mais de meia arroba, ainda que em Pernambuco se usam já grandes de arroba. O serviço é insoffrivel, sempre os serventes andam correndo, e por isso morrem muitos escravos, que éo que os endivida sobre todo este gasto. Tem necessidade cada engenho de feitor, carpinteiro, ferreiro, mestre de assucar com outros officiaes que servem de o purificar; os mestres de assucares são os senhores de engenhos, porque em sua mão está o rendimento e ter o engenho fama, pelo que são tratados com muitos mi mos, e os senhores lhes dão mesa, e cem mil réis, e outros mais, cada anno. Ainda que estes gastos são mui grandes, os rendimentos não são menores, antes mui avantajados, porque um engenho lavra no anno quatro ou cinco mil arrobas, que pelo menos valem em Pernambuco cinco mil cruzados, e postas no Reino por conta dos mesmos senhores dos engenhos (que não pagam direitos por dez annos do assucar que mandam por sua conta, e estes dez acabados não pagam mais que meios direitos) valem três em dobro. Os encargos de consciência são muitos, os peccados que se commetem nelles não têm conta; quasi todos andam amancebados por causa das muitas occasiões; bem cheio de peccados vai esse doce, porque tanto fazem: grande é a paciência de Deus, que tanto soffre.

Gastámos nesta missão Janeiro e parte de Fevereiro, e a segunda-feira depois do primeiro domingo da quaresma (20 de Fevereiro de 1584) chegámos á casa, não somente recreados, mas também mui consolados com o fructo que se colheu. Logo se distribuíram as pregações, se. o padre Quiricio Caxa dos domingos pela manhã em nossa igreja; o padre Manuel de Castro (LIII) á tarde; estes dous padres e o padre Manuel de Barros, são os melhores pregadores que ha nesta província. Eu preguei os domingos pela manhã na Sé, aonde se achava a maior parte da cidade. Das pregações de todos se seguiu grande fructo, seja Nosso Senhor com tudo louvado.

Muitas missões se fizeram por ordem do padre visitador nestes dois annos pelos engenhos e fazendas dos portuguezes; nellas se colheu copioso fructo e se baptisaram passante de três mil almas, e se casaram muitos em lei de graça, tirando-os de amancebamentos, ensinando-lhes a doutrina, pondo os discordes em paz, e se fizeram outros muitos serviços a Nosso Senhor. Quando os nossos padres vão a estas missões são mui bem recebidos de todos, bem providos do necessário, com grande amor e caridade.

Tornando á quaresma em nossa casa tivemos um devoto e rico sepulchro. A paixão foi também devota que concorreu toda a terra; os officios divinos se fizeram em casa com devoção. Sexta-feira Santa (30 de Março) ao desencerrar do Senhor, certos mancebos vieram á nossa igreja; traziam uma verônica de Christo mui devota, em panno de linho pintado, dous delles a tinham e juntamente com outros dous se disciplinavam, fazendo seus trocados e mudanças. E com a dança se fazia ao som de cruéis açoutes, mostrando a verônica ensaguentada, não havia quem tivesse as lagrimas com tal espectaculo, pelo que foi notável a devoção que houve na gente.

O padre visitador teve as endoenças na aldeia do Espirito Santo, aonde os índios tiveram um formoso e bem acabado sepulchro, de todas as columnas, cornijas, fron-tispicios de obra de papel, assentada sobre madeira tão delicada e de tão maravilhosa feitura, que não havia mais que pedir, por haver alli um irmão insigne em cortar, e para sepulchros tem grande mão e graça particular. Tiveram mandato em portuguez por haver muitos brancos que alli se acharam, e paixão na lingua, que causou muita devoção e lagrimas .nos indios. A procissão foi devotissima com muitos fachos e fogos , disciplinando-se a maior parte dos indios, que dão em si cruelmente, e têm isto não somente por virtude, mas também por valentia, tirarem sangue de si, e serem abaetê (LIV), se. valentes. Levaram na procissão muitas bandeiras que um irmão, bom pintor, lhes fez para aquelle dia, em panno, de boas tintas, e devotas. Um principal velho levava um devoto crucifixo debaixo do pallio. O padre visitador lhes fez todo os officios que se officiaram a vozes com seus bradados. Ao dia da Ressurreição (1 de Abril)" se fez uma procissão por ruas de arvoredos muito frescos, com muitos fogos, danças, e outras festas. Esquecia-me dizer que os lavatorios cheirosos e pós de murtinhos com que se curam estes indios, quando se disciplinam, são irem-se logo metter e lavar no mar ou rios, e com isto saram e não morrem.

Aos 3 de Maio, dia da invenção da Cruz, houve jubilêu plenário em nossa casa, missa de canto d’orgão, officiada pelos indios e outros cantores da Sé, com frautas e outros instrumentos músicos. Préguei-lhes da Cruz, por terem aqui uma relíquia do Santo Lenho em uma cruz de prata dourada,quefoi de uma dasfreirasde Allemanha, a qual a imperatriz deu para este collegio, com licença do Summo Pontífice. Com-mungaram passante de trezentas pessoas, e tudo se fez com muita festa e devoção.

Tinha o padre visitador dado ordem para se fazer um relicario para todas as relíquias que estavam mal acommodadas. Estava já neste tempo acabado. É grande, tem dezeseis armários com suas portas de vidraças, e no meio um grande, para a imagem de Nossa Senhora de S. Lucas; os armários são todos forrados dentro de setim carmesim, as portas da banda de dentro são forradas de sedas de várias cores, se. damasco, veludo, setim, etc. a madeira é de páu de cheiro de Jacarandá, e outras madeiras de preço, de várias cores, de tal obra que se avaliou somente das mãos, em cem cruzados. Fê-lo um irmão da casa, insigne official. Está assentado na capella dos irmãos, que é uma casa grande, nova, de pedra e cal, bem guarnecida, forrada de cedro. Ao dia da Cruz á tarde, se fez uma célebre translação da igreja para a dita capella. Foi o padre visitador á igreja com sua capa d’asperges, e outros dous padres com capas: os mais, que eram por todos dezoito, revestidos em alvas e sobrepelizes. Levava o padre debaixo do pallio o Santo Lenho, seis padres as varas, dois a imagem de Nossa Senhora, que também ficava debaixo do pallio; três, as três cabeças das Onze mil virgens e outras relíquias; os mais levavam suas velas de cera branca nas mãos, e seguia-se a cruz de prata, e turibulo. Começando a procissão a entrar pela sachristia, a gente arrombou a grade, e entrando os homens somente acompanharam as relíquias, porque não soffriam bem participarmos sem elles de tamanha alegria e consolação. A capella e corredores estavam mui ornados de várias sedas, alcatifas, guadamecins, palmas com outros ramos frescos. Na procissão houve bôa musica de vozes, frautas e órgãos. Em alguns passos estavam certos estudantes, com seus des-cantes e cravos, a que diziam psalmos, e alguns motetes, e também recitaram epigra-mas ás santas relíquias. Com esta solemnidade e devoção, chegámos á capella, aonde houve completas solemnes. Foi tanta a devoção dos cidadãos que se não fartavam de vir muitas vezes visitar as relíquias, e os estudantes continuaram muitos dias, gastando muitas horas em oração, resando seus rosários. Os padres e irmãos têm nesta capella muita devoção, oração continua, e assim as relíquias como os painéis da paixão de que está cercada a capella o pedem. Algumas pessoas de fora fizeram algumas esmolas, se. um frontal, vestimenta e sobrecéo de veludo verde, uma caixa de prata, em que está a relíquia de S. Christovão, outros deram algumas sedas, e botijas de azeite para a alampada; as mulheres já que não gosavam da festa, por ser dentro de casa, mostraram a muita devoção que tem às santas Virgens, em darem os melhores espelhos que tinham para vidraças, e alguns delles tinham mais de um palmo em quadro. E o padre visitador nesta parte fez mais frueto com seu relicario em tirar os espelhos, que os pregadores com as pregações.

Chegadas outra vez as monções do Sul, no fim de Junho, partimos para Pernambuco, padre visitador, padre Rodrigo de Freitas, com outros padres e irmãos que por todos éramos quatorze; não foi o padre provincial, porque ficava muito mal na Bahia. Ao segundo dia com vento contrario, arribámos ao morro de S. Paulo, barra de Tinhará, doze léguas da Bahia, aonde estivemos onze dias, sem fazer tempo para continuarmos a viagem. Aqui estivemos dia de S. João Baptista, S. Pedro e S. Paulo, em os quaes dizíamos missa em um teigupaba (LV) de palha. Os irmãos, passageiros e marinheiros, commungaram nestas festas: passamos estes dias com bôa musica, que alguns irmãos de boas fallas faziam freqüentemente ao som de uma suave frauta, que de noite nos consolavam e de madrugada nos espertavam com devotos e saudosos psalmos e cantigas. Pelo navio ser de casa e andarmos bem acommodados, sempre somos no mar providos de todo o necessário, assim na sáude como enfermidades, tão bem como em casa. E nestes dias o fomos de vários pescados com que cada dia se fartava o navio. Algumas vezes iamos gastar as tardes com bôa musica e praticas espirituaes, sobre um fresco rio á vista do mar e pelo lugar ser solitário causava não pequena devoção: de quando em quando pescávamos para aliviar as moléstias que consigo traz uma arribada. Aqui nos visitou um padre nosso que residia no Camarú, com um bom refresco de uma vitella, porco, gallinhas, patos, e outras aves, e fructas, com muita caridade.

Daqui partimos o segundo de Julho, e aos 14 do mesmo, dia de S. Boaventura, perto do meio dia, deitámos ferro no arrecife de Pernambuco, que dista uma bôa légua. Logo vieram dous irmãos com rede e cavallos, em que fomos, e no collegio fomos recebidos do padre Luiz da Gra (LVI), Reitor, e dos mais padres e irmãos com extraordinária alegria e caridade. Ao dia seguinte se festejou dentro de casa, como cá é costume, o martyrio do Padre Ignacio d’Azevedo e seus companheiros com uma oração em verso no refeitório, outra em língua d’Angola, que fez um irmão de 14 annos com tanta graça que a todos nos alegrou, e tornando-a em portuguez com tanta devoção que não havia quem se tivesse com lagrimas. No tempo do repouso, que estava bem enramado, o chão juncado de mangericões, se explicaram alguns enigmas e deram prêmios. Á tarde fomos merendar á horta, que tem muito grande,, e dentro nella um jardim fechado com muitas hervas cheirosas, e duas ruas de pilares de tijolo com parreiras, e uma fructa que chamam maracujá, sadia, gostosa e refresca muito o sangue em tempo de calma tem ponta d’azedo, é fructa estimada. Tem um grande romeiral de que colhem carros de romãs, figueiras de Portugal, e outras fructas da terra. E tantos melões, que não ha esgota-los, com muitos pepinos e outras boas commodidades. Também tem um poço, fonte e tanque, ainda que não é necessário para as laranjeiras, porque o céu as rega: o jardim é o melhor e mais alegre que vi no Brasil, e se estiveram em Portugal se pudera chamar jardim.

Logo á quarta-feira fizeram os irmãos estudantes um recebimento ao padre visitador dentro em casa, no tempo do repouso. Recitou-se uma oração em prosa, outra em verso, outra em portuguez, outra na língua brasilica, com muitos epigramas. Acabada a festa lhes fez o padre outra, distribuindo por todos relicarios, Agnus-Dei, contas bentas, relíquias, imagens, etc. Também se leu a patente, e todos deram a obediência ao padre tomando-lhe a benção.

Foi o padre mui freqüentemente visitado do Sr. Bispo, ouvidor geral (LVII), e outros principaes da terra, e lhe mandaram muitas vitellas, porcos, perus, gallinhas e outras cousas, como conservas etc; e pessoa houve que da primeira vez mandou passante de cincoenta cruzados em carnes, farinhas de trigo de Portugal, um quarto de vinho, etc; e não contentes com isto o levaram ás suas fazendas algumas vezes, que são maiores e mais ricas que as da Bahia; e nellas lhe fizeram grandes honras e gasa-Ihados, com tão grandes gastos que não saberei contar, porque deixando á parte os grandes banquetes de extraordinárias iguarias, o agasalhavam em leitos de damasco carmesim, franjados de ouro, e ricas colchas da índia (mas o padre usava de sua rede como costumava). Mandavam de ordinário cavallos para seis dos nossos com seus feitores que nos acompanhassem todo o caminho, e elles mesmos em pessoa vinham receber o padre ao caminho duas, três léguas, dando-nos pelo caminho muitos janta-res, almoços e merendas, com grande abundância e mostra de grande amor e respeito à Companhia. Costumam elles a primeira vez que deitam a moer os engenhos benze-los, e neste dia fazem grande festa convidando uns aos outros. O padre, á sua petição lhes benzeu alguns, cousa que muito estimaram. Vimos grande parte de 66 engenhos que ha em Pernambuco, com outras fazendas muito para ver. Não fallo na frescura dos arvoredos, nem nos muitos e grandes rios caudaes, porque é cousa ordinária e commum no Brasil.

Trazia o padre visitador cartas d’el-rei para o capitão (LVIII) e câmara. Fizeram grandes offerecimentos para tudo o que o padre quizesse e ordenasse para bem da christandade e governo da terra.

Os estudantes de humanidades, que são filhos dos principaes da terra, indo o padre á sua classe, receberam com um brevedialogo,bôa musica, tangendo e dançando mui bem; porque se prezam os pais de saberem elles esta arte. O mestre fez uma oração em latim. O padre lhes distribuiu contas, relíquias, etc.

No fim de Julho se celebra no collegio a trasladação de uma cabeça de Onze mil virgens, que os padres alli têm mui bem concertada em uma torre de prata. Houve missa solemne, préguei-lhes das Virgens com grande concurso de toda a terra, por haver jubileu, a que commungou muita gente. O mesmo fiz na matriz dia da As-sumpção de Nossa Senhora (15 de Agosto), á petição dos mordomos, que são os principaes da terra, e alguns delles senhores d’engenhos de quarenta e mais mil cruzados de seu. Seis delles todos vestidos de veludo e damasco de várias cores me acompanharam até o púlpito, e não é muito achar-se esta policia em Pernambuco, pois é Olinda da Nova Lusitânia (LIX).

Além do grande fructo que se colheu das missões que o padre fez a várias partes aonde o padre Luiz da Grã e eu pregávamos algumas vezes confessando muitos portuguezes e mulheres fidalgas de dom, que não faltam nesta terra, dia havia em que commungavam algumas trinta pessoas, afora o grande fructo que um padre língua fazia com os Índios e escravos de Guiné. Ordenou o padre que andassem quatro padres em missões uns quinze dias: fez-se grande fructo, baptisaram-se muitos índios e escravos de Guiné, e muitos se casaram em lei de graça, e ouviram grande cópia de confissões, de que se seguiu grande edificação para toda a terra.

O anno de 83 houve tão grande secca e esterilidade nesta província (cousa rara e desacostumada, porque é terra de contínuas chuvas) que os engenhos d’agua na: moeram muito tempo. As fazendas de cannaviaes e mandioca muitas se seccarar por onde houve grande fome, principalmente no sertão de Pernambuco, pelo que desceram do sertão apertados pela fome, socorrendo-se aos brancos quatro ou cinco mil indios. Porém passado aquele trabalho da fome, os que poderam se tornaram ao sertão, excepto os que ficaram em casa dos brancos ou por sua, ou sem sua vontade. Também ficou um principal chamado Mitaguaya, (LX) de grande nome entre os indios do sertão, por ser grande lingua e fallador. Este com intento e desejo de ser christão entregou um seu filho ao padre Luiz da Grã, o qual em breve tempo soube fallar portuguez, ajudar á missa, e aprendeu a ler, escrever e contar. Tanto que o padre visitador chegou a Pernambuco logo o sobredito Mitaguaya visitou por vezes o padre, vestido de damasco com passamanes d’ouro, e sua espada na cinta, pedindo-lhe com grande instância quizesse ir á sua aldeia e dar-lhe padres, que se queria baptísar com todos os seus. Dando-lhe o padre boas esperanças que o visitaria, fizeram-lhe caminhos por matos, e serras altíssimas mais de uma légua. Quando lá fomos nos vieram receber quasi duas léguas da aldeia, e para gasalhado do padre fizeram uma casa nova, mas por ser em paragem de grande perigo por causa dos contrários, o padre Luiz da Grã era de parecer que não ficássemos alli aquella noite; mas o padre visitador, para lhes agradecer a caridade da casa nova, e os não desconsolar, antes animar, dormiu alli aquela noite. Elles nos deram a cear de sua pobreza peixinhos de moquem assados, batatas, cará, mangará, e outras fructas da terra, etc, e o padre os convidou com cousas de Portugal. De noite tiveram seu soiemne e gracioso conselho defronte da nossa casa, tendo uma grande fogueira no meio como é costume, e juntos os velhos principaes e grande línguas, se assentaram assim nús em uns pedaços de paus, e alli com todo o siso e maduro conselho trataram certos pontos sobre a sua estada naquelle sitio, vendo a difficuldade dos matos, a commodida-de do rio que tinham perto, a conjuncção bóa que tinham para se fazer christãos, com outras cousas que tratavam com muita graça e gravidade, e resolveram uno ore que se fizesse tudo o que o padre ordenasse para bem de sua estada naquella terra, e poderem receber nossa santa fé. E assim como o determinaram o cumpriram, porque estando differentes nos pareceres, o sobredito Mitaguaya com outro grande principal se ajuntaram por parecer do padre em um sitio que o padre lhes assignaiou, e logo se passaram para elle, fundaram a aldêa, e têm já feita igreja. Para isto foi destinado um padre lingua com outro companheiro, e dando ordem para que se acabasse a igreja com diligencia, lhes começaram a ensinar as cousas da fé. São passante de 800 almas as que se querem baptisar, e espera-se que desça grande multidão de gen-tios com a fama desta igreja.

Da visita se seguiu grande consolação nos de casa com as muitas práticas, avisos espirituais, exhortações das regras, que o padre fez emquanto alli os conversou. Deu profissão de quatro votos aos padres Leonardo Arminio, (LXI) italiano, e ao padre Pero de Toledo (LXII) espanhol, que fora sete annos reitor do collegio do Rio de Janeiro, ambos bons letrados, e de coadjuctores formados espirituaes a dois padres: a festa se fez dia de S. Jeronymo (30 de Setembro): pregou o padre Luiz da Grã; tem muito bom púlpito e as boas cousas e graça em as propor, e assim nesta como nas mais cousas é mui acceito e amado de todos da terra. Dia da Assumpção de Nossa Senhora (15 de Agosto) ordenou o Sr. Bispo sete irmãos de missa, dando-lhes todas as ordens em nossa igreja.

Não posso deixar de dizer nesta as qualidades de Pernambuco, que dista da equinocial para o Sul oito graus, e cem léguas da Bahia, que lhe fica ao Sul. Tem uma formosa igreja matriz de três naves, com muitas capellas ao redor; acabada ficara uma boa obra. Tem seu vigário com dois outros clérigos, afora outros muitos que estão nas fazendas dos portuguezes que elles sustentam á sua custa, dando-lhes mesa todo o anno e quarenta ou cincoenta mil réis de ordenado, afora outras avantagens. Tem passante de dois mil vizinhos entre villa e termo, com muita escravaria de Guiné, que serão perto de dois mil escravos: os Índios da terra são já poucos.

A terra é toda muito chã; o serviço das fazendas é por terra e em carros; a fertilidade dos cannaviaes não se pôde contar; tem 66 engenhos, (LXIII) que cada um é uma boa povoacão; lavram-se alguns annos 200 mil arrobas de assucar, e os engenhos não podem esgotar a canna, porque em um anno se faz de vez para moer, e por esta causa a podem vencer, pelo que moe canna de três, quatro annos; e com virem cada anno quarenta navios ou mais a Pernambuco, não podem levar todo o assucar :é terra de muitas creações de vaccas, porcos, gallinhas, etc.

A gente da terra é honrada: ha homens muito grossos de 40, 50, e 80 mil cruzados de seu: alguns devem muito pelas grandes perdas que têm com escravaria de Guiné, que lhes morrem muito, e pelas demasias e gastos grandes que têm em seu tratamento. Vestem-se, e as mulheres e filhos de toda a sorte de veludos, damascos e outras sedas, e nisto têm grandes excessos. As mulheres são muito senhoras, e não muito devotas, nem freqüentam as missas, pregações, confissões, etc: os homens são tão briosos que compram ginetes de 200 e 300 cruzados, e alguns têm tres,qua-tro cavallos de preço. São mui dados a festas. Casando uma moça honrada com um viannez, que são os principaes da terra, os parentes e amigos se vestiram uns de velu-do carmesim, outros de verde, e outros de damasco e outras sedas de várias cores, e os guiões e sellas dos cavallos eram das mesmas sedas que iam vestidos. Aquelle dia correram touros, jogaram cannas, pato, argolinha, e vieram dar vista ao collegio para os ver o padre visitador; e por esta festa se pode julgar o que farão nas mais, que são communs e ordinárias. São sobretudo dados a banquetes, em que de ordinário andam comendo um dia dez ou doze senhores de engenhos juntos, e revezando-se desta maneira gastam quanto têm, e de ordinário bebem cada anno 50 mil cruzados de vinhos de Portugal; e alguns annos beberam oitenta mil cruzados dados em rol. Emfimem Pernambuco se acha mais vaidade que em Lisboa. Os viannezes são senhores de Pernambuco, e quando se faz algum arruido contra algum viannez dizem em lugar de: ai que d’elrei, ai que de Vianna, etc.

A villa está bem situada em lugar eminente de grande vista para o mar, e para a terra; tem bôa casaria de pedra e cal, tijolo e telha. Temos aqui collegio aonde residem vinte e um dos nossos; sustentam-se bem, ainda que tudo vai três dobro do que em Portugal. O edifício é velho, mal acommodado,a igreja pequena (LXIV). Os padres lêem uma lição de casos, outra de latim, e escola de ler e escrever, pregam, confessam, e com os Índios, e negros de Guiné se faz muito fructo; dos portuguezes são mui amados e todos lhes têm grande respeito. Nesta terra estão bem empregados, e por seu meio faz Nosso Senhor muito, louvado seja elle por tudo.

Acabada a visita de Pernambuco (aonde estivemos três mezes), e chegadas as monções dos Nordestes, aos dezesseis de Outubro partimos para a Bahia, nove padres e três irmãos, acompanhando-nos o padre Luiz da Grã, reitor, com alguns padres do collegio, até á barra, que é uma légua. Houve muitas lagrimas e saudades á despedida, e não se podiam apartar do padre visitador, tão consolados e edificados os deixava, e com estas saudades se tornaram cantando pela praia as ladainhas, psalmos e outras cantigas devotas. Estava já neste tempo o nosso navio fora da barra, e, por o tempo ser algum tanto contrário para sair, andámos até alta noite aos bordos, não podendo tomar o navio, e quando já o tomámos foi á tôa, e com cahir o padre Rodrigo de Freitas ao mar, entre o navio e barca, donde o tirámos meio afogado, mais foi Nosso Senhor servido que não chegasse o desastre a mais. Aquella noute levámos a anchora, e com um vento galerno, aos vinte chegámos á Bahia.

Ao dia seguinte, por ser dia das Onze mil virgens, houve no collegio grande festa da confraria das Onze mil virgens, que os estudantes têm a seu cargo; disse missa nova cantada um padre com diacono e subdiacono. Os padrinhos foram o padre Luiz da Fonseca, reitor, e eu com nossas capas d’asperges. A missa foi officiada com bôa capella dos índios, com frautas, e de alguns cantores da Sé, com órgãos, cravos e descantes. E ella acabada, se ordenou a procissão dos estudantes, aonde levámos debaixo do pallio três cabeças das Onze mil virgens, e as varas levaram os vereadores da cidade, e os sobrinhos do Sr. governador. Saiu na procissão uma náu á vella por terra, mui formosa, toda embandeirada, cheia de estudantes, e dentro nella iam as Onze mil virgens ricamente vestidas, celebrando seu triumpho. De algumas janellas fallaram á cidade, collegio, e uns anjos todos mui ricamente vestidos. Da náu se dispararam alguns tiros d’arcabuzes, e o da d’antes houve muitas invenções de fogo, na procissão houve danças, e outras invenções devotas e curiosas. Á tarde se celebrou o martyrio dentro na mesma náu, desceu uma nuvem dos Céus, e os mesmos anjos lhe fizeram um devoto enterramento; a obra foi devota e alegre, concorreu toda a cidade por haver jubilêu e pregação. Houve muitas confissões, comungaram perto de quinhentas pessoas; e assim enjoados como vínhamos, confessámos toda a manhã: Nosso Senhor seja com tudo louvado.

Três semanas nos detivemos na Bahia por o padre visitador chegar mal disposto d’umas mordeduras de carrapatos (que são tamaninos como piolhos de gailinha) dos quaes foi em Pernambuco sangrado duas vezes, e se encheu o corpo todo de poste-mas. Neste tempo foi admittido na Companhia um sacerdote já homem de dias que nella tinha vivido perto de 30 annos. E havendo um anno que o padre visitador o dilatava, não querendo aceitar sua fazenda, nunca quiz entrar sem fazer primeiro a doação pública ao Collegio de toda a sua fazenda, escravaria, terras, vaccas, e movei que valeria tudo passante de oito mil cruzados; e não quiz aceitar ser provisoreadaião da Sé, que o Sr. Bispo lhe mandou aceitasse sob penna d’excommunhão.

Aos 14 de Novembro partimos para as partes do Sul oito padres e quatro irmãos. E aquella tarde e dia seguinte navegámos sessenta léguas com bom tempo, e fogo nos deu tal vento pela proa, que as tornámos quasi todas as desandar. E tornando Nosso Senhor continuar com sua misericórdia, nos favoreceu de maneira que aos 21 tomámos a capitania do Espirito Santo, que dista 120 léguas da Bahia. Fomos recebidos dos padres com muita caridade, e do Sr. Administrador, que estava na nossa cerca esperando o padre visitador, com grande alvoroço e alegria; e logo mandou dous perus, e os da terra mandaram vitellas, porcos, vaccas e outras muitas cousas, conforme possibilidade e caridade de cada um. Logo aos 25 se celebrou em casa a festa de Santa Catharina; disse missa nova um dos padres que vinha de Pernambuco, filho do governador de Paraguay (LXV); o qual sendo único e herdeiro daquella governança, fugiu ao pai, e entrou na Companhia. O Sr. Administrador foi seu padrinho, e fez officiar a missa pelos de sua capella, e os indios também ajudaram com suas frautas. Toda a manhã houve muitas confissões, communhões e pregação.

Em quanto aqui estivemos foram os nossos mui ajudados com a visita e exhortações do padre visitador; fizeram com elle suas confissões geraes. O padre lhes fez praticas, e com ellas e mais avisos espirituaes ficaram em extremo consolados.

Têm os padres nesta capitania três léguas da villa, duas aidêas de indios a seu cargo, em que residem os nossos, que terão três mil almas christas, afora outras aidêas que estão ao longo da costa, as quaes visitam algumas vezes, que terão algumas duas mil pessoas entre pagãos e christãos. Véspera da Conceição da Senhora, por ser orago da aldêa mais principal, foi o padre visitador fazer-lhe a festa. Os indios também lhes fizeram a sua: porque duas léguas da aldêa em um rio mui largo e formoso (por ser o caminho por água) vieram alguns indios murubixáha, se. principaes, com muitos outros em vinte canoas mui bem esquipadas, e algumas pintadas, enramadas e em-bandeiradas, com seus tambores, pifanos e frautas, providos de mui formosos arcos e frechas mui galantes; e faziam a modo de guerra naval muitas ciladas em o rio, arrebentando poucos e poucos com grande grita, e prepassando pela canoa do padre lhe davam o Ereiupe, fingindo que o cercavam e o captivavam. Neste tempo um menino, prepassando em uma canoa pelo padre visitador, lhe disse em sua lingua: Pay, marápe guarinfme nande popeçoarR se. em tempo de guerra e cerco como estás desarmado (LXVI) e metteu lhe um arco e frechas na mão. O padre assim armado, e elle dando seus alaridos e urros tocando seus tambores, frautas e pifanos, levaram o padre até á aldêa, com algumas danças que tinham prestes. O dia da Virgem disse o Sr. Administrador missa cantada, com sua capella, e o padre visitador pela manhã cedo antes da missa baptisou setenta e três adultos, em o qual tempo houve bôa musica de vozes e frautas, e na missa casou trinta e seis em lei de graça, e deu a communhão a trinta e sete.

Por haver jubileu concorreu toda a terra, e toda a manhã confessámos homens e mulheres portuguezes. Houve muitas communhões, e tudo se fez com consolação dos moradores indios e nossa. Acabada a missa houve procissão solemne pela aldêa, com danças dos indios a seu modo e á portugueza; e alguns mancebos honrados também festejaram o dia dançando na procissão, e representaram um breve dialogo e devoto sobre cada palavra da Ave Maria, e esta obra dizem compoz o padre Álvaro Lobo (LXVII) e até ao Brasil chegaram suas obras e caridades.

Era para vêr os novos christãos, e christas sairem de suas ocas como conumis, acompanhados de seus parentes e amigos, com sua bandeira diante e tamboril, e depois do baptismo e casamentos tornarem assim acompanhados para suas casas; e as índias quando se vestem vão tão modestas, serenas, direitas e pasmadas, que parecem estatuas encostadas a seus pagens e a cada passo lhes caem os pantufos, porque não têm de costume.

Ao dia seguinte fomos á aldêa de S. João, dahi meia légua por água por um rio acima mui fresco e gracioso, de tantos bosques e arvoredos que se não via a terra, e escassamente o Céo. Os meninos da aldêa tinham feito algumas ciladas no rio, as quaes faziam a nado, arrebentando de certos passos com grande grita e urros, e faziam outros jogos e festas n’agua a seu modo mui graciosos, umas vezes tendo a canoa, outras mergulhando por baixo, e saindo em terra todos com as mãos levantadas diziam: Louvado seja Jesus Christo! — e vinham tomar a benção do padre, os princi-paes davam seu Ereiupe, prégrando da vinha do padre com grande fervor. Chegámos á igreja acompanhados dos índios, e os meninos e mulheres com saus palmas nas mãos, e outros ramalhetes de flores, que tudo representava ao vivo o recebimento do dia de Ramos. Porém neste tempo ainda que os índios fazem a festa, tudo é pasmar maxime as mulheres do Payguaçú. Acabado o recebimento houve outra festa das laranjadas, e não lhes faltam laranjas, nem outras fructas semelhantes com que as façam. Logo começaram com suas dádivas, e tão liberaes que lhes parece que não fazem nada senão dão logo quanto têm. E é grande injuria para elles não se lhes aceitar, e quando o dão não dizem nada, mas pondo perus, gallinhas, leitões, papagaios, tuins reaes, etc, aos pés do padre se tornam logo.

Ao dia seguinte baptisou o padre visitador trinta e três adultos, e casou na missa outros tantos em lei de graça, e tudo se fez com as mesmas festas. Estavam estes indios em ruim sitio, mal acommodados, e a igreja ia caindo: fez o padre que se mudassem á outra parte, o que fizeram com grande consolação sua.

Ha nesta terra mais gentio para converter que em nenhuma outra capitania; deu o padre visistador ordem, com que fossem dous padres dahi vinte e oito léguas á petição dos indios, que queriam ser christãos: espera-se grande fructo desta missão, e descerão logo quatro ou cinco mil almas, e ficará porta aberta para descer grande multidão de gentios; para o qual effeito o governador desta terra Vasco Fernandes Coutinho (filho daquelle Vasco Fernandes Coutinho que fez as maravilhas em Mala ca detendo o elefante que trazia a espada na tromba) (LXVIII) deu grande provisões sob graves penas que ninguém os fosse saltear ao caminho; deu-lhes três léguas de terra que os indios pediam, e perdão d’algumas mortes de brancos e alevantamentos que tinham antigamente feito, e quando foi ao assignar da provisão não na quiz lêr, nem viu o que dizia, antes vindo-a sellar a nossa casa, disse que tudo o que o padre visitador puzesse havia por bem, e que pedisse tudo quanto quizesse em favor dos indios, que elle o approvaria logo.

Os portuguezes têm muita escravaria destes indios christãos. Têm elles uma confraria dos Reis em nossa igreja, e por ser antes do Natal quizeram dar vista ao padre visitador de suas festas. Vieram um domingo com seus alardos á portugeza, e a seu modo com muitas danças, folias, bem vestidos, e o rei e a rainha ricamente ataviados, com outros principaes e confrades da dita confraria: fizeram no terreiro da nossa igreja seus caracóes, abrindo e fechando com graças por serem mui ligeiros, e os vestidos não carregavam muito a alguns, porque os não tinham. O padre lhes mandou fazer uma pregação na lingua, de como vinha a consola-los e trazer-lhes para os doutrinar, e do grande amor com que Sua Magestade lhos encommendava. Ficaram consolados e animados, e muito mais com os relicarios que o padre deitou ao pescoço do rei, da rainha, e outros principaes. Os portuguezes recebem o padre nesta terra com tantas honras e mostras d’amor, que não ha mais que pedir. O Sr. Governador e mais principaes da terra o visitaram muitas vezes, e porque o padre lhe trazia carta d’El-Rei, e aos mais da câmara e governo da villa, fizeram quanto o padre lhes pediu para bem da christandade; e não contentes com as dádivas passadas, levando o padre a suas fazendas lhe deram muitos banquetes de muitas exquisitas e várias iguarias. E em um delles, depois de sermos seis da Companhia bem servidos, tirando as toalhas de cima, começou o segundo, e este acabado o terceiro, tudo com tanta ordem, limpeza, concerto e gasto, que nos espantava, e emquanto comemos não faziam senão mandar canoas equipadas com várias iguarias aos padres, que ficavam em casa, e por o caminho ser por água e breve tudo chegava a tempo. Este é o respeito que por cá se tem ao padre e aos mais da Companhia. Nosso Senhor lho pague.

Na barra deste porto está uma ermida de N. Senhora, chamada da Pena (LXIX), e certo que representa a Senhora da Pena de Cintra, por estar fundada sobre uma altíssima rocha de grande vista para o mar e para a terra. A capella é de abobada pequena, mas de obra graciosa e bem acabada. Aqui fomos em romaria dia de S. André, e todos dissemos missa com muita consolação, e V. R? foi bem encommendada á Senhora com toda essa Província, o que também fazíamos em as mais romarias e continuamente em nossos sacrifícios, e eu sou o que ganho pela muita consolação que tenho com tal lembrança; e pois a devo a V. Ra e aos mais padres e irmãosdessa Província por tantas vias. Este dia nos agasalhou o Sr. governador com muita caridade.

Esta capitania do Espirito Santo é rica de gado e algodões. Tem seis engenhos de assucar e muitas madeiras de cedros e paus de balsamo, que são arvores altíssimas: picam-se primeiro e deitam um óleo suavíssimo de que fazem rosários, e é único remédio para feridas. A villa é de Nossa Senhora da Victoria: terá mais de 150 vizinhos, com seu vigário. Está mal situada em uma ilha cercada de grandes montes e serras, e não fora um rio muito formoso que lhe corre pelo pé, ainda fora mais manen-colisada do que é, porque pouco mais vista terá que a do rio.

Os padres têm uma casa bem acommodada com sete cubículos (LXX), e uma igreja nova e capaz. A cerca é cheia de muitas laranjeiras, limeiras doces, cidreiras, acajús e outras fructas da terra, com todo gênero de hortaliça de Portugal. Vivem os nossos d’esmolas, e são muito bem providos, e o collegio do Rio os ajuda com as cousas de Portugal, como também faz ás duas casas de Piratininga e S. Vicente, por serem a elle annexas e entrarem no numero das cincoenta para que tem dote.

Do Espirito Santo partimos para o Rio de Janeiro, que dista alli oitenta léguas. Dois ou três dias tivemos bom tempo, e logo nos deu um temporal tão forte, que foi necessário ficarmos arvore secca quasi dois dias com muito perigo, por estarmos sobre uns baixos dos Guaitacazes mui perigosos, e não muito longe da costa. Alli estivemos a Deus misericórdia, e cada um se encommendava a Nossa Senhora quanto podia por vermos perto a morte. Deste perigo nos livrou Deus por sua bondade, e aos 20 (Dezembro de 1584), véspera de S. Thomé, arribámos ao Rio. Fomos recebidos do padre Ignacio Tolosa, reitor, e mais padres, e do Sr. governador (LXXI), que manco de um pé com os principaes da terra veio logo á praia com muita alegria, e os da fortaleza também a mostraram com salva de sua artilharia. Neste collegio tivemos o Natal com um presépio muito devoto, que fazia esquecer os de Portugal:e também cá N. Senhor dá as mesmas consolações, e avantajadas. O irmão Barnabé Telo fez a lapa, e ás noites nos alegrava com seu berimbau.

Trouxemos no navio uma relíquia do glorioso Sebastião engastada em um braço de prata. Esta ficou no navio para a festejarem os moradores e estudantes como desejavam, por ser esta cidade do seu nome, e ser elle o padroeiro e protector. Uma das oitavas á tarde se fez uma celebre festa. O Sr. governador com os mais por-tuguezes fizeram um lustroso alardo de arcabuzaria, e assim juntos com seus tambores, pífaros e bandeiras foram á praia. O padre visitador com o mesmo governador e os principaes da terra e alguns padres nos embarcámos numa grande barca bem em-bandeirada e enramada: nella se armou um altar e alcatifou a tolda com um pallio por cima; acudiram algumas vinte canoas bem equipadas, algumas dellas pintadas, outras empennadas, e os remos de várias cores. Entre ellas vinha Martim Affonso (LXXII), commendador de Chrísto, indio antigo abaetê e moçacára (LXXIII), se. grande cavalleiro e valente, que ajudou muito os portuguezes na tomada deste Rio. Houve no mar grande festa de escaramuça naval, tambores, pífaros e frautas, com grande grita e festa dos índios; e os portuguezes da terra com sua arcabuzaria e também os da fortaleza dispararam algumas peças de artilharia grossa e com esta festa andamos barlaventeando um pouco á vella, e a santa relíquia ia no altar dentro de uma rica charola, com grande apparato de vellas accessas, musica de canto d’orgão, etc. Desembarcando viemos em procissão até á Misericórdia, que está junto da praia, com a relíquia debaixo do pallio; as varas levaram os da câmara, cidadãos principaes, antigos e conquistadores daquella terra. Estava um theatro á porta da Misericórdia com uma tolda de uma vela, e a santa relíquia se poz sobre um rico altar em quanto se representou um devoto dialogo do martyrio do santo, com choros e varias figuras muito ricamente vestidas; e foi asseteado um moço atado a um páu: causou este espectaculo muitas lagrimas de devoção e alegria a toda a cidade por representar ao vivo o martyrio do santo, nem faltou mulher que não viesse á festa; por onde acabado o dialogo, por a nossa igreja ser pequena lhes preguei no mesmo theatro dos milagres e mercês, que tinham recebido deste glorioso martyr na tomada deste rio, a qual acabada deu o padre visitador a beijar a relíquia a todo o povo e depois continuámos com a procissão e danças até nossa igreja: era para vêr uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito annos, todos nusinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis nos pés, e braços, pernas, cinta, e cabeças com várias invenções de diademas de pennas, collares e braceletes. Parece-me que se os viram nesse reino, que andaram todo o dia atraz elles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi. Chegados á igreja foi a santa relíquia collocada no sacrario para consolação dos moradores, que assim o pediram.

Têm os padres duas aldêas de índios, uma dellas de S. Lourenço, (LXXIV), uma légua da cidade por mar; e a outra de S. Barnabé (LXXV), 7 léguas também por mar, terão ambas três mil índios christãos. Foi o padre visitador á de S. Lourenço, aonde residem os padres, e dia dos Reis lhes disse missa cantada off iciada pelos índios em canto d’orgão com suasf rautas; casou alguns em lei de graça, e deu communhão a outros poucos. Eu baptisei dois adultos somente, por os mais serem todos christãos.

Esta capitania do Rio dista da Equinocial 23 graus para o Sul, e da Bahia 130 léguas. É muito sadia, de muitos bons ares e águas. No verão tem boas calmas algumas vezes, e no inverno mui bons frios; mas em geral é temperada. O inverno se parece com a primavera de Portugal: têm uns dias formosíssimos tão aprazíveis e salutiferos que parece estão os corpos bebendo vida. É terra mui fragosa e muito mais que a Serra da Estrella; tudo são serrarias e rochedos espantosos, e tem alguns penedos tão altos que com três tiros de frecha não chega um homem ao chão e ficam todas as frechas pregadas na pedra por causa da grande altura; destas serras.descem muitos rios caudaes que de quatro e sete léguas se vêem alvejar por entre matos que se vão ás nuvens, e do pé de algumas destas serras até riba ha uma grande jornada; são todas estas serras cheias de muitas e grandes madeiras de cedros, de que se fazem canoas tão largas de um só pau, que cabe uma pipa atravessada; e de comprimento que levam dez, doze remeiros por banda e carregam cem quintaes de qualquer cousa, e outras muito mais. Ha muitos paus de sandalos brancos, aquila e noz muscada e outros paus reaes muito para vêr. Agora se descobriu um páu que tinge de amarelo (LXXVI), como o brasil vermelho; é páu de preço: é abundante de gados, porcos e outras criações; dão-lhe nella marmellos, figos, romeiras, e também trigo se o semeam; a um grão respondem 800 e mais e cada grão dá 50 e sessenta espigas, das quaes umas estão maduras, outras verdes, outras nascem; também se dão rosas, cravos vermelhos, cebolas cecem, arvores d’espinho, todo gênero d’hortaliça de Portugal, as cannas também se dão bem, e tem três engenhos de assucar, emfim é terra mui farta.

A cidade está situada em um monte de boa vista para o mar, e dentro da barra tem uma bahia que bem parece que a pintou o supremo pintor e architecto do mundo Deus Nosso Senhor, e assim é cousa formosíssima e a mais aprasivel que ha em todo o Brasil,.nem lhe chega a vista do Mondego e Tejo; é tão capaz que terá 20 léguas em roda cheia pelo meio de muitas ilhas frescas de grandes arvoredos, e não impedem a vista umas ás outras que é o que lhe dá graça. Tem a barra meia legua da cidade, e no meio delia uma lagea de sessenta braças em comprido, e bem larga que a divide pelo meio, e por ambas as partes tem canal bastante para naus da India; nesta lagea manda El-Rei fazer a fortaleza (LXXVII), e ficará cousa inexpugnável nem se lhe poderá esconder um barco; a cidade tem 150 vizinhoe com seu vigario, e muita escravaria da terra.

Os padres têm aqui melhor sitio da cidade (LXXVIII). Têm grande vista com toda esta enseada defronte das janelas: têm começado o edificio novo, têm já 13 cubículos de pedra e cal que não dão vantagem aos de Coimbra, antes lha levam na bôa vista. São forrados de cedro, a igreja é pequena, de taipa velha. Agora se começa a nova de pedra e cal, todavia tem bons ornamentos com uma custodia de prata dourada para as endoenças, uma cabeça das Onze mil virgens, o braço de S. Sebastião com outras relíquias, uma imagem da Senhora de S. Lucas. A cerca é cousa formosa; tem muito mais larangeiras que as duas cercas d’Evora, com um tanque e fonte; mas não se bebe delia por a água ser salobra; muitos marmelleiros, romeiras, limeiras, limoeiros e outras fructas da terra. Também tem uma vinha que dá boas uvas, os melões se dão no refeitório quasi meio anno, e são finos, nem faltam couves mer-cianas bem duras, alfaces, rabãos e outros gêneros d’hortaliça de Portugal em abundância: o refeitório é bem provido de necessário; a vacca na bondade e gordura se parece com a d’Entre-Douro e Minho; o pescado é vário e muito, são para vêr as pescarias da sexta-feira, e quando se compra vai o arratel a quatro réis, e se é peixe sem escama a real e meio, e com um tostão se farta toda a casa, e residem nella de ordinário 28 padres e irmãos afora a gente, que é muita, e para todos ha. Duvidava eu qual era melhor provido, se o refeitório de Coimbra se este, e não me sei determinar: quanto ao espiritual se parece na observância, bom concerto e ordem com qualquer dos bem ordenados de Portugal: e estes padres velhos são a mesma edificação e desprezo do mundo, e esta fructa colheram cá por estes inatos sem pratica nem conferências, e são um espelho de toda virtude, e muito temos os que de lá viemos para andar, se havemos de chegar a tanta perfeição da solida e verdadeira virtude da Companhia.

Nas oitavas do Natal ouviu o padre visitador as confissões geraes, e renovaram-se os votos dia de Jesus, e aquelle dia preguei em nossa igreja, houve muitas confissões e communhões por causa da festa e jubileu. Por se irem acabando as monções dos Nordestes quiz o padre visitar primeiro a casa de S. Vicente e Piratininga para na volta estar n’este collegio de vagar: daqui partimos depois dos Reis para S. Vicente que dista daqui 40 léguas, e é a derradeira capitania. Fizemos o caminho á vista de terra, e toda é cheia de ilhas mui formosas, cheias de pássaros e pescado. Chegámos em seis dias por termos sempre calmarias á barra do Rio nomeado da Buriquioca (LXXIX), sc. cova dos bogios, e por o nome corrupto Bertioga, aonde está a nomeada fortaleza para que antigamente degradavam os malfeitores: a fortaleza é cousa formosa, parece-se ao longo com a de Belém e tem outra mais pequena defronte, e ambas se ajudavam uma á outra no tempo das guerras. Daqui a villa de Santos são quatro léguas. Sabendo o padre Pedro Soares (LXXX), superior daquella casa, veio pelo rio duas léguas com outro padre, e chegando á villa já de noite. O capitão com os princi-paes da terra estavam esperando o padre visitador na praia e o levaram até á igreja matriz por não haver alli outra, a qual tinham bem allumíada, concertada e enramada, e dahi o levaram á casa, e depois mandaram a cêa de diversas aves com muitos doces. Ao dia seguinte depois de jantar partimos para S. Vicente, e caminhando três léguas por um grande e formoso rio cheio de uns pássaros vermelhos que chamam Guará, dos formosos desta terra, os quaes são como pegas: os bicos são de um bom palmo, e na ponta revoltos, e têm mui compridas pernas: nascem estes pássaros pretos, e depois se fazem pardos, depois brancos, quarto loco ficam de um encarnado gracioso quinto loco ficam vermelhos mais que grã, e nesta formosíssima côr permanecem. Vivem junto d’agua salgada e nelle se criam e sustentam. Chegámos de noite á casa de S. Vicente; fomos recebidos dos padres e mais da terra com grande caridade. Dia do martyr Sebastião (20 de Janeiro de 1585) que também era domingo do Sacramento e havia desta na matriz lhe preguei: concorreu toda a terra a ouvir o companheiro do visitador, e padre reinol. Houve muitas confissões e communhões, assim na nossa casa como na matriz.

Desejavam os padres de Piratininga que o padre visitador se achasse naquella casa aos 25 de Janeiro, dia da conversão de S. Paulo, por ser orago da nossa igreja. Partimos uma segunda-feira, e caminhámos duas léguas por água, e uma por terra, e fomos dormir em um teigupaba ao pé de uma serra ao longo de um formoso rio de água doce que descia com grande impeto de uma serra tão alta, que ao dia seguinte caminhámos até ao meio dia, chegando ao cume bem cançados: o caminho é tão íngreme que ás vezes íamos pegando com as mãos. Chegando ao Paraná-piacaba, (LXXXI) se. lugar donde se vê o mar, descobrindo o mar largo quando podíamos alcançar com a vista, e uma enseada de mangaes e braços de rios de comprimento de oito léguas e duas e três em largo, cousa muito para vêr; e parecia um panno de armar: a toda esta terra enche a maré, e ficando vasia fica cheia de ostras, caranguejos, mexilhões, briguigões e outras castas de mariscos: aquelle dia fomos dormir junto a um rio de água doce, e todo o caminho é cheio de tijucos, (LXXXII) e peor que nunca vi, e sempre Íamos subindo e descendo serras altíssimas, e passando rios caudaes de água frigidissima. Ao 39 dia navegamos todo o dia por um rio de água doce, deitados em uma canoa de casca de arvore, em a qual alem do fato iam até 20 pessoas: iamos voando a remos, e da borda da canoa á água havia meio palmo e ainda que não havia perigo de darmos á costa não faltava um não pequeno, que era dar nos paus e ás vezes dando a canoa com grande impeto ficava atravessada. Era necessário guardar o rosto e olhos; porém a navegação é graciosa por o ser a embarcação e o rio mui alegre, cheio de muitas flores e fructas, de que iamos tocando, quando a grande corrente nos deixava; chegando a peaçaba (LXXXIII), se. lugar onde se desembarcam, demos logo em uns campos cheios de mentrastos; aquella noute nos agasalhou um devoto, com gallinhas, leitões, muitas uvas e ficos de Portugal, camarinhas brancas e pretas e umas fructas amarellas da feição e tamanho de cerejas, mas não tem os pés compridos. Ao dia seguinte vieram os principaes da villa três léguas receber o padre. Todo o caminho foram escaramuçando e correndo seus ginetes, que os têm bons, e os campos são formosíssimos, e assim acompanhados com alguns 20 de cavallo, e nós também a cavallo chegámos a uma Cruz que está situada sobre a villa, donde estava prestes um altar debaixo de uma fresca ramada, e todo o mais caminho feito um jardim de ramos. Dalli levou o padre visitador uma cruz de prata dourada com o Santo Lenho e outras relíquias, que o padre deu aquella casa; e eu levava uma grande relíquia dos santos Thebanos. Fomos em procissão até á igreja com uma dança de homens de espadas, e outra dos meninos da escola; todos Iam dizendo seus ditos ás santas relíquias. Chegando á igreja doutos a beijar as reliquias. ao povo. Ao dia seguinte disse o padre visitador missa com diacono e subdiacono, offi ciada em canto d’orgão pelos mancebos da terra. Houve jubileu plenário, confessou se e commungou muita gente: préguei-lhe da conversão do Apóstolo. E em tudo se viu grande alegria  consolação no povo. E muito mais nos nossos, que com grande amor no meio daquelle sertão e cabo do mundo, nos receberam e agasalharam com extraordinária alegria e caridade.

Em Piratininga esteve o padre visitador quasi todo o mez de Fevereiro, consolando e animando os nossos; ouviu as confissões geraes, foi visitado dos principaes da terra muitas vezes. Foi a uma aldêa de Nossa Senhora dos Pinheiros da Conceição (LXXXIV). Os Índios o receberam com muita festa como o costumam, mandando de sua pobreza. Também foi a outra aldêa dahi duas léguas; parte do caminho fomos navegando por uns campos, por ter o rio espraiado muito, e ás vezes ficamos em secco. Nesta aldêa baptisou o padre trinta adultos e casou em lei da graça outros tantos; no fim de Fevereiro se partiu para S. Vicente, aonde esteve quasi todo o mez de Março, e eu fiquei em Piratininga até ao segundo domingo da quaresma, pregando e confessando, e quando parti para S. Vicente eram tantas as lagrimas das mulheres e homens moradores, que me confundiam: mandaram-me gallinhas para a matolagem, caixas de marmelada, e outras cousas, acompanhando-me alguns de cavallo as três léguas até o rio, e deram cavalgaduras para os companheiros. Nosso Senhor lhes pague tanta caridade e amor.

Piratininga é villa da invocação da conversão de São Paulo; está do mar pelo sertão dentro doze léguas; é terra muito sadia, ha nella grandes frios e geadas e boas calmas, é cheia de velhos mais que centenários, porque em quatro juntos e vivos se acharam quinhentos annos. Vestem-se de burel, e peiiotes pardos e azues, de pertinas compridas, como antigamente se vestiam. Vão aos domingos á igreja com roupões ou berneos de cacheira sem capa. A villa está situada em bom sitio ao longo de um rio caudal. Terá cento e vinte vizinhos, com muita escravaria da terra, não tem cura nem outros sacerdotes senão os da Companhia, aos quaes têm grande amor e respeito, e por nenhum modo querem aceitar cura. Os padres os casam, baptisam, lhes dizem as missas cantadas, fazem as procissões, e ministram todos os sacramentos, e tudo por sua caridade: não tem outra igreja na villa senão a nossa. Os moradores sustentam seis ou sete dos nossos, com suas esmolas com grande abundância: é terra de grandes campos e muito semelhante ao sitio d’Evora na bôa graça, e campinas, que trazem cheias de vaccas, que é formosura de vêr. Tem muitas vinhas, e fazem vinho, e o bebem antes de ferver de todo: nunca vi em Portugal tantas uvas juntas, como vi nestas vinhas: tem grandes figueiras de toda sorte de figos, bersaçotes, bebe-ras, e outras castas, muitos marmelleiros, que dão quatro camadas, uma após outra, e ha homem que colhe doze mil marmellos, de que fazem muitas marmelladas: tem muitos rosaes de Alexandria, e porque não tem das outras rosas, das de Alexandria fazem assucar rosado para mezinha, e das mesmas cozidas, deitando-lhe a primeira água fora, fazem assucar rosado para comer e fica soffrivel: dá-se trigo e cevada nos campos: um homem semeou uma quarta de cevada e colheu sessenta alqueires: é terra fertilissima, muito abastada: quem tem sal é rico, porque as criações não faltam. Tem grande falta de vestido, porque não vão os navios a S. Vicente senão tarde e poucos: ha muitos pinheiros, as pinhas são maiores, nem tão bicudas como as de Portugal: e os pinhões são também maiores, mas muito mais leves e sadios, sem nenhum extremo de quentura ou frialdade, e é tanta a abundância que grande parte dos índios do sertão se sustentam com pinhões: dão-se pelos matos amoras de silva, pretas e brancas, e pelos campos bredos, beldroegas, almeirões bravos e mentrastos, não fallo nos fetos, que são muitos, e de altura de uma lança se os deixam crescer. Em fim esta terra parece um novo Portugal.

Os padres têm uma casa bem acommodada, (LXXXV) com um corredor e oito cubículos de taipa, guarnecida de certo barro branco, e off icinas bem acommodadas. Uma cerca grande com muitos marmellos, figos, larangeiras e outras arvores d’espi-nho, roseiras, cravos vermelhos, cebolas cecêm, ervilhas, borragens, e outros legumes da terra e de Portugal. A igreja é pequena, tem bons ornamentos, e fica muito rica com o Santo Lenho, e outras relíquias que lhe deu o padre visitador.

O padre em S. Vicente visitou os padres, consolando muito a todos, e foi dalli dez léguas pela praia a uma Nossa Senhora da Conceição, que está na villa de Itanhaem: também visitou o forte que deixou Diogo Flores (LXXXVI), com cem soldados, e do alcaide e do capitão foi visitado muitas vezes e lhes concedeu um padre que os fosse confessar por ser quaresma.

S. Vicente é capitania: tem quatro villas, a primeira é S. Vicente, villa de Nossa Senhora da Assumpção; está situada em lugar baixo manencolisado e soturno, em uma ilha de duas ieguas de comprido. Esta foi a primeira villa e povoação de portu-guezes que houve no Brasil; foi rica, agora é pobre por se lhe fechar o porto de mar e barra antiga, por onde entrou com sua frota Martim Affonso de Sousa; e também por estarem as terras gastas e faltarem Índios que as cultivem, se vai despovoando; terá oitenta vizinhos, com seu vigário (LXXXVII). Aqui tem os padres uma casa aonde residem de ordinário seis da Companhia: o sitio é mal assombrado, sem vista, ainda que muito sadio: tem boa cerca com várias fructas de Portugal e da terra, e uma fonte de mui bôa água. Estão como heremitas, por toda a semana não haver gente, e aos domingos pouca. A segunda é a villa de Santos, situada na mesma ilha, é porto de mar; tem duas barras, na principal está o forte que deixou Diogo Flores, a outra é a barra da Bertioga, que dista desta villa quatro léguas por um rio tão formoso, que podem navegar navios de alto bordo: terá a villa de Santos oitenta vizinhos, com seu vigário. A terceira é a villa de Nossa Senhora do Itanhaem, que é a derradeira povoação da costa, que terá cincoenta vizinhos, não tem vigário. Os padres visitam, consolam e ajudam no que podem, ministrando-lhes os sacramentos por sua caridade. A quarta é villa de Piratininga, que está doze léguas pelo sertão adentro, terá cento e vinte vizinhos ou mais.

No fim de Março já despedidos de S. Vicente, viemos para Santos, aonde nos esperava já o nosso navio aparelhado: preguei na matriz dia de Nossa Senhora da Annunciação (25 de Março): houve muitas confissões e communhões. Os desta vil Ia pediram ao padre lhe mudasse a casa de S. Vicente para alli, o que o padre lhes concedeu. Logo deram um sitio bom ao longo do mar, e a cadêa publica, e umas casas novas, que tudo valera quinhentos cruzados, e começam o edifício com suas escolas (LXXXVIII).

De Santos partimos acompanhando-nos o capitão, o qual nunca se apartava do padre visitador, servindo-o com tanto respeito e amor que me espantava; estivemos dois ou três dias na barra da Bertioga esperando tempo, servidos de muitos e vários peixes: chegámos ao Rio de Janeiro sábbado de dominica in passione, adonde tivemos as endoenças; preguei o mandato, e outro padre a paixão. Fez-se um sepul-chro devoto e bem acabado, com muita cêra branca.

Tendo o padre visitado o collegio do Rio, e assentado de invernar alli aquelle anno, recebeu cartas de como N. Padre geral mandava doze a esta província, e que estavam para partir de Lisboa; para os agasalhar e receber se partiu para a Bahia com seus companheiros, padre provincial, padre Ignacio Tolosa,e alguns irmãos; gastámos na viagem trinta e dois dias, e quiz-nos Nosso Senhor modificar, e dar a entender quam trabalhosa era a navegação desta costa, porque até então todas as viagens que o padre visitador fez foram mui bem assombradas e mar bonança, mas esta como era a derradeira, foi tal tão contrários os ventos e taes as tempestades, que vindo embocar na Bahia e estando á vista de terra, nos deu tão forte tempo que estivemos perdidos uma noite com o navio meio alagado, e o traquete desaparelhado, e nós confessados nos aparelhamos para morrer, e se daquella foramos, lá ia a maior parte da província, não em numero, mas em qualidade (LXXXIX). Eu não no havia por mim, porque já me offerecia que me deitassem ás ondas como Jonas, mas queriam acabar juntamente com os padres visitador, provincial, Ignacio Tolosa, e outros irmãos de boas habilidades e virtude, para ajudarem esta província: certamente que isto me desconsolava. Porém foi Nosso Senhor servido consolar esta província com de novo lhe conceder os sobreditos. Chegados á Bahia nos achámos sem os padres, que não foi pequena mortificação, e eu em extremo me consolei com saber que o padre Lourenço Cardim com tanto animo acabara por obediência em tão gloriosa empresa (XC). Tive-lhe grande inveja, pois vai diante de mim, e em tudo sempre me levou avantagem.

Chegados á Bahia mandou o padre visitador recado ao padre Luiz da Grã, que viesse a este collegio, e foi o recado em tão bôa conjuncção que aos 13 de Outubro

chegou aqui. O padre visitador corn os mais padres, que para esse fim aqui ajuntou, listão dando remate e ultima resolução á visita e negócios desta província, etc.

Isto é o que se me offereceu da nossa viagem e missão para dar conta a Vossa Reverencia. Resta pedir os santos sacrifícios de Vossa Reverencia e sua santa benção e ser encomendado em os sacrifícios e orações dos mais padres e irmãos dessa provincia. Deste collogio da Bahia, a 16 de Outubro de 85. — Por commissão o

Padre Visitador Christovão de Gouvêa. — De V. R. filho indigno em Christo N. S. — FERNÃO CARDIM.

II

Ao muito reverendo em Christo Padre, o Padre provincial de Portugal:

Continuarei nesta o que succedeu depois da ultima que escrevi a Vossa Reverencia em 16 de Outubro de 85, que foi o seguinte. Tanto que o padre visitador teve aqui na Bahia juntos os reitores dos collegios, e outros padres professos, e antigos, attendeu dar a ultima mão á visita desta província, em a qual ordenou cousas muito necessárias ao bom meneio dos collegios e residências, aldêas dos indios, missões, assentando algumas cousas, a da visita para todos poderem observar com grande gloria divina, bom procedimento da Companhia, e bem da conversão, a observância religiosa a mandou a nosso padre geral, e lhe veio toda approvada sem lhe tirar cousa alguma, e assim se pratica até agora com notável fructo, e ainda que depois se ventilaram sobre ella algumas duvidas sempre nosso padre sustentou, avisando a todos por suas cartas secretamente, que se guardasse assim como estava, o que se faz com bôa satisfação, e assim mesmo approvou outra visita particular do collegio da Bahia, de que se não seguiu menos fructo.

Depois disto teve o padre visitador carta de nosso padre geral, em que lhe dizia que havia de ir para Portugal, e eu havia de ser companheiro do padre provincial Marçal Belliart (XCI); porém se não partisse para esse reino até a chegada do padre Marçal Belliarte. Dahi a um mez, ou pouco mais, recebeu outra do nosso padre, pela qual lhe ordenava que me encarregasse deste collegio da Bahia. Veja Vossa Reverencia qual eu ficarei com um peso tão sobre minhas forças, mas suprirão, como espero da caridade de Vossa Reverencia, seus santos sacrifícios, em que muito me encommendo, etc.

Algumas cousas fez o padre dignas de memória, e muito aceitas aos deste collegio: a primeira foi um poço de noventa palmos de alto, e sessenta em roda, todo empedrado, de boa água, que deu muito allivio a este collegio, que por estar em um monte alto, carecia de água sufficiente para as officinas; e também fez um eirado sobre columnas de pedra, aberto por todas as partes, e fica eminente ao mar, e vãos que estão no porto que servem de repousos; e é toda a recreação deste collegio, porque delle vêem entrar as naus, descobrem bôa parte do mar largo, e ficamos senhores de todo este recôncavo, que é uma excellente, aprazível e desabafada vista; fez uma quinta, e nella umas casas com capella, refeitório, cozinha, uma sala com suas varandas, e um formoso terreiro com uma fonte que lança mais de uma manilha de água, muito sadia para beber; mandou plantar arvores de espinho e outras fructas, que tudo faz uma bôa quinta, que se pôde comparar com as boas de Portugal.

Como o mar andava infestado de francezes e inglezes se deteve o padre Marçal Belliarte com seus companheiros nessa província até 7 de Maio de 87, em que chegaram a Pernambuco, aonde se detiveram até 20 de Janeiro de 88, que entraram nesta Bahia, e foram recebidos dos nossos com grande consolação e alegria, principalmente do padre visitador, que desejava descarregar-se do trabalho que exercitava havia tanto tempo; porém succedeu ao contrario, porque o padre Marçal Belliarte lhe deu uma carta de nosso padre geral, em a qual lhe mandava que lhe desse companheiro e consultores, e fizesse reitores dos collegio e superiores nas residências, e depois de bem informado o padre provincial, havendo bons commodos de embarcação, se partisse para esse reino. Logo succedeu não haver embarcações commodas no porto e foi necessário esperar uma náu bem artilhada de um André Nunes, vizinho do Porto. Determinando o padre de nella se partir, foram tantas as novas que correram dos muitos inglezes e francezes que coalhavam o mar, e da armada do Sr. D. Antônio, que poz em consideração a partida; e como o padre aqui não tinha superior, me

mandou que o tratasse com todos os padres deste collegio, os quais por escripto deram seus pareceres e ainda que a maior parte se inclinava a não se partir pelas razões apontadas, todavia como a náu era boa, com parecer do Bispo e outros Srs. desta cidade se fez á vella no principio de Março de 89, e andando no mar 3 ou 4 dias sem se poderem emmarar mais que 18 até 20 léguas, foi grande a tormenta e tempestade desfeita que tomou a náu de luva e abriu uma água tão grande, que se viram detodos perdidos e tornaram a arribar a esta Bahia. Os padres, o Sr. Bispo e outras pessoas de conta acabaram com elle que não fosse por então, e assim esteve neste collegio com muita consolação nossa até 20 de Maio, em que se partiu para Pernambuco em uma náu do Porto sem artilharia.

Em Pernambuco esteve até á véspera de S. Pedro e S. Paulo, e tomados os pareceres do"padre Luiz da Grã, reitor e mais padres por escripto, se embarcou, dizendo ao padre Luiz da Grã, que lhe parecia havia de ser tomado dos francezes, o que ouvindo o padre Luiz da Grã, pela efficacia com que o padre lho disse, lhe tornou a rogar com outros padres que se não partisse; respondeu-lhe o padre que já Sua Reverencia com os mais, tinham assentado, e elle aceitado aquella obediência como da mão de Deus, e que já estava offerecido a tudo o que Deus delle ordenasse, etc. e assim embarcando-se véspera dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, ao seu dia, com o terral da manhã se fizeram á vella para esse reino; tiveram sempre prospera viagem até á altura de Portugal, em que foram tomados uma manhã de um brechote francez, sem haver alguma resistência, por a náu ser desarmada sem nenhuma defensa, 6 de Setembro.

E posto que Vossa Reverencia lá terá plena informação dos particulares que nella aconteceram, não deixarei de apontar alguns mais principaes, assim como nos relatou o mesmo padre por sua carta, e o padre Francisco Soares (XCII) seu companheiro. Tanto que a náu foi entrada de sete ou oito francezes, o padre se foi ao capitão e lhe disse, que lhe daria algumas cousas que trazia em seu escriptorio, que lhe pedia por mercê lhe deixasse alguns papeis que nelle tinha, pois lhe não serviam; foi com isso contente o capitão, e o padre mandou vir o escriptorio, e lho deu, que era uma peça de estima, de madeira de várias cores e obra bem acabada por um irmão nosso, e insigne carpinteiro e marcineiro, e juntamente alguns rosários de cheiro, pelo que lhe deixou todos os papeis e lhe deu para os metter, um baú do mesmo padre, que já outro francez tinha pilhado, e o capitão lhe prometeu de olho satisfazer. Nove dias os trouxeram os francezes comsigo, nos quaes padeceram muita sede, fome e frio, e máu agasalhado, com que ao padre deu um catarro rijo com febre que o tratou muito mal e poz em risco da vida, mas esta tinham elles tão arriscada que cada dia esperavam pela morte a que estavam offerecidos. Andando com elles appareceu uma formosa náu ingleza, aqui de todo cuidaram não escapar, mas livrou-nos Nosso Senhor, porque se contentou o inglez com perguntar, que porta a náu e respondendo-lhes os francezes que bacalhau, passou; mas não passou a fúria dos francezes, que vendo ir pela água uns papeis, que por serem de segredo o padre os mandou lançar ao mar, e como elles são desconfiados, cuidaram que ia alli alguma traição ou cartas para El-Rei, em que por isso os lançaram ao mar: saltou a fúria nelles, eo capitão com outros tomaram as achas de fogo, e deram uma bôa a cada um dos nossos, ao irmão Barnabé Tello pelo rosto, ao padre Francisco Soares pelas costas, e ao padre por uma coxa, estas são boas piculas sem post pasto: mas não faltou este para o padre visitador, porque, não satisfeito, um delles achou uma tijela de fogo, e lha aremessou á cabeça com tanta força que lhe tratou muito mal um olho; acudiu logo outro francez, e de um rolo que tinha tomado aos padres lhe fez uma pasta e lha poz nelle. Veja vossa Reverencia que caridade esta, não esperada de gente que lhe tinham tomado até as vestes; e porque o padre sem ellas por causa do muito frio e catarro padecia muito, rogaram ao capitão que lhe desse um manto para se abrigar por causa do muito frio; mas pouco lhe durou, porque indo o padre para cima tomar ar e aquentar-se um pouco ao sol, quando tornou se achou sem o manto, que nunca mais appareceu. Outra tribulaçáo grande padeceram espiritual, e foi desta maneira: lançou o padre Francisco Soares uns poucos de papeis do padre pelo botoque de um pipa d’agua salgada, para que lhos não vissem os francezes, e lhe tornassem a dar outras poucas de pancadas. Eis que o capitão manda fusdir a nau e vasar a pipa, os padres que estavam temerosos, temendo que em sahindo os papeis rotos os francezes se indignassem contra elles e os matassem, estando já para sahir os papeis subitamente o capitão e mais francezes se alentaram e foram para a tolda de cima, deixando a pipa que se acabasse de vazar de água, e assim ficaram livres e desassombrados deste perigo; mas não de outro em que um francez tentou o padre visitador, porque dando-lhe em sexta-feira um pouco de toucinho, o padre lançou fora, e o francez desejoso que o comesse lho mettia por força na boca; e porque o padre o lançava fora, instava o francez com uma faca na mão, que lha queria metter pelo rosto e olhos, apertando que comesse, porém vencido da constância do padre desistiu de seu máu intento. Em outro perigo se viram não menor que o passado, e foi que achando um francez uma faca grande e uma moeda de prata junto dos padres, entrou nelle a imaginação que tinham alli aquella faca para com ella lhes fazerem traição e os matarem; porém, respondendo os padres com humildade, que não sabiam quem alli puzera a faca, se deram por satisfeitos; e chegando já junto ria Rochella, encontram um brechote pequeno sem coberta, com três pescadores Bretões, que sahindo de Bordeós aonde foram vender pescados, com tormenta andavam desgarrados por esse mar quasi de todo perdidos, lançaram os francezes sua "lancha fora, e tomaram os pobres pescadores e deram-lhes muitas pancadas, tomaram-lhe o dinheiro e mais que trazia. Nesta embarcação lançaram os padres com alguns marinheiros e passageiros; mas primeiro tornaram a buscar os nossos e abriram o baú dos papeis e sacudiram todos folha e folha, a vêr se achavam algum dinheiro; mas não o achando, tornaram a metter os papeis no báu e os deram aos padres. Não queria o capitão largar o padre visitador, reservando-o para resgate em troco d’alguns parentes seus que foram tomados pelos espanhoes; sabendo isto Manuel Alvares, capitão da náu portugueza, lhe pediu que o largasse que lhe não dariam nada por elle, que era muito doente, e lhe morreria sem alcançar o que pretendia. E um João Alvares, mestre da náu portugueza, irmão do dito capitão Manuel Alvares, que estava muito ferido de uma arcabuzada pelo rosto, e uma cutilada pela cabeça pediu também ao capitão francez que deixasse ir com elle, e com os mais o padre porque d’outra maneira sem falta morreria; e assim o largou e deixou embarcar. Estavam da costa setenta até oitenta léguas, e com uma fraca vella esfarrapada, e dous remos, com um barril de cerveja bem negra, e um pouco de biscoito pouco alvo e quasi podre; veja Vossa Reverencia que deshumanidade esta, parece que os largaram para morrer nesse mar, pois os largavam em bôa embarcação, e com tal matolagem. Começaram sua perigosa e venturosa viagem: acudiu-Ihes Nosso Senhor com um bom vento galerno, que em dous dias e meio os levou á Biscaia, porto de Santo André. Sahiram em terra muito desfigurados de fome, rotos, maltratados de frio, e tão lastimosos que as verdadeiras pelas ruas offereciam aos padres das maçãs e fructas que vendiam; iam elles tão desfallecidos que nada lhes aceitaram por estarem mais para morrer, do que para comer. A esta urgente necessidade lhes acudiu Nosso Senhor com sua misericórdia, por meio de um abbade de bago, isento administrador eclesiástico, irmão do nosso padre Dessa, que era como bispo daquella terra; este sabendo que eram da Companhia, e foram roubados, os mandou agasalhar em uma estalagem,aquelle sabbado, 15 de setembro, e lhes mandou dar um prato de meudos, pão, vinho e maçãs, com que em alguma maneira se refizeram; e mostrando-lhe o padre a patente, como os reconheceu de todo por da Companhia, os levou para sua casa, e metteu em uma câmara onde os regalou com abundância, pondo-os á sua mesa por espaço de cinco ou seis dias, nos quaes se refizeram de roupa, e tornaram em cavalgaduras até Burgos: de Burgos a Valhadoli, e dali até Bragança, passaram no caminho muitos frios e incommodidades, com que acabaram de perfeiçoar sua viagem, e Nosso Senhor terá lembrança de lhe dar os prêmios destes trabalhos em sua gloria.

Quoniarn beatus vir quisuffert tentationem: qui cum probatus fuerit, accipiet coronam vitae, etc.

Da Bahia, a 1 de Maio de 90. De V. R. Filho indigno em Christo N. Senhor. -FERNÃO CARDIM.

mai 232009
 
Marechal deodoro da fonseca

Dos Príncipios e Origens dos Índios no Brasil de Fernão Cardim, Introdução de Capistrano de Abreu

INTRODUÇÃO

(1a. edição de 1881)

O pequeno tratado sobre os índios que agora publicamos, ainda não foi impresso em português. Poucas pessoas examinaram-no em Évora, onde está o manuscrito original, e estas o não julgaram, ao que parece, digno de ser posto em circulação.

Os ingleses não pensaram do mesmo modo: desde 1625 está ele traduzido em sua língua e faz parte da curiosa e raríssima coleção de Purchas. Foi aí que o lemos pela primeira vez e reconhecemos o seu interesse e seu valor.

Desde então fizemos o projeto de passá-lo novamente a nossa I íngua, e de dá-lo à luz quando nos fosse possível. Duas circunstâncias felizes facilitaram a realização deste plano. A primeira foi encontrar cópia tirada do original, que assim dava não só a essência como a forma do escrito e nos livrava da tradução, isto é, da traição. A segunda foi a comissão que nos confiou o dr. Ferreira de Araújo de publicar a sua custa um trabalho qualquer, que mostrasse a sua simpatia pela Exposição de Histó­ria e Geografia do Brasil, organizada pela Biblioteca Nacional.

Este tratado dos índios do Brasil suscita algumas questões que fora convenien­te discutir. Passaremos, porém, por todas elas para nos ocuparmos unicamente de uma: quem é o seu autor?

0 manuscrito da Biblioteca de Évora em nada nos esclarece a este respeito, porque é anônimo. As poucas palavras com que Purchas acompanha a tradução pouco nos adiantam. Ele atribui o opúsculo ao irmão Manuel Tristão, enfermeiro do Colégio dos Jesuítas da Bahia, fundando-se na circunstância do livro trazer no fim algumas receitas medicinais, e ter em uma parte escrito o seu nome. Ora, esta opinião é insustentável. O fato de um ms. trazer um nome qualquer, sem outra declaração, provará, quando muito, que assim se chama o dono do códice. Acresce que um irmão na Companhia de Jesus era sempre um rapaz que começava, e não tinha nem podia ter a madurez de espírito e os conhecimentos que aqui se revelam a cada passo, ou homem feito que, apesar de inapto para a carreira das letras, possuía outras qualida­des que poderiam ser úteis à poderosa Companhia de Jesus. Provavelmente era este o caso do enfermeiro.. . Quanto às receitas por si nada provam: quando muito mos­trarão que foram ensinadas pelo enfermeiro.

Estas dúvidas quanto à afirmação de Purchas sobre quem era o autor do li­vro afirmação aliás feita em termos pouco positivos, cresceram à medida que


conhecemos melhor o opúsculo traduzido por ele. A cada instante encontrávamos frases e locuções familiares; a cada passo nos parecia que já tínhamos lido coisa que se assemelhava ao que estávamos lendo.

O autor de quem nos lembrávamos lendo Purchas era Fernão Cardim. E então veio-nos ao espírito uma interrogação: quem sabe se em vez de Manuel Tristão não será Fernão Cardim o autor deste opúsculo?

Para chegar a uma solução as provas intrínsecas eram sem dúvida valiosas, po­rém não bastavam: era preciso recorrer antes às provas intrínsecas.

Felizmente estas não faltavam.

I. Diz Purchas que o ms. que reproduz foi tomado em 1601 por Francis Cook a um jesuíta que ia para o Brasil. Ora, exatamente neste ano, como se pode ver na Synopsis de Franco, o padre Fernão Cardim, que voltava para o Brasil da viagem a Roma, foi aprisionado por corsários ingleses e conduzido para Inglaterra.

II. Pela página 195 deste opusculo se vê que ele foi escrito em 1584. Ora, nes­te tempo estava Fernão Cardim no Brasil, onde, como se vê na Narrativa epistolar (p. 252), ele chegou a 9 de maio de 1583, em companhia do padre Cristóvão de Gouveia e de Manuel Teles Barreto, que vinha por governador-geral.

Estas duas coincidências, davam um fundamento sólido à hipótese; mas para torná-la certa devia se recorrer às provas intrínsecas, à comparação dos estilos, ao cotejo das opiniões, etc. No caso presente estas provas têm valor porque, se o opúsculo aqui publicado é de 1584, a primeira parte da Narrativa epistolar é de 16 de outubro de 1585. Escrevendo em dois períodos tão próximos um do outro, é na­tural que, se o opúsculo sobre os índios é da mesma pena que a Narrativa epistolar, não só haja conformidade de idéias como também de forma.

Vamos tratar destas provas, mas antes de fazê-lo, é necessária uma observação. Purchas reúne sob o título genérico de Treatise of Brasil, dois trabalhos que se com­pletam e são do mesmo autor. Um é o dos índios que agora publicamos; outro é das árvores, peixes, etc, que, embora interessante, não quisemos incorporar a este por dois motivos: o primeiro é que na mente do autor eles eram independentes, como se prova pelo fato de no ms. de Évora eles estarem separados; o segundo é que da se­gunda parte já começou a publicação o dr. Fernando Mendes na Revista mensal da Sociedade de Geografia.

Todavia, aqui faremos os cotejos tanto da primeira parte como da segunda, de que o dr. Fernando Mendes obsequiosamente nos comunicou a cópia que possui.

Em cada oca destas ha sempre um principal, a que tem alguma maneira de obrar. . . Este o exhorta a fazerem suas roças e mais serviços, etc, excita-os á guerra; e lhe tem em tudo respeito; faz-lhe estas exhortações por modo de pregação, come­ça de madrugada deitado na rede por espaço de meia hora, em amanhecendo se le­vanta, e corre toda a aldêa, continua sua pregação, a qual faz em voz alta, mui pau­sada, repetindo muitas vezes as palavras. (Narrativa epistolar, p. 272).


. . . pelas madrugadas ha um principal em suas ocas, que deitado na rede por espaço de meia hora, lhes prega e admoesta que vão trabalhar, como fazião seus antepassados, e distribue-lhes o tempo, e depois de alevantado continua a pregação, correndo a povoação toda. (índios, pp. 146-147).

A semelhança no seguinte trecho não é menos incontestável:

. . . Dentro nellas vivem logo cento ou duzentas pessoas, cada casal em seu ran­cho, sem repartimento nenhum, e morão d’uma parte e outra, ficando grande largu­ra pelo meio e todos ficão como em communidade, e entrando-se na casa se vê quanto nella está, porque estão todos á vista uns dos outros, sem repartimento nem divisão; e como a gente é muita, costumão ter fogo dia e noite, verão e inverno, por­que o fogo é sua roupa e elles são mui coitados sem fogo; parece a casa um inferno ou labyrintho; uns cantão, outros chorão, outros comem, outros fazem farinha e vi­nhos, etc, o toda a casa arde em fogos. (Narrativa, p. 271).

Nesta casa mora um principal ou mais, a que todos obedecem e são, de ordi­nário, parentes; e em cada lanço destes pousa um casal com seus filhose família, sem haver repartimento entre uns e outros, e entrar em uma destas é ver um labyrintho, porque cada lanço tem seu fogo e suas redes armadas e alfaias de modo que entran­do nella se vê tudo quanto tem; e casa ha que tem duzentas e mais pessoas. (índios, p. 149).

Compare-se mais o seguinte:

Os pais não tem cousa que mais amem que os filhos, e quem a seus filhos faz algum bem, tem dos pais quanto quer; as mães os trazem em uns pedaços de redes, a que chamão typoya, de ordinário os trazem às costas ou na ilharga escarranchados, e com elles andão por onde quer que vão, com elles às costas trabalhão por calmas, chuvas e frio; nenhum gênero de castigo têm para os filhos. (Narrativa, p. 274).

Amão os filhos extraordinariamente, e trazem-nos mettidos nuns pedaços de rede que chamão typoia e os levão ás roças e a todo gênero de serviço, ás costas, por frios e calmas, e trazem-nos como ciganos, escarranchados no quadril, e não lhes dão nenhum gênero de castigo. (Indios, p. 150).

Compare-se mais:

E’ cousa não somente nova, mas de grande espanto, vêr o modo que têm em agasalhar os hospedes, os quaes agasa/hão chorando por um modo estranho, e a cou­sa passa desta maneira: Entrando-lhe algum amigo, parente ou parenta pela porta, se é homem logo se vai deitar em sua rede sem fallar palavra, as parentas também sem faliar o cercão, deitando-lhes os cabellos soltos, e os braços ao pescoço, lhe to-cão com a mão em alguma parte do seu corpo, como joelho, hombro, pescoço, etc, estando deste modo, tendo-no meio cercado, comecao de lhe fazer a festa que é a maior e de maior honra que lhe podem fazer; chorão todos com lagrimas a seus pés, correndo-lhe em fio, como se lhe morrera o marido, pai ou maês; e juntamente dizem em trova de repente todos os trabalhos que no caminho poderia padecer tal hospe­de, e o que elles padecerão em sua ausência. . . Acabada a festa e recebimento, lim pão as lagrimas com as mãos e cahellos, ficando tão alegres e serenas como que se nunca chorarão, e depois se saudão com o seu Ereiúpe e comem, etc. (Narrativa, p. 273-274).

Entrando-lhe algum hospede pela casa, a honra e agazalho que lhe fazem é chorarem-no: entrando, pois, logo o hospede na casa, o assentão na rede, e depois de assentado, sem lhe faltarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentam ao redor, com os cahellos baixos, tocando com a mão na mesma pessoa, e começão a chorar em altas vozes, com grande abundância de lagrimas, e ali contão em prosas trovadas quantas cousas têm acontecido desde que se não virão até aquella hora, e outras muitas que imaginão, e trabalhos que o hospede padeceu pelo caminho, e tudo o mais que pôde provocar a lastima e choro. O hospede neste tempo não falia palavra, mas depois de chorarem por bom espaço de tempo limpão as lagrimas e ficão tão quietas, modestas, serenas e alegres que parece nunca chorarão, e logo se saudão e dão o seu Ereiúpe, e lhe trazem de comer, etc; e depois destas ceremonias contão os hospedes ao que vêm. (índios, p. 150-151).

Coteje-se ainda:

Tem muitos jogos, a seu modo, que fazem com muito mais alegria que os me­ninos portuguezes, nesses jogos arremedam vários pássaros, cobras e outros animaes, etc, os jogos são mui graciosos e desenfadiços, nem ha entre elles desavença, nem queixumes, pellejas, nem se ouvem pulhas, ou nomes ruins e deshonestos. (Narrati­va, p. 274).

Tem seus jogos, principalmente os meninos, mui vários e graciosos, em os quaes arremedam muitos gêneros de pássaros, e com tanta festa e ordem que não ha mais que pedir, os meninos são alegres e dados a folgar e folgão com muita quie-tação e amizade que entre elles não se ouvem nomes ruins, nem pulhas, nem cha­marem nomes aos pais e mães, e raramente quando jogão se desconcertão, nem desavêm por causa alguma, e raramente dão uns nos outros e nem pelejão. (índios, p. 154).

Parece-nos incontestável a identidade fundamental entre os extratos que de­mos de Narrativa epistolar de Fernão Cardim, publicada em 1847 e o tratado dos índios que agora publicamos.” Há simplesmente duas diferenças; a Narrativa foi diri­gida a um amigo e nela o autor deixou seu estilo correr mais livremente, desenvol­vendo certos pontos de preferência, referindo-se a objetos conhecidos pelo seu lei­tor; no opúsculo sobre os índios ele é mais conciso. Além disso a Narrativa trata dos índios, apenas como acidente da viagem, como adorno da paisagem; no Tratado, os


índios são o objeto principal, e assim os esclarecimentos são mais condensados e encadeados uns aos outros.

Vamos dar mais dois excertos da segunda parte que o dr. F. Mendes começou a publicar na Revista da Sociedade Geográphica. Servir-nos-emos do seu ms., porém, como ainda não está todo publicado, daremos as páginas pelo IVo volume de Pur-chas, onde a primeira e a segunda parte estão impressas, como já fica dito.

O primeiro é sobre o caju:

Comemos debaixo de um cajueiro muito fresco, carregado de acajus, que são como peros repinaldos ou camoezes, são uns amareilos, outros vermelhos, têm sua castanha no olho, que nasce primeiro que o pero, na qual procede o pero; é fructa gostosa, boa para o tempo de calma e toda se desfaz em summo, o qual põe nodoas em roupa de linho ou algodão que nunca se tira.

Das castanhas se fazem maçapães e outras cousas doces, como de amêndoas: as castanhas são melhores que as de Portugal, a arvore é fresca, parece-se com os cas­tanheiros, perde a folha de todo. (Narrativa epistolar, p. 275).

Estas arvores são muito grandes formosas, perdem a folha em seu tempo, e a flor se dá em os cachos que fazem umas pontas como dedos, e nas ditas pontas nas­ce uma flor vermelha de bom cheiro, e após ella nasce uma castanha, e da castanha nasce um pomo do tamanho de um repinaldo ou maçã camoneza; é fructa muito formosa, e são alguns amarellos, outros vermelhos e tudo é summo: são bons para a calma, refrescam muito e o summo põe nodoa em panno branco que se não tira senão quando se acaba. A castanha é tão boa ou melhor que a de Portugal, comem-se assadas e cruas, deitadas em água como amêndoas piladas dellas fazem maçapães e bocados doces. (Purchas, IV. p. 1306).

O segundo é sobre a mangaba:

Caminhamos toda tarde por uns mangabaes que se parecem alguma cousa com maceiras de anafega, dão umas mangabas amarellas, do tamanho e feição de alborque, com muitas pintas pardas que lhe dão muita graça; não têm caroço, mas umas pevi-des mui brandas que também se comem, a fructa é de maravilhoso gosto, tão leve e sadia que, por mais que uma pessoa coma, não ha fartar-se, sorvem-se como sorvas, não amadurecem na arvore; mas cahindo amadurecem no chão ou pondo-as em ma­durei ros; dão no anno duas camadas, a primeira se diz do botão e da flor, mas o mesmo botão é a fructa. Estas são as melhores, e maiores e vêm pelo Natal, a segunda cama­da é de flor alva como neve, da própria maneira que a de jasmim, assim na feição, tamanho e cheiro. (Narrativa, p. 276).

Destas arvores ha grande cópia, maximé na Bahia, porque nas outras partes são raras; na feição se parece com maceira de anafega e na folha com a de freixo; são arvores graciosas e sempre têm folhas verdes. Dão duas vezes por anno, a primeira de botão, porque não deitão então flôr, mas o mesmo botão é a fructa; acabada esta camada que dura dous ou três mezes, dá outra, tornando primeiro flor a qual é toda como de jasmim, e de tão bom cheiro, mas mais esperto a fructa é do tamanho de abricós, amarellas e salpicada de algumas pintas pretas, dentro tem algumas pevides, mas tudo se come ou sorve como sorvas de Portugal; são de muito bom gosto, sadias e tão leves que por mais que comão, parece que não comem fructa; não amadure­cem na arvore, mas cahem no chão e d’ahi as apanhão já maduras, ou colhendo-as verdes as põem em madureiros. (Purchas, IV, p. 1307).

A esses trechos poderíamos juntar muitos outros. Poderíamos mostrar que na segunda parte do Tratado, o autor diz que viajava durante léguas e léguas de mangue, o que está de acordo com a Narrativa epistolar; que ainda na segunda parte do Tra­tado ele refere-se a bichinhos que atacam de preferência aos europeus chegados de fresco, o que está de acordo com a Narrativa, p. 298, onde se lê que o padre Cristó­vão de Gouveia ficou cheio de postemas em conseqüência das mordeduras de carra-patos que sofreu em Pernambuco. Não o fazemos, porque uma demonstração mais longa é dispensável. A melhor demonstração só o leitor pode fazer, comparando a encantadora Narrativa com este opúsculo, que por nossa parte não achamos menos encantador e aprazível. Passaremos, pois, a dar conta do nosso trabalho de editor.

Desde que tomamos a responsabilidade dessa publicação, entendemos de nos­so dever precedê-la da biografia do autor. Para este fim tomamos copiosas notas de Jarric, Vieira, Simão de Vasconcelos, Sebastião de Abreu e Franco. Infelizmente estas notas são insuficientes e deixam sem o mínimo esclarecimento anos e anos de vida de Fernão Cardim. A vista disto resolvemos adiar para mais tarde esta empresa que a antiga simpatia que lhe votamos e o muito que temos aprendido em seus livros converteram em obrigação, ao mesmo tempo indeclinável e deliciosa.

Antes de terminar: adotamos em volume a ortografia moderna, em parte leva­do pelo exemplo de Varnhagen, em parte pelas muitas irregularidades de cópia, feita por pessoa de muito poucas habilitações. Juntamos algumas variantes de Purchas, algumas das quais não deixam de ter importância e que são preciosas, principalmen­te nas palavras abanheengas, que muitas vezes reproduzem menos deturpadas.

Circunstâncias que não vêm ao caso mencionar, impediram que este opúsculo visse a luz no tempo da Exposição de História e Geografia do Brasil. Daí não resul­tou inconveniente, pois a Exposição de História não foi menos brilhante, nem menos assinalados foram os serviços prestados pelo Catalogo destinado a perpetuar a sua lembrança.

E se inconveniente houve, ressarciu-o completamente o fato desta demora perrnitir que o presente livro fosse anotado pelo dr. Batista Caetano de Almeida Nogueira.

Durante uma vida laboriosa, o dr. Batista Caetano tem feito das línguas brasilicas o seu estudo predileto. Foi ele quem primeiro nos deu uma gramática e um dicionário da língua abanheenga, feito pelos processos modernos. A lingüística com parativa dará um passo agigantado em nosso continente, se ele puder, como preten­de, publicar o seu Panlexicon, em que trabalha vai para trinta anos.

As notas do dr. Batista Caetano são especialmente etimológicas, porém não o são exclusivamente. Muitas vezes, levado pelo assunto, expôs de passagem as suas idéias sobre as migrações sul-americanas, e sobre as relações que ligam uma às outras tribos.

A sua importância é, portanto, patente.

E agora só resta dizer ao leitor o tolle et lege do costume; e pedir ao amigo ausente desculpa por não ter realizado a empresa que nos incumbiu de modo con­digno com o elevado sentimento que a inspirou.

J. CAPISTRANO DE ABREU

Rio, novembro de 1881.

mai 222009
 
Marechal deodoro da fonseca

Anchieta

padre anchietaQuando Anchieta estava à bei­ra da praia, a maré, para não lhe molhar os pés, deixava de encher.

(Da  lenda popular)

Na imensa brancura da praia a mancha negra do vulto de Anchieta.

Em Iperoígue, ao cair da tarde. O mar rasgado não tem fim. É um dia de céu azul, de nuvens rendadas pelo céu, de brisas doces e de gaivotas bran­cas. A praia, como uma toalha estendida ao sol, é tão alva e tão alva, que a gente pensa ter sido com espuma do mar que Deus formou a areia.

A maré vazou há tanto tempo que já deve ser hora de começar a encher.

Nem uma ubá(1> cabocla baloiça nas ondas. Nem uma buzina tamoia soa nos ares. Nada. Tudo tranqüilo como se a natureza estivesse aproveitando aquela tranqüilidade para dormir.

(1)     U—  canoa de índios


Somente lá em cima, no arvoredo, como que a embalar o sono da natureza — a cantiga das cigarras.

Na areia úmida Anchieta vai vagarosamente escre­vendo com o bastão.

Ao pisar naquela terra viera-lhe à cabeça a idéia de compor um poema dedicado à Virgem Maria. E eram os primeiros versos desse poema que agora escrevia na areia.

Já fazia muitas semanas que ele estava ali em Ipe-roígue, no meio dos índios selvagens. Viera de São Vicente acompanhando o padre Manuel da Nóbrega. Tinham vin­do pedir paz aos índios,. tinham vindo pedir aos chefes tamoios que desistissem da guerra que eles de novo pre­paravam contra os portugueses.

Se havia no mundo guerra justa havia de ser aquela dos selvagens contra os civilizados. Era a indignação do povo livre contra o povo que o queria escravizar. Os por­tugueses todos os dias arrasavam aldeias para reduzir os indígenas ao cativeiro. A explosão de revolta tinha que dar-se e deu-se com o ataque de Piratininga.

Era em Piratininga que viviam os mais ferozes escra-vizadores dos filhos da selva. E um dia, quando ninguém espera, a vila é atacada brutalmente.

Não é apenas uma aldeia ou uma tribo a atacá-la, é todo o povo caboclo que sofre a destruição dos escraviza-dores: os tamoios, os guaianás, os tupiniquins, os carijós.

O choque é tremendo. Afinal, ajudada por Tibiriçá, a vila consegue vencer os atacantes.

Mas a derrota, em vez de desanimar os indígenas, os irritou ainda mais.  Das matas de Piratininga às praias do Rio de Janeiro, ouviu-se a voz da inúbia guerreira convi­dando todas as tribos caboclas para a vingança.

Aimberé, Grão-Palmeira, Cunhambebe, Coaquira, Pa-ranaguaçu, enfim todos os grandes caciques das selvas, for­maram os seus exércitos. Muito, muito mais de cem mil homens já estavam preparados para atacar os portugueses. Seria o arrasamento. Em S. Vicente, em Piratininga, em toda parte onde houvesse sombra de europeu, não ficaria pedra sobre pedra.

Não seria apenas o arrasamento de uma, de duas, ou mais vilãs, seria a extinção do domínio português no Brasil.

Era preciso pedir paz aos índios. Pedir, como, se deles ninguém podia ao menos aproximar-se?!

Havia alguém que tivesse coragem de ir falar em paz a algum dos chefes? Havia. Havia Nóbrega, o superior dos jesuítas. Iria a Iperoígue entender-se com Grão-Pal­meira e Coaquira, os dois caciques mais velhos e mais cordatos.

E foi a ele, Anchieta, que o superior dos jesuítas esco­lhera para o acompanhar a Iperoígue.

Tinham sido tremendos os primeiros dias que os dois passaram entre os selvagens. A vida de ambos andou por um triz nas mãos daquela gente.

Mas Nóbrega, com a sua bondade, estava pouco a pouco acalmando os ódios. Havia duas semanas que anda­va nas aldeias distantes convencendo os chefes indígenas de que deviam desistir da guerra.

Ele, Anchieta, ficara ali em Iperoígue, acalmando tam­bém a raiva dos caciques.

 


As horas eram-lhe amargas. Todos os dias os índios lhe faziam ameaças de morte.

Felizmente Deus lhe dava a inspiração do poema dedi­cado à Virgem Maria. Felizmente, porque a febre daquela inspiração punha a sua alma inteiramente esquecida do mundo.

*

Naquela tarde tranqüila, de céu azul, de gaivotas brancas, Anchieta começava a escrever o poema. Como não houvesse papel, escrevia na areia e guardava os versos

na memória,

As estrofes surgiam-lhe inteiras, cantantes, musicais, iluminadas. Transfigurado, ele ia escrevendo, escrevendo. E5 à proporção que escrevia, pouco a pouco, sem dar por isso, aproximava-se cada vez mais do mar.

Versos, versos, dezenas, centenas de versos lhe bro­tavam na cabeça.

A tarde desmanchava-se em ouro. O mar dourava-se à luz da tarde.

Soprava agora um vento mais vivo. As vagas não eram mais o veludo macio de horas antes; agora cresciam cres­pas, nervosas, avolumadas. Sentia-se que era a maré que estava enchendo. Em breve o alvíssimo lençol da praia desapareceria coberto pelas águas verdes.

Mas o que então se passa é um acontecimento prodi­gioso, tão prodigioso que, lá em cima, na ribanceira, onde se erguem as ocas tamoias, os índios ficam boquiabertos.

 

E que é que se passa? Isto.

Umas atrás das outras, as ondas da maré que enche, vêm rolando e correndo para a praia. Mas Anchieta está à beira d’água absorto, escrevendo. E, ao vê-lo, as ondas param, como se não quisessem perturbá-lo.

Outras vagas, em seguida, vêm chegando e, ao ver as companheiras paradas, param também.  O vento começa a soprar fortemente.   Ondas, ondas às dezenas, às centenas, aos milhares, vêm correndo.  E todas param ali, umas ca­valgando as outras, fervendo, espumando, na inquietação de avançar e de espraiar-se.   E vai crescendo o volume líquido e vai-se formando a montanha d’água. O mar inteiro ruge como enjaulado. Lá em cima, na ribanceira, os índios, surpreendidos por aquele acontecimento nunca visto, gritam alarmados para Anchieta:

— Sai, abaré("), sai!

Ele não ouve, A sua alma está fora da terra, no mundo luminoso da inspiração.

Mais e mais ondas, sempre mais grossas, mais altas. E a montanha d’água a crescer, a subir, a ferver, a espumar.

— Sai, abaré, sai!

"Uma pedra, atirada da ribanceira, cai-lhe junto aos pés. Anchieta desperta. A muralha líquida que lhe ruge à fren­te, mete-lhe medo.

Corre, afasta-se, sobe a ladeira da aldeia.

 


E quando ele chega lá em cima todo aquele colosso de ondas desaba estrepitosamente. Num segundo, a toalha infinita da praia fica coberta de água verde e de espumas brancas.

A natureza de novo se tranqüiliza.

O sol derrama no poente uma chuva de ouro.

Todas as nuvens do céu estão douradas.


Estão douradas as próprias gaivotas brancas.

mai 212009
 
Marechal deodoro da fonseca

Fernão Cardim (1540? – 1625) – Tratados da Terra e Gente do Brasil

X

DAS ERVAS QUE SÃO FRUCTO E SE COMEM

 

Mandioca O mantimento-ardinario desta terra que serve de pão se chama mandioca, e são humas raizes como de cenouras, ainda que mais grossas e compridas. Estas deitão humas varas, ou ramos, e crescem até altura de quinze palmos. Estes ramos são muito tenros, e têm num miolo branco por dentro, e de palmo em palmo têm certos nós. E desta grandura se quebrão, e plantão na terra em huma pequena cova, e lhes ajuntão terra ao pé, e f icão mettidos tanto quanto basta para se terem, e dahi a seis, ou nove mezes têm já raizes tão grossas que servem de mantimento.

Contém esta mandioca debaixo de si muitas espécies, e todas se comem e conservão-se dentro na terra, três, quatro, e até oito annos, e não he necessário celeiro, porque não fazem senão tiralas, e fazer o mantimento fresco de cada dia, e quanto mais estão na terra, tanto mais grossas se fazem, e rendem mais.

Tem algumas cousas de notas, sc, que tirado o homem, todo animal se perde por ella crua, e a todos engorda, e cria grandemente, porém se acaba de expremer, beberem aquella água só por si, não têm mais vida que em quanto lhe não chega ao estômago. Destas raizes exprimidas, e raladas se faz farinha que se come; também se deita de molho até apodrecer, e depois limpa, expremida, se faz também farinha, e huns certos beijús como filhos, muito alvos, e mimosos. Esta mesma raiz depois de cortida n’agua feita com as mãos em pilouros se põe em caniços ao fumo, onde se enxuga e seca de maneira que se guarda sem corrupção quanto querem e raspada do fumo, pisada em huns pilões grandes, e peneirada, fica huma farinha tão alva, e mais que de trigo, da qual misturada em certa tempera coma crua se faz uma farinha biscoitada que chamão de guerra, que serve aos índios, e portuguezes pelo mar, e quando vão á guerra como biscoito. Outra farinha se faz biscoitada da mesma água da mandioca verde se a deixão coalhar e enxugar ao sol, ou fogo; esta he sobre todas alvissi-ma, e tão gostosa, e mimosa que não faz para quem quer. Desta mandioca curada ao fumo se fazem muitas maneiras de caldos que chamão mingáos, tão sadios, e delicados que se dão aos doentes de febres em lugar de amido, e tizanas, e da mesma se fazem muitas maneiras de bolos, coscorões, fartes, empenadilhas, queijadinhas d’açucar,&., e misturada com farinha de milho,- ou de arroz, se faz pão com fermento, e levedo que parece de trigo. Esta mesma mandioca curada ao fumo he grande remédio contra a peçonha, principalmente de cobras. Desta mandioca ha huma que chamão aipim que contém também debaixo de si muitas espécies. Esta não mata crua, e cozida, ou assada, que he de bom gosto, e delia se faz farinha,e beijús, &.. Os Índios fazem vinho delia, e he tão fresco e medicinal para o f igado que a elle se attribue não haver entre elles doentes do figado. Certo gênero de Tapuyas come a mandioca peçonhenta crua sem lhe fazer mal por serem criados nisso.

Os ramos desta erva, ou arvores são a mesma semente, porque os paos delia se plantão, as folhas, em necessidade, cozidas servem de mantimento.

Naná Esta erva he muito commum, parece-se com erva babosa, e assi tem as folhas, mas não tão grossas e todas em redondo estão cheia de huns bicos muito cruéis; no meio desta erva nasce huma frueta como’pinha, toda cheia de flores de varias cores muito formosas, e ao pé desta quatro, ou cinco olhos que se plantão; a frueta he muito cheirosa, gostosa, e huma das boas do mundo, muito cheia de sumo e gostoso, e tem sabor de melão ainda que melhor, e mais cheiroso: he boa para doente de pedra, e para febres muito prejudicial. Desta frueta fazem vinho os índios muito forte, é de bom gosto. A casca gasta muito o ferro ao aparar, e o sumo tira as nodoas da roupa. Ha tanta abundância desta fructa que se cevao os porcos com ella, e não se faz tanto caso pela muita abundância: também se fazem em conserva, e cruas desenjoao muito no mar, e pelas manhãs com vinho são medicinaes.

Pacoba — Esta he a figueira que dizem de Adão, nem he arvore, nem erva, porque por huma parte se faz muito grossa, e cresce até vinte palmos em alto; o talo he muito molle, e poroso, as folhas que deita são formosíssimas e algumas de comprimento de huma braça, e mais, todas rachadas como veludo de Bragança, tão finas que se escreve nellas, tão verdes, e frias, e frescas que deitando-se um doente de febres sobre ellas fica a febre temperada com sua frialdade; são muito frescas para enramar as casas e Igrejas. Esta erva deita em cada pé muitos filhos, cada um delles dá hum cacho cheio de huns como figos, que terá às vezes duzentos, e como está de vez se corta o pé em que está o cacho, e outros vão crescendo, eassi vão multiplicando in infinitum; a fructa se põe a madurar e fica muito amarella, gostosa, e sadia, maximé para os enfermos de febres, e peitos que deitarão sangue; e assadas são gostosas e sadias. He fructa ordinária de que as hortas estão cheias, e são tantas que he huma fartura, e dão-se todo o anno.

Maracujá Estas ervas são muito formosas, maximé nas folhas; trepão pelas paredes, e arvores como a hera; as folhas expremidas com verdete he único remédio para chagas velhas, e boubas. Dá huma fructa redonda como laranjas, outras á feição do ovo, huns amarellos, outros pretos, e de outras varias castas. Dentro tem huma substância de pevides e sumo com certa teia que as cobre, e tudo junto se come, e he de bom gosto, tem ponta de azedo, e he fructa de que se faz caso.

Nesta terra ha outros gêneros muitos de fructas, como camarinhas pretas, e vermelhas, batatas, outras raizes que chamao mangará, outra que chamao cará, que se parece com nabos, e tuberas da terra. Das batatas fazem pão e varias cousas doces; têm estes índios outros muito legumes, se, favas, mais sadias e melhores que as de Portugal, e em grande abundância, muitos gêneros de abóboras, e algumas tão grandes que fazem cabaças para carretar água que levarão dous aimudes, ou mais:feijões de muitas castas, são gostosos, e como os de Portugal. Milho de muitas castas, edelle fazem pão, vinho, e se come assado e com elle engordão os cavallos, porcos, gallinhas, & ., e humas tajaobas, que são como couves, e fazem purgar, e huma erva por nome Jambig, único remédio para os doentes de figado e pedra; também ha muitos gêneros de pimentas, que dão muito gosto ao comer.

XI

DAS ERVAS QUE SERVEM PARA MEZINHAS

Tetigcucú — Este he o Mechoacão das Antilhas; são humas raizes compridas como rabãos, mas de bôa grossura, serve de purga; toma-se esta raiz moida em vinho, ou agua para febres, toma-se em conserva de açúcar como marmellada, coze-se com gallinha, faz muita sede, mas he proveitosa, e obra grandemente.

Igpecacóaya — Esta erva he proveitosa para câmaras de sangue: a sua haste he de comprimento de hum palmo, e as raizes de outro,ou mais; deita somente quatro ou cinco folhinhas, cheira muito onde quer que está, mas o cheiro he fartum e terrível; esta raiz moida, botada em huma pouca d’agua se põe a serenar huma noite toda, e pela manhã se aquenta a água com a mesma raiz moida, e coada se bebe somente a água, e logo faz purgar de maneira que cessão as câmaras de todo.

Cayapiá Esta erva ha pouco que he descoberta, he único remédio para pe-çonha de toda sorte, maximé de cobras, e assi se chama erva de cobra, e he tão bom remédio como unicornio de Bada, pedra de bazar, ou coquo de Maldiva. Não se aproveita delia mais que a raiz, que he delgada, e no meio faz hum nó como botão; esta moida, deitada em água e bebida mata a peçonha da cobra; também he grande remédio para as feridas de frechas ervadas, e quando algum he ferido fica sem medo, e seguro, bebendo a água desta raiz; também he grande remédio para as febres, conti-nuando-a, e bebendo-a algumas manhãs; cheira esta erva á folha de figueira de Espanha.

Tareroquig — Também esta erva he único remédio para câmaras de sangue: as raizes são todas retalhadas, os ramos muito delgadinhos, as folhas parecem de alfa-vaca, as flores são vermelhas, e tirão algum tanto roxo, e dão-se nas pontinhas. Desta ha muito abundância, quando se colhe he amarella, e depois de seca fica branca; toma-se da própria maneira que a precedente. Com esta erva se perfumão os índios doentes para não morrerem, e para certa enfermidade que he commum nesta terra, e que se chama doença do bicho, he grande remédio, serve para matar os bichos dos bois, e porcos, e para postemas. Esta erva toda a noite está murcha, e como dormente, e em nascendo o sol torna a abrir, e quando se põe torna a fechar.

Goembegoaçú Esta erva serve muito para fluxo de sangue, maximé de mulheres; as raizes são muito compridas e algumas de trinta, e quarenta braças. Tem huma casca rija, de que se fazem muito fortes cordas, e amarras para navios, e são de muita dura, porque n’agua reverdecem; esta tomando-a, se a casca della, e defumando a pessoa em a parte do fluxo, logo estanca.

Caáobetinga Esta erva he pequena, deita poucas folhas, as quaes começa a lançar logo da terra, são brancas, de banda de baixo, e de cima verdes, deitão huma. flor do tamanho de avelã; as raizes, e folhas pisadas são excellente remédio para chagas de qualquer sorte, e também se usa da folha por pisar, a qual posta na chaga pega muito e sara.

Sobaúra Esta erva serve para chagas velhas, que já não têm outro remédio: deita-se moida e queimada na chaga, logo come todo o câncer, e cria couro novo; também se põe pisada e a folha somente para encourar.

Erva santa Esta erva santa serve muito para varias enfermidades, como feridas, catarros, &., e principalmente serve para doentes da cabeça, estômago e asmati-cos. Nesta terra se fazem humas cangueras de folha de palma cheia desta erva seca, e pondo-lhe o fogo por huma parte põem a outra na boca, e bebem o fumo; he huma das delicías, e mimos desta terra, e são todos os naturaes, e ainda os portuguezes perdidos por ella, e têm por grande vicio estar todo o dia e noite deitados nas redes a beber fumo, e assí se embebedão delle, como se fora vinho.

Guaraquigynha — Esta he a erva moura de Portugal, e além de outras bondades que tem como a erva moura, tem somente que he único remédio para lombrigas, e de ordinário quem as come logo as lança.

Camará — Esta erva se parece com silvas de Portugal: coze-se em água, e a dita água he único remédio para sarnas, boubas, e feridas frescas, e quando as feridas se curao com as folhas de figueira de que se disse no titulo das arvores, se lava a ferida com a água desta erva, cuja flor he formosíssima, parece cravo amarello, e vermelho, almiscarado, e destas se fazem ramalhetes para os altares.

Aipo — Esta erva he o próprio aipo de Portugal, e tem todas as suas virtudes: acha-se somente pelas praias, principalmente no Rio de Janeiro, e por esta razão he mais áspero, e não tem doce ao gosto, como o de Portugal: deve ser por causa das marés.

Malvaisco — Ha grande abundância de malvaisco nesta terra; tem os mesmos effeítos, tem humas flores do tamanho de um tostão, de hum vermelho gracioso, que parecem rosas de Portugal.

Caraguatá — Este Caraguatá he certo gênero de cardos, dão humas fructas de comprimento de hum dedo, amarellas; cruas fazem empollar os beiços; cozidas ou assadas não fazem mal; porém toda mulher prenhe que as come de ordinário morre logo.

Ha outros caraguatás que dão humas folhas como espadana muito comprida, de duas ou três braças, e dão humas alcachofras como o naná, mas não são de bom gosto. Estas folhas deitadas de molho dão hum linho muito fino, de que se faz todo gênero de cordas, e até linhas para cozer e pescar.

Timbó — Timbó são humas ervas maravilhosas, crescem do chão como cordões até o mais alto dos arvoredos onde estão, e alguns vão sempre arrimados á arvore como era; são muito rijos, e servem de atilhos, e alguns ha tão grossos como a perna de homem, e por mais que os torção não ha quebrarem; a casca destes he fina peço-nha, e serve de barbasco para os peixes, e he tão forte que nos rios aonde se deita não fica peixe vivo até onde chega com sua virtude, e destes ha muitas castas, e proveitosas assí para atilhos como para matar os peixes. Outras ervas ha que também servem para medicinas, como são serralhas, beldroegas, bredos, almeirões, avencas, e de tudo ha grande abundância, ainda que não têm estas ervas a perfeição das de Espanha, nem faltão amoras de silva brancas, e pretas como as de Portugal, e muito bom perrexil pelas praias, de que se faz conserva muito bôa, nem falta macella.

XII

DAS ERVAS CHEIROSAS

 

Nesta terra ha muito mentrastos, principalmente em Piratininga: não cheirão tão bem como os de Portugal; também ha humas malvas francezas de humas flores roxas, e graciosas que servem de ramalhetes. Muitos Lyrios, não são tão finos, nem tão roxos como os do reino, e alguns se achão brancos.

 

Erva que dorme — Esta erva se dá cá na primavera, e parece-se com os Maios de Portugal, e assi como elles se murcha e dorme em se pondo o sol, e em nascendo torna a abrir e mostrar sua formosura. O cheiro he algum tanto fartum. Também ha outra arvore que dorme da mesma maneira, e dá humas flores graciosas, mas não cheirão muito.

 

Erva viva Estas ervas são de bôa altura, e dão ramos, humas folhas farpadas de hum verde gracioso; chamão-se erva-viva, porque são tão vivas e sentidas que em lhes tocando com a mão, ou qualquer outra cousa, logo se engelhão, murchão e encolhem como se as agravarão muito, e dahi a pouco tornão em sua perfeição tantas vezes lhes tocão, tantas tornam a murchar-se, e tornam em seu ser como dantes.

Outras muitas ervas ha, como oregãos, e poejos, e outras muitas floras varias, porem parece que este clima, ou pelas muitas águas, ou por causa do sol, não inf lue nas ervas cheiro, antes parece que lho tira.

 

XII DAS CANAS

Nesta terra ha muitas espécies de canas e tacoára; ha de grossura de huma coxa de hum homem, outras que têm huns canudos de comprimento de huma braça, outras de que fazem frechas e são estimadas; outras tão compridas que têm três ou quatro lanças de comprimento; dão-se estas canas por entre os arvoredos, e assi como ha muitas, assi ha muitos e compridos canaveaes de muitas léguas, e como estão entre as arvores vão buscar o sol, e por isso são tão compridas.

set 242008
 
Dom João VI no Brasil de Oliveira Lima

D. João VI no Brasil – Oliveira Lima

CAPITULO XIX

O TRATAMENTO DOS ÍNDIOS

Neste ponto pode dizer-se que foi deficiente o governo de Dom João VI, se com isto se quer exprimir que não teve resultados permanentes o que ele fez ou tentou fazer pelos índios brasileiros. Cumpre todavia notar logo que lhe não cabem por tal motivo remoques, pois o efeito de quais­quer esforços, mesmo mais concretos e enérgicos, teria certamente sido no seu conjunto negativo, porquanto aqueles índios — como todas as ra­ças inferiores, postas embora, e sobretudo quando assim acontece, em con­tato com elementos civilizadores — se mostram incapazes de outra exis­tência que não a vegetativa, dividida entre as ocupações da caça, da luta com outras tribos, das bebedeiras ruidosas e da preparação rotineira das armas de combate, dos mantimentos de conserva, dos espíritos, das redes e, quando são cultivadores, dos seus escassos produtos agrícolas.

Toda catequese, religiosa ou leiga, tem sido inábil para elevar-lhes marcadamente o nível moral. Conforme ponderaram Spix e Martius depois que os observaram pessoalmente, eles mais dependem, quando aldeados, da atividade ou indústria dos forasteiros do que da própria, sendo por isso mesmo de lamentar que não vivessem entre gente que lhes pudesse dar uma melhor idéia da superioridade moral da cultura estrangeira, di­versa da fornecida pelo egoísmo, cobiça e desumanidade desses ocupadores de um solo estranho.

"A civilização dos índios tem igualmente sido até aqui obstada pelo costume de empregar uma nação para combater outra, como foram por exemplo empregados os coroados contra os puris, e pela sanha dos desta­camentos militares, os quais estenderam aos puris a guerra de extermínio que por lei lhes foi facultada contra os botocudos."642 O Correio Braziliense acremente censurou o conde de Linhares essa guerra cruel, vestígio de antigo barbarismo, que ele decretara.

Se o extermínio não foi a regra para os selvagens bravios, pelo menos foram os aborígenes mansos praticamente abandonados nas suas aldeias miseráveis, sem cultura e sem futuro, quando não deixados a vaguear pe­las matas e campos. A matéria-prima em verdade aparecia refratária e por isso talvez nada de efetivo lograria jamais constar, quando muito maior fosse o seu devotamento, ao ativo da Junta criada para indagar de tudo quanto pudesse promover à civilização dos indígenas, e sugerir os meios convenientes de chegar a resultados animadores.

Alguns se obtiveram, se bem que de natureza provisória ou limitada. Spix e Martius, que foram ao interior da capitania de Minas Gerais visitar os coroados aldeados no presídio de São João Batista, escrevem que os princípios por que eram administrados os índios faziam honra ao gover­no, tratando os diretores de conservá-los agrupados e fazê-los cultivar a terra que lhes era dada em propriedade, com isenção de taxas por dez anos e fornecimento gratuito de farinha de milho e utensílios agrícolas. Ao mes­mo tempo que os dirigiam, aquelas autoridades defendiam-nos contra quaisquer tentativas de escravização por parte dos colonos, concedendo-lhes a proteção da lei, e só os deixando trabalhar mediante salários, posto que reduzidos, correlativos com sua inexperiência e carência de necessida­des como as dos civilizados.

A política de adiantamentos materiais e morais com que Dom João VI pretendeu assinalar o seu governo direto no Brasil, visava — é justiça admitir — originar no tocante à civilização dos indígenas resultados mais satisfatórios do que meramente uma mais ativa exploração do interior. Aliás deve lembrar-se que até certo ponto foi com semelhante intuito animada a melhoria das comunicações terrestres e fluviais do litoral com o sertão. A Junta instituída adrede denominava-se, conjuntamente, da conquista e civilização dos índios e do comércio e navegação do Rio Doce, e tinha sua sede em Vila Rica: a região dos rios Doce e Jequitinhonha foi a prefe­rida de começo para tais ensaios da administração com relação aos aborí­genes.

É de resto óbvio que todo progresso nesse sentido de facilitar a nave­gabilidade de rios ou abrir estradas através de matas espessas, com a con­seqüente colonização de feição européia, redundaria em proveito do ele­mento indígena, se ele próprio no entanto fosse suscetível de verdadeiro progresso, não recuando medroso diante da cultura como lhe era ofereci­da, e internando-se cada vez mais nas solidões para escapar ao jugo das forças militares com que ia sendo legitimada a posse da terra e praticada a novíssima catequese. Daí vem que o espetáculo apresentado pelos habitantes primitivos do Brasil na época de Dom João VI não encerrava gran­de alteração do que se nos houvera deparado em pleno século XVI.

Dividiam-nos oficial e literariamente em índios selvagens, semiman-sos e mansos, sendo na realidade mínima a diferença entre as três classes. O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied ocupou-se bastante deles e dei­xou a respeito um depoimento insuspeito. No seu tempo existiam ainda em grande número os índios na própria província do Rio de Janeiro, ape­sar da referida migração e da constante fusão com o elemento conquistador.

Os pseudo-civilizados ou em caminho disso viviam em cabanas de taipa com tetos de folha de coqueiro, dormindo nas mesmas redes, servindo-se dás mesmas cabaças, cobrindo o chão com as mesmas esteiras, em­pregando as mesmas armas de arremesso que os outros. Conservavam ainda todos os seus costumes privados, as suas comidas e bebidas, os seus folgares e tristezas, todos os seus usos coletivos. Uma espingarda, um espelho, um instrumento agrícola recordaria ocasionalmente — como de resto acon­tecia ao tempo dos primeiros escambos — o contato com a cultura euro­péia, que se traía também mais pela adoção da língua portuguesa do que pela da religião cristã imposta à sua credulidade e sobre a qual a sua ima­ginação infantil lançara e bordara um manto de superstições tecido pela ignorância.

Jeitosos e capazes de bem desempenhar certos misteres, dominava-os contudo uma invencível preguiça, de que só se libertavam para a caça e para a guerra, quando davam mostras da maior diligência e resistência. Glutões se tinham comida para saciar-lhes o apetite, logravam não obs­tante suportar longo tempo a fome e a sede. De ordinário, quando não comiam, ou dormiam, ou perseguiam animais de caça ou iam no encalço de inimigos, acocoravam-se silenciosos em redor do fogo, numa taciturni-dade fundamental, de que só os despia o seu gosto imoderado pelas bebi­das espirituosas. A inclinação nômada era outro traço ingênito e caracte­rístico que os levava a facilmente abandonarem as aldeias em deserções que começavam por ser cinegéticas e se tornavam definitivas, operando-se com extraordinária presteza, nelas carregando os homens as armas e as mulheres as panelas, redes e provisões de boca.

A desconfiança continuava no século XIX, como logo depois da des­coberta, a ser a base das relações entre as duas raças. Eschwege é dos que dão perfeita razão aos indígenas, descrevendo a sua situação em relação aos europeus com cores diversas das escolhidas por Spix e Martius. E suas informações devem ser mais procuradas e mais exatas, porque Eschwege residiu muito mais tempo no Brasil do que aqueles dois naturalistas que tão somente o percorreram, observando-o embora com suma inteli­gência e pondo a maior dose de probidade nas suas apreciações.

O conhecido mineralogista, esse, não só teve ensejo de tornar mais conhecido o país, geológica e economicamente, publicando, afora seus li­vros, artigos de considerável valor em revistas européias, como estabele­ceu em Minas Gerais diversas fundições de ferro, que manufaturavam boa soma de artigos — foices, machados, ferraduras, pregos, picaretas etc. —; não vingando mais tão prometedora indústria numa região em que a matéria-prima era mais do que copiosa porque, segundo Eschwege mes­mo explica e já foi notado, os habitantes, acostumados à vida errante e aventurosa das minerações, desprezavam as ocupações fixas e regulares.

Pois tão excelente conhecedor do nosso meio físico e moral e afoito expositor do que nele se lhe deparava, transmitiu-nos uma pintura de im­pressionar do tratamento dos índios brasileiros. Nela se revela Eschwege infinitamente menos benévolo do que seus compatriotas Spix e Martius (que aliás discutiam em espécie, baseando-se sobre um exemplo isolado que por acaso os fora o do seu conhecimento) para com os diretores civis que substituíram na tutela dos aborígenes os missionários, e que denotan­do, no dizer do citado escritor germânico, a maior avareza e doblez e es­quecendo os mais elementares deveres de humanidade para com a gente confiada à sua guarda, faziam-se servir pelos índios aldeados como se fos­sem escravos, espancavam-nos, deixavam-nos espoliar, quando os não es­poliavam eles próprios, pelos colonos vizinhos das aldeias. Estes, despo­jando os desgraçados descendentes dos antigos senhores do solo das ter­ras que lhes tinham sido doadas e que ocupavam, maltratavam-nos, roubavam-nos de tudo e não raro até os trucidavam.

Por sua vez os sacerdotes que ajudavam os diretores leigos na tarefa administrativa, e que na gestão espiritual ocupavam a sucessão dos jesuí­tas, estavam longe de possuir o tato e a mansuetude dos filhos de Santo Inácio, exigindo de tão miseráveis fiéis pagamento adiantado pelos seus serviços eclesiásticos e assim contribuindo, com suas vexações, para tor­nar mais aborrecida dos índios essa religião estranha que eles não logra­vam sequer compreender.

Os soldados dos destacamentos espingardeavam sem tirte nem guarte um aldeado por uma espiga de milho roubada de uma plantação de branco e cometiam cem barbaridades, entre outras a de vender criança das tribos.

Nada se praticava com doçura e vontade de acertar, em contrario a-todas as recomendações oficiais, cujo teor era invariavelmente benévelo para com os índios.643 Para forçar os puris a hábitos sedentários e a um cultivo regular da terra, lembraram-se de trazê-los em parte para a capital de Minas Gerais e aí distribuí-los em serviço pelas famílias, numa quase ressurreição urbana das encomiendas espanholas. Dizimados pelas doen­ças, vencidos pela melancolia, sujeitos aos ruins tratos ou pelo menos for­çados a um trabalho seguido que não estava nos seus hábitos tradicionais e repugnava à sua natureza, desapareceram esses servos pela porta da morte ou refugiaram-se de novo nas suas florestas, onde os perseguiam os solda­dos, vingando-se eles por fim com massacrarem o diretor, destruírem as plantações e imolarem uma quantidade de inocentes.644

A Dom João VI não eram desconhecidos os abusos escandalosos que se passavam e magoava-o um tal estado de cousas, contra a qual nada po­dia a sua ação benigna, numa tamanha extensão territorial, com as cir­cunstâncias predominantes que iam desde a distância até a carência de moralidade, e sem agentes fiéis para a repressão dos que deviam civilizar e para a educação dos que havia a civilizar. Tudo pelejava em contrário às intenções reais: a má-vontade dos índios em submeterem-se, tanto quanto a má-vontade das autoridades subalternas, e mesmo das que lhes eram imediatamente superiores, em defendê-los e elevá-los.

Quando houvesse simpatia e energia para isso, era a obra superior aos meios de pô-la em execução. A Junta de Vila Rica, funcionando per­to, não conseguiu reduzir, apesar da guerra movida, o país dos botocudos — cerca de 1.200 léguas quadradas, cobertas de florestas impenetráveis, que permaneceram mais ou menos nas primitivas condições, sem estradas abertas, nem culturas, nem segurança, não se melhorando sequer a nave­gação do Rio Doce.

A colonização do interior do Brasil, Dom João VI a encontrou e a dei­xou sob a forma de um desbravar empírico, exercido a ferro e a fogo, sem o aparelho apropriado nem sombra de fundamento científico. Traduzia-se, como hoje ainda, pelas derrubadas e queimadas que, a pretexto de alarga­rem a zona de cultivação, estendiam, com a supressão das matas, a área das secas para nela vegetar, sobre um solo que de fértil passava a estéril, "e de­caída pelo impaludismo, tão característico das regiões incultas, uma popu­lação de mestiços lamentáveis, agitantes num quase deserto".645

Essa falta de todo preparo industrial, junto com o inteiro desco­nhecimento da higiene e da profilaxia, palavras vazias de significação em semelhante meio mas não em semelhante época, continuando por­tanto a operar-se o antigo espraiar de bandeirantes sobre uma terra fe­cunda, suscetível porém de deteriorar-se em sua excelência e tornar-se safara; doutro lado a subsistência dos latifúndios, dos terrenos doados, das sesmarias da conquista, dificultando a aquisição da propriedade ter­ritorial com os foros, os arrendamentos a longo prazo com limitação de cultivo dependente do valor do aluguel, e a faculdade para o senhor da terra de recobrar a plena propriedade dela pelo pagamento das ben­feitorias avaliadas por terceiros, redundavam no aspecto desolador da nossa lavoura mesquinha, arrancada aos braços dos escravos sem real correspondência entre o capital e os esforços empregados, e os resulta­dos obtidos.

Acresce que o português é por temperamento muito mais um ex­plorador do que um colonizador. A sua tendência é abrir caminhos, não tanto estabelecer domínios no interior dos continentes: quando muito, fundar feitorias pelos litorais. "Não era de esperar que fosse cultivar os sertões da América quem deixava sem cultura as férteis campinas do Alentejo e as colônias da Beira, e Trás os Montes."646

O favor oficial para tudo era preciso nessas condições, mesmo para fazer florescer a indústria particular, dependente, segundo deveria ser, da iniciativa de cada um. A intervenção do estado era porém tão cons­tante e vexatória que força era que ela também se exercesse pela absten­ção, de jeito a favorecer. Assim, o cônsul-geral russo Langsdorff que, além de colecionar 1.600 variedades de borboletas, plantara na sua fa­zenda Mandioca 20.000 cafezeiros e fabricava em 1819 perto de 1.000 sacos de farinha por ano, carecia para prosperar nas suas lavouras que. não falando dos seus sessenta escravos, o rei indiretamente lhe angarias­se trabalhadores bastantes, concedendo isenção do serviço de milícias aos moradores da vizinhança que se prestassem aos serviços agrícola da referida propriedade.647

Foi contudo esse cônsul o primeiro da sua classe de funcionários es­trangeiros a desacreditarem o nosso sistema de colonização estipendiada assim como foi o conde da Barca o nosso primeiro agente de emigração na Europa, pródigo como todos os mais de promessas pomposas. Langs­dorff não trepidou em mandar relatar em gazetas do seu país e da Alemanha que, dos europeus transportados para o Brasil, alguns tinham expirado de miséria e outros sido recolhidos por navios americanos e levados gratuitamente para os Estados Unidos, onde o Governo Federal, conquanto não houvesse mandado abonar as passagens desses imigrantes que lhe chegavam sempre a propósito, os abrigou, alimentou e proveu de terras para cultivar.

O Congresso de Viena, junto ao qual se quis fazer valer a conveniência da expansão colonial de Portugal como aumentando as vantagens pos­síveis para a imigração européia nos seus territórios brasileiros dilatados pelas armas da velha metrópole, não era infelizmente assembléia que se deixasse levar pelas visões de Barca ou pelas blandícias de Palmela. A Santa Aliança foi tratando toda ela de subtrair ao Brasil os seus ganhos alcança­dos pela violência e a que a corte do Rio dizia haver-se afoitado para maior felicidade dos futuros emigrantes, os quais entretanto persistia nas pala­vras do abade de Pradt, a preferir às imensas e majestosas solidões da Amé­rica do Sul — as solidões igualmente vastas e igualmente imponentes da América do Norte, regidas porém, como prometiam de seguro ser quais­quer sociedades que nelas se fundassem, por uma constituição admirável, baseada na mais estrita igualdade e na mais completa liberdade política, civil e religiosa.

mai 212008
 
Rugendas mercantilismo colonial Brasil

História do Brasil -Manual Didático para a Terceira Série Ginasial por Ary da Matta (1947) 

UNIDADE VII

DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL

1. A obra da Companhia de Jesus; a proteção aos índios; o ensino; a moralização da sociedade; 2. A expulsão dos jesuítas e suas consequências; 3, Desenvolvimento cultural.

Constitui hoje ponto pacífico na História do Brasil os bons ofícios da Companhia de Jesus na colonização portuguesa em nossa Pátria. A proteção ao índio em face da cobiça do colono, os ingentes trabalhos do ensino e da catequese, a moralização da sociedade colonial desenfreada e voraz, marcam os pontos altos do apostolado daqueles missionários em defesa dos princípios cristãos que regulam a vida do nosso ocidente.

A expulsão violenta destes elementos de ordem, moderação e disciplina deixou ao desamparo uma obra vigorosa que não encontrou substitutos à altura.

A arte e a literatura coloniais nutridas na cultura lusitana vão aos poucos se distanciando da rigidez das infuências metropolitanas para adquirir fisionomia própria no novo meio geográfico e cultural. Embora a língua falada no Brasil seja a dos seus descobridores e colonizadores, não é demais reconhecer a grande contribuição dos elementos da formação da etnia brasileira para a língua portuguesa do Brasil.

1. A obra da Companhia de Jesus

Origem. — A Companhia ou Sociedade de Jesus foi fundada em 1534 por Inácio de Loiola, oficial espanhol ferido no cerco de Pamplona, e já em 27 de setembro de 1540 era reconhecida oficialmente pela bula "Regimini Militantes Eclcsiae" do papa Paulo III.

Talhada pelo seu fundador dentro dos mais rígidos princípios disciplinares e religiosos, a Companhia cie Jesus se impôs pela ação persistente e moralizadora de seus membros, abnegados, doutos e piedosos. Trouxeram um notável espírito construtor na fase crítico do mundo do Renascimento, da Reforma, da revolução económica do século, da expansão do poderio colonial peninsular do início da Idade Moderna.

Introdução no Brasil. — Data da criação do primeiro Governo Geral (1549) o início da catequese dos inacianos em terras do Brasil, com a chegada do primeiro grupo chefiado pelo padre Manuel da Nóbrega, como já vimos na unidade II, capitulo 4. O desdobramento das atividades, a extensão do trabalho a que se propuseram, aconselharam a criação de um provincialato no Brasil, verificado em 1553 e entregue desde logo à orientação do padre Manuel da Nóbrega, o l.° provincial do Brasil.

E’ tal o entrelaçamento da obra inaciana c o desenvolvimento de nossa colonização, que Capistrano de Abreu declarou que só se poderia escrever a nossa História quando fosse realizado o trabalho prévio de elaboração da História dos Jesuítas no Brasil ou textualmente: "Uma história dos jesuítas é obra urgente: ériquanto não a possuirmos será presunçoso quem quiser escrever a do Brasil" (Capítulos da H. Colonial pg. 92 — 3.a edição).

A PROTEÇÃO AOS ÍNDIOS

A intuição pedagógica dos inacianos, evangelistas e educadores, autorizou-lhes a experiência de atrair as crianças de preferência aos adultos para suas casas e colégios, moldando-os aos poucos com perícia de técnicos consumados, sabedores de seu ofício. Nada impuseram: ca-tequisaram e ensinaram pela palavra, pelo exemplo. O primeiro traço elogiável de sua conduta (e que tanto escandalizou o primeiro bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, primaz do Brasil) foi o respeito à personalidade cultural do gentio permitindo-lhe e protegendo mesmo os ritos tradicionais do cerimonial indígena, usos e costumes enraigados em séculos, que sabiam não conseguir remover apenas com violência policial. Naturalmente combateram a antropofagia ritual, que algumas tribos praticavam, a poligamia e a mancebia de indígenas, as duas últimas comuns também a colonos, até clérigos, como asseveram os missionários em suas cartas.

A carência de mulheres europeias que lhes servissem de esposas excitava ainda mais a cobiça do colono pelas índias, presa fácil, desprezada e desrespeitada não obstante o esforço ingente dos missionários para coibir tão condenáveis abusos.

Outro motivo de cobiça do colono pelo índio foi a escravidão vermelha de que se originou um ciclo de expansão geográfica, as "expedições organizadas com o fim expresso de cativar índios nas regiões onde habitavam. E’ o chamado ciclo da caça ao índio, eufemismo usado para mascarar a caça ao homem", escreve o douto mestre Serafim Leite S. J.

Em certos casos, atendendo-se à legislação da época, o cativeiro foi tolerado pelos missionários nos chamados "cativeiros justos", de que resultam a conservação da vida de um prisioneiro condenado pelos seus, graças ao resgate pago pelo colono.

OS ALDEAMENTOS

Para dar proteção permanente ao gentio e mantê-los fortalecidos pela união, os jesuítas lançaram mão do processo de aldeamentos por eles dirigidos e onde era possível desenvolver ação tutelar sobre seus catecúmenos. Ali cultivavam e desenvolviam habilidades, ensinavam ofícios (marceneiro, ferreiro, pedreiro), introduziam novas técnicas agrícolas, aclimatando plantas exóticas, racionalizando o cultivo de vegetais indígenas.

Os primeiros aldeamentos datam de 1550 e, segundo o padre Serafim Leite S. J. (História da Companhia de Jesus no Brasil, Lisboa, 1938), sua realização foi recomendada no regimento de Tomé de Sousa pelo próprio D. João III. Em 1552 já podia Nóbrega anunciar a el-rei o desenvolvimento da obra, logo prejudicada pela incúria de D. Pedro Fernandes Sardinha, mas que no governo de Meni de Sá tomaria notável desenvolvimento graças ao apoio deste recebido pelos missionários. Cresceram em breve os primitivos núcleos de aldeamento fora do perímetro urbano.

Em 1598, ao findar o século XVII, deu-se organização regular às aldeias, distribuindo-se funções a cada um dos três padres que nela residiam: superior da aldeia, reitor do colégio e superintendente.

GOVERNO DAS ALDEIAS

Observadores menos avisados têm condenado a atuação dos missionários à frente do governo temporal dos aldeamentos, o que lhes pareceu até mesmo tentativa de criação de "estado teocrático". As funções do governo, exercidas naquelas comunidades pelos missionários da Companhia de Jesus ao lado do governo espiritual se impunham como necessidade dadas as circunstâncias particulares da colonização, contrariando os interesses e cobiça dos colonos. Condenavam os maus tratos que os aldeados deles recebiam, privando os índios convertidos de seus deveres religiosos, a pretextos vários. Cumpre assinalar que os inacianos não tinham sobre a terra qualquer jurisdição. "Era pura e simplesmente tutorial, função oficial, em nome do governo, jurisdição de curadoria, para facilitar a catequese e a boa organização da vida e do trabalho, com pessoas cujo estágio social ainda não permitia fazerem-se por si mesmas", escreve o erudito padre Serafim Leite. Citando ainda o autor da "História da Companhia de Jesus no Brasil", aceitamos sua classificação sobre o regime devido das missões como "sistema jurídico patriarcal." de jurisdição legitimada por el-Rei, chefe do executivo da época.

PRINCIPAIS ALDEIAS SÉCULO XVI

Na 2." metade do século XVI, multiplicaram-se os aldeamentos em torno da cidade do Salvador, na Bahia. Em 1556, Atônio Rodrigues fundou próximo à Bahia a aldeia do Rio Vermelho levantando uma ermida que teve sua primeira missa celebrada por Nóbrega. Ainda neste ano fun-âou-se a Aldeia de São Sebastião também chamada Aldeia do Ipiru (Tubarão), em virtude do índio homônimo que ah residia como maioral Foi também inaugurada por Nóbrega. Dois anos depois foi a aldeia transferida para o Recôncavo, acima de Pirajá, com o nome de São Tiago. Próximo a esta foi fundada outra aldeia, a de Simão, índio cristão prestigiado pelos padres da Companhia.

Data de 1558 a fundação da Aldeia de São Paulo, com a presença do governador Mem de Sá. Nomeou-se um índio como meirinho, entregaram-se-lhe as insígnias do pósío. Em 1561, segundo Serafim Leite, era já um florescente núcleo de 2.000 almas desenvolvendo-se ali grande atividade religiosa e social.

Uma das mais importantes foi a Aldeia do Espírito Santo fundada em 1558 pelo padre João Gonçalves, morto pouco depois e pelo irmão António Rodrigues, às margens do Rio de Joanes, atual localidade de Abrantes. Em 1561, elogiada por Nóbrega, contava já com uma população de 4.000 almas doutrinadas pelos padres que exigiam dos chefes índios da aldeia o combate à poligamia e mancebia, à antropofagia, à intemperança, ao homicídio e que se furtassem à influência religiosa e curandeirista dos pajés. O padre Serafim Leite, transcrevendo Nóbrega e Blaques, assinala a importância deste aldeamento. Tão relevante quanto esta, segundo as mesmas fontes, foi a Aldeia de Santiago fundada presumivelmente em 1559, contando com 4.000 almas já em 1561.

Em 1560 fundou o padre Luís da Grã ao norte da cidade do Salvador, em Erembé, nas terras pertencentes ao conde de Castanheira, a Aldeia de Santo António, importante núcleo de catequese e de onde se originou o movimento da evangelização do P. Gaspar Lourenço em Sergipe, no ano de 1575.

Santa Cruz de Itaparica foi fundada em 1561 pelos padres Antônio Pires e Luís Rodrigues e os irmãos Paulo Rodrigues e Manuel de Andrade, na vila de Itaparica. A 3 de maio o padre Luís da Grã ali oficiou e batizou grande números de indígenas. Mais tarde mudou-se a posição do aldeamento e despovoou-se completamente em 1564.

Compulsando os dados acima referidos verifica-se que 1560-1561 concentra a fase de ação intensiva, multiplicando-se as aldeias que reuniam milhares de indígenas cristãos.

Delas em 1583 restavam apenas as de Espírito Santo, São João, Santo António. As demais, atacadas pela peste, pela fome, pelo- abandono dos indígenas, despovoaram-se nesta árdua experiência evangelizadora que custou, não raro, em várias circunstâncias, a vida dos santos missionários, aos quais tanto deve o Brasil.

Da fundação de aldeias no Rio de Janeiro, São Vicente e Espírito Santo já tratamos na Unidade II.

MISSÕES MERIDIONAIS

As experiências dos primitivos aldeamentos levaram os missionários a abandonar as missões volantes e criar missões e reduções fixas para abrigar, proteger e educar os índios já convertidos. Em 1584, inicia-se o movimento catequista nas regiões dos rios Paraguai e Paraná, a rogo do bispo de Tucumán, D. Francisco Vitória, durante o próvincialato de Anchieta. Na primeira metade do século seguinte, íundam-se ali numerosas missões agrupadas em províncias assim distribuídas:

A Província do Guairá, entre os rios Paranapanema, Iguaçu e a margem esquerda do Paraná.

A Província do Paraná (organizada em 1626) com as reduções: Santa Maria Maior, Natividade de Acaraig, Santo Inácio Guaçu, Itapurã, Nossa Senhora dos Reis e Curuzu ou Assunção.

A Província do Uruguai fundada entre 1617 e 1634. Dela faziam parte: Candelária, São Nicolau, Mártires de Caparão, São Carlos, Apóstolos, São Miguel, São Tomé, São José de Itaquatiá c São Cosme e Damião.

A Província do Tape iniciada em 1632 e composta de Natividade, Santa Teresa, Santa Ana, São Joaquim, Jesus–Maria e São Cristóvão.

Contrariando a legislação portuguesa e espanhola (Brasil sob domínio filipino), os colonos preadores e descedores de índio realizam "saltos" violentos contra os então pacíficos povoadores das missões, num total aproximado de 200 000 índios cristãos, trabalhados pacientemente pelos missionários afeitos à disciplina, hierarquia, cultivando hábitos de sociabilidade, conhecedores da doutrina católica.

LEGISLAÇÃO PROTETORA DO INDÍGENA

Desde Nóbrega, exigia-se para o indígena a proteção de leis que lhe assegurassem o património da liberdade em face da cobiça dos colonos. Provocou-se assim a manifestação do poder real, como a que criou legislação especial para o caso. O regimento de Tomé de Sousa previa punição de "morte natural" para os salteadores de índio.

A primeira lei de proteção ao índio data de 20 de março de-1570, promulgada por D. Sebastião, Nela se permitia que se escravizassem apenas os índios aprisionados em guerras justas (com autorização prévia das autoridades) ou aos indios que atacassem os portugueses ou ainda aqueles que guerreassem entre si. Esta lei provocou protestos dos colonos e D. Sebastião autorizou que o dois governadores D. Luís de Brito e Antônio Salema reunidos ao Ouvidor Geral e aos padres da Companhia se constituíssem numa junta para resolver a questão. As resoluções desta junta foram resumidas na ata de 6-1-1574 e admitiam entre outras coisas ser legítimo escravizar os índios quando:

 

Tela antiga, Gesú, Roma. Ven P. José Anchieta.

a)     fossem tomados em guerras justas feitas com a . solenidade devida;

b)     fossem tomados pelos índios em guerra com os seus contrários;

c)     se vendessem a si mesmos passando de 21 anos de idade.

A expressão "guerras justas", de grande precariedade, prestou-se a interpretações vantajosas para alimentar a cobiça do colono justificando na maioria das vezes os "saltos" condenáveis então acobertados pela lei.

Insistiam sempre os jesuítas pela liberdade e sugeriram ao rei "se faça uma lei que daqui em diante nenhum índio no Brasil possa ser escravo".

Pela lei de 1597 sagraram-se vitoriosos os jesuítas com a obtenção da proibição de "saltos" e resgates sobre qualquer pretexto.

MORALIZAÇÃO DA SOCIEDADE

A moralidade na colônia. — Outra tarefa gigantesca que exigiu dos missionários grande esforço e energia foi o policiamento dos hábitos pouco edificantes de colonos, clérigos e mamelucos. A população branca da colónia dificultava a ação missionária pelos maus exemplos frequentes, pela insistência em ostentar baixo teor moral em suas ações. Dêste estado. deplorável não escapou o próprio clero secular confundido com o colono na mesma cobiça, nos mesmos anseios e ambições terrenas, com iguais exemplos de vida dissoluta, atirados à mancebia e à sofreguidão do lucro. O padre Azpilcueta Navarro nos dá o seu depoimento: "A gente aqui só tem nomes de cristãos, embebidosem malquerenças, metidos em demandas, envoltos em torpezas e deshonestidades publicamente".

Mas havia, ainda, aspectos bem mais graves que este denunciado pelo missionário — a imoralidade do clero regular, péssimo exemplo para o colono. E’ o mesmo padre que lamenta e protesta acrescentando à informação: "mas havia cá muito pouco cuidado de salvar às almas; os sacerdotes que cá havia estavam todos nos mesmos pecados dos leigos, c os demais irregulares, muitos apóstatas e excomungados".

Criação do 1.° bispado. — Para disciplinar o clero secular esforçou-se Nóbrega em obter um bispo para o Brasil, dependente até então, em matéria de administração eclesiástica, da diocese de Funchal. Em 1552 chegou à

Costumes do Brasil colonial — lundu (Desenho de Rugendas.)

cidade do Salvador, na Bahia, D. Pedro Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil. Faltou ao prelado a necessária isenção de ânimo e visão larga para alcançar os benefícios da administração jesuítica e da hábil política de Nóbrega. Exigiu reivindicações e prioridades e embora de elogiável energia prejudicou grandemente a obra dos missionários.

Apoio moral dos jesuítas. — A extraordinária força moral dos catequistas inacianos conseguiu manter a distância o colono prevaricador e, o que surpreende, transmitiram a seus tutelados a fibra que possuíam, como atestam inúmeros casos fartamente documentados.

2. A expulsão dos jesuítas e suas consequências

Antecedentes. — Sebastião de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal, poderoso primeiro ministro de D. José I, incluiu em seu programa político neutralizar além da influência da nobreza, dominada pela truculência, a ação dos jesuítas como elementos ativos da vida pública e privada lusitana. Para isto não recuou diante dos mais violentos métodos, lançando mão de todos os pretextos, forjando provas, apoiando-se em documentos inconsistentes e sem idoneidade. Era um velho ódio que se reavivava nas mãos de inimigo rancoroso, guindado às cul-minâncias do poder temporal, dominando D. José I, que Capistrano denominou "régio manequim".

Os argumentos de Pombal. — Para justificar a tremenda perseguição desencadeada contra os jesuítas, aproveitou-se Pombal da reação espontânea dos guaranis, -aldeados nas missões meridionais, à execução do Tratado de 1750. Para ele, toda resistência teria sido forjada pelos jesuítas espanhóis que teriam insuflado o ódio contra os portugueses e estimulado a desobediência à letra do Tratado de Madrid. Outro argumento muito frequentemente popularizado pelos partidários da política pombalina, era a acusação infundada de que os jesuítas dos Sete Povos das Missões se preparavam com seus 30 000 aldeados para criar um império teocrático, independente do poder real, unido ao Paraguai, que seria governado por um suposto Nicolau I, apontado como o primeiro de uma série de jesuí- _ tas coroados no trono do império teocrático platino. Não ficou aí, no entanto, a fértil imaginação do célebre marquês. Não encontrando apoio entre os espanhóis para secundá-lo em sua política de perseguição aos missionários dos Sete Povos, tratou de atacar os do Brasil, votados como sempre aos mais abnegados trabalhos de seu apostolado pelo ensino e catequese. Imaginou para tanto um plano diabólico. Nomeou seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, capitão-mor do Maranhão e Pará, atribuindo-Ihe as funções de executor do Tratado de Madrid. Chegado ao Pará, Mendonça Furtado convocou índios aldeados pelos inacianos para integrarem o grosso das tropas que o seguiam na tarefa naturalmente pacífica de mero demarcador de fronteiras, em colaboração com D. José de Iturriaga, o representante espanhol. Esta medida violenta afastou demoradamente os indígenas de suas aldeias, votadas por isto à miséria e ao abandono. Não tardaram epidemias e fome e os indígenas, privados dos meios habituais de proteção que encontravam anteriormente nos aldeamentos, desertaram em grande número. Foi o quanto bastou para que se lançasse nova acusação aos jesuítas, base de uma campanha difamatória divulgada em toda Europa e levada por Almada, embaixador português em Roma até ao trono pontifício de Benedito XIV.

A efêmera vitória de Pombal. — Pombal obleve de Benedito XIV a promulgação de várias medidas favoráveis à sua política contra os beneméritos missionários e soube utilizar-se delas no momento oportuno:

a)     divulgação de uma bula de Benedito XIV, que os padres haviam obtido anteriormente em 1741, proibindo o cativeiro indígena, medida altamente impopular em face dos interesses dos colonos;

b)     publicação de um alvará régio cassando aos jesuítas todo e qualquer governo temporal;

c)     obtenção de um breve pontifício "In Specula Su-premae Dignitatis (1.° de abril de 175S), que nomeava o cardeal Saldanha, patriarca de Lisboa, "reformador e visitador geral apostólico da Companhia de Jesus em Portugal e seus domínios". -

De posse destas medidas e aproveitando como pretexto a falsa cumplicidade dos jesuítas no atentado do marquês de Távora contra D. José I, ordenou Pombal a deportação em massa dos jesuítas do Brasil. Os da capitania do Pará-Maranhão, 150 ao todo, foram embarcados em São Luís. Os do Ceará e Paraíba, em número de 53, embarcaram no Recife. Os do sul foram embarcados no Rio de Janeiro e contavam 145. Empilhados nos porões dos navios, sujeitos, além das epidemias frequentes neste caso, ao suplício da sede, à sub-alimentação, muitos sucumbiram privados até dos sacramentos à hora da morte pelos carcereiros.

Atitude do clero secular. — Alguns bispos se esmeraram na execução das ordens de Pombal, como o impassível bispo Bulhões, passageiro do navio que conduzia os padres de São Luís e que os viu morrer à míngua e o bispo do Rio de Janeiro, D. António do Desterro, que contra eles lançou duas pastorais violentas e injustas muito do agrado de Pombal. Mas é de justiça também não esquecer a figura de D. Diogo Botelho de Matos, bispo da diocese da Bahia, nomeado visitador e reformador de sua diocese e que com corajosa atitude advogou a causa dos inacianos, o que lhe valeu viver na indigência para o resto da vida. Outra nobre figura foi a do bispo de São Paulo, D. António da Madre de Deus, que em face da perseguição chegou a prever acertadamente maus dias para a religião e para o governo se insistissem naquela condenável política.

CONSEQUÊNCIAS DA EXPULSÃO

A expulsão total dos inacianos privou o Brasil de um elemento de ordem e moderação, pacífico e construtor, votado às tarefas da instrução e da catequese, de alto teor de moralidade, insuspeitos na sua devoção religiosa e no. seu afã colonizador. Despovoaram-se aldeias, suprimiram-se colégios, depredaram-se bibliotecas preciosas, faltou portanto a instrução e a segurança, campeou o vício e a corrupção na sociedade colonial sem substitutos à altura da gigantesca tarefa violentamente interrompida.

Aos argumentos fogosos dos partidários apaixonados de tal política, opomos hoje a apreciação insuspeita de autores leigos e religiosos, panegiristas até de Pombal, os quais, estudando objetivamente a questão, só encontraram motivos de condenação à truculenta e infeliz medida quer no aspecto moral, quer nas vantagens das técnicas de colonização.

Eduardo Prado, encarando-a no ponto de vista das vantagens da política ultramarina, considerou-a "um outro Alcácer-Quibir", querendo significar com isso que a medida acarretara dano irreparável à marcha da colonização, suprimindo reservas morais e reduzindo qualitativa e quantitativamente o colono. Southey declara que o intento de Pombal, de emancipar os indígenas, louvável, não resta a menor dúvida, falhou porque "destruindo os jesuítas ele se privou dos únicos agentes por meio dos quais poderia realizá-lo".

Pandiá Calógeras, estudando a ação daqueles missionários em "Os jesuítas e o ensino", apresentou-os como "os grandes caluniados da História".

Escreve ainda Eduardo Prado: "Com a expulsão dos jesuítas do século passado (XVIII) a civilização recuou centenas de léguas dos centros do continente africano e do Brasil".

E o visconde de São Leopoldo afirmou que a expulsão dos jesuítas foi responsável por "um período de terrível ignorância em nossa terra de norte a sul".

Na sua excelente História do Brasil escreveu o erudito mestre Jônatas Serrano com a independência, sabedoria e autoridade .que o caracterizam: "Se em países mais adiantados a falta dos jesuítas foi notória, como não havia de sê-lo no Brasil cuja formação intelectual era obra quase exclusiva dos padres da Companhia? Outra medida insensata e que trouxe lacuna irreparável para os estudos ulteriores que se fizeram sobre as línguas indígenas foi a destruição dos escritos dos jesuítas".

3. Desenvolvimento cultural

NOTÍCIA BIO-BIBLIOGRÁFICA DA LITERATURA COLONIAL

A vida cultural do Brasil Colónia apresentou já certas características diferenciais em confronto com a vida cultural metropolitana. A influência absorvente do novo meio geográfico, a sugestão dos motivos da nova flora e nova fauna encontrada, a contribuição de línguas e culturas indígenas e negras e os resultados dos processos do contacto que sempre mantiveram, nos permitem apontar uma forte tendência abrasileiradora também nos domínios da arte e da literatura na nossa formação nacional, sujeita embora, como no resto, à influência europeia.

AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES QUINHENTISTAS

Anchieta. — Esta primeira fase é representada principalmente pelos cronistas inacianos do Brasil quinhentista. Nela se sobressai o padre José de Anchieta, considerado por Sílvio Romero como "o mais antigo vulto de nossa História intelectual". O professor Jaques Raimundo, retomando um conceito de Capistrano de Abreu, lhe confere também as honras de "criador da linguística sul-americana" tendo em vista seus preciosos trabalhos sobre o estudo do tupi.

Anchieta escreveu vários autos, deixou-nos copiosa correspondência reunida nas suas Cartas, uma Arte da Gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Imortalizou-o quer pela beleza poética, quer pelas circunstâncias dramáticas que o cercam, o seu famoso poema à Virgem — de Beata Virgine dei Matre Maria, escrito por êle nas areias da Praia Grande, refém em Iperoig, quando da Confederação dos Tamoios. Historiador, escreveu ainda: Brasílica Societatis Historia et viva clarorum Patrum qui in Brasília vixerunt e, ainda, um poema heróico dedicado a Mem de Sá (De rebus gestis Mem de Sá praesidis in Brasília). Compunha em latim, espanhol (língua natal), português, tupi e foi sem exagero, no Brasil quinhentista, um agreste representante do Humanismo e do Renascimento europeus.

Fernão Cardim. — O padre Fernão Cardim (Viana, Portugal, 1540 — Abrantes, Bahia, 1625) deixou-nos preciosas informações realizadas com grande argúcia e minúcia sobre a nossa flora e fauna, dados de observação sobre etnologia, etnografia, antropologia física do indígena brasileiro, nos seus trabalhos:

Do princípio e origem dos índios do Brasil, Do clima c Terra do Brasil e a Narrativa epistolar de ama viagem e missão jesuítica às partes do Brasil, também chamada Informação da Missão do Padre Cristóvão de Gouveia às Partes do Brasil. A identificação da autoria de Cardim é obra de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia e foram reunidas sob o título Tratados da Terra e Gente do Brasil pela Academia Brasileira de Letras e publicada em l.a edição pelo editor J. Leite no tricentenário da morte do autor (1).

Bento Teixeira. — Deve-se ao portuense Bento Teixeira a primeira obra escrita no Brasil sobre terra nacional: Prosopopéia dirigida a Jorge de Albuquerque Coelho, Capitão e governador de Pernambuco, Nova Lusitânia — 1001, in 4.°. Trata-se de um poema em versos decassílabos com 94 estrofes, em louvor do terceiro donatário de Pernambuco, em que o autor procurou sensivelmente imitar o estilo camoniano, sem grande sucesso, é verdade.

Gandavo. — Data de 1576 a publicação em Lisboa, na Tipografia de António Gonçalves, da História da Província de Santa Cruz vulgarmente chamada Brasil, de Pêro de Magalhães Gandavo. Gandavo era bracarense de origem e residiu aiguns anos no Brasil. No ponto de vista cronológico seu trabalho constitui a primeira tentativa de sistematização da História de nossa Terra no Século XVI.,

Gabriel Soares. — Outra obra também deste mesmo século foi o Tratado descritivo do Brasil, do lisboeta

Colégio de Paranaguá Arcadas do claustro. (Reproduzido da Revista do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional.)

Gabriel Soares de Sousa, que viveu longamente entre nós, falecendo em 1591 no sertão da Bahia.

Já neste século XVI, o primeiro de nossa História, acentuam Sílvio Romero-João Ribeiro, verificava-se a presença de duas tendências gerais em nossas letras que iriam ser uma das características marcantes da nossa literatura da fase romântica: o Naturalismo, descrição pormenorizada da flora e fauna, paisagem, hidrografia e orografia do Brasil; e o Nativismo, apelo frequente dos motivos etnológicos, etnográficos, antropológicos e linguísticos do índio, que transpareceu como preocupação dominante em todos eles.

O teatro jesuítico. — Como elemento auxiliar da catequese, aproveitaram-se os missionários para a produção de autos, comédias, tragédias, principalmente nos aldeamentos, os quais, por disposições superiores, eram preferentemente representados nas casas e colégios. Esta ativi-dade cênica dos missionários desenvolvendo o teatro anteriormente introduzido pelos colonos, prendia-se a um programa didático, de finalidade apostólica e moralizadora. Segundo documentação exibida pelo padre Serafim Leite representaram-se entre outros no Brasil no século XVI: Auto de Santiago (1564); Écloga Pastoril (1574); Tragédia do rico avarento e do Lázaro pobre (1575); Diálogo da Virgem Maria (1584); Auto de São Sebastião (1584); Auto da visitação (1598); Diálogo de Guarajarim (1587).

Século XVII

As lutas pela defesa do território, os esforços pela posse das novas áreas desbravadas e conquistadas no movimento de expansão geográfica, modificaram os quadros da vida brasileira. A consciência da nova força de que nos achávamos possuídos, estimulando o nativismo no ponto de vista social, político e económico, refletiu-se também na vida literária. O século XVII foi, para nossa evolução intelectual, o século da afirmação das primeiras manifestações nativistas no qual autores brasileiros letrados, bacharéis, doutores, licenciados em Coimbra, lidos em Tasso, Lope de Vega, Gabriel de Castro, trouxeram uma contribuição estimável à formação da literatura nacional.

Esta tendência, apenas esboçada na nova literatura colonial que iria ter desenvolvimento mais amplo e mais sólidas características no século XVIII, teve em Frei Vicente do Salvador, nos irmãos Eusébio e Gregório de Matos, Fr. Cristóvão da Madre de Deus, Gonçalo Soares de Franca, os seus vultos mais representativos.

Frei Vicente do Salvador. — Chamado no século Vicente Rodrigues Palha, escreveu uma História da Custódia do Brasil, 1627, inédita até 1888, quando o nosso incansável e benemérito pesquisador Capistrano de Abreu a publicou nos Anais da Biblioteca Nacional. Como lembra muito judiciosamente o próprio editor "sua história pren-de-se mais ao século XVII que ao século XVI".

Nascido no Brasil em 1564, morreu na Bahia entre 1636 e 1639; reagiu em bom estilo contra os desdéns reinóis, exaltando os elementos naturais da terra, dignificando histórica e socialmente os fatôres de nossa formação nacional com inconfundível acento nativista.

Embora criticável no ponto de vista dos documentos, interpretação crítica e na precariedade e carência de fontes que fazem o cronista maior que o historiador, a sua História do Brasil marca o início de uma fase de nossa literatura.

Eusébio de Matos. — Nasceu na Bahia em 1629 e faleceu em 1692. Ingressou na Companhia de Jesus que abandonou em 1680 para entrar para a Ordem de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Celebrizou-se como pregador, colocado por vários autores idôneos ao lado de António Vieira e Francisco de Sá, as maiores figuras do púlpito de sua época.

Gregório de Matos. — Irmão do precedente, Gregório de Matos nasceu na Bahia em 1623 e faleceu em Pernambuco em 1696.

Fez sólidos estudos em Coimbra, onde recebeu o grau de doutor em leis. Em Lisboa, para onde se transferiu, adquiriu grande reputação de causídico de largos recursos profissionais e chegou a exercer os cargos de Juiz do Crime e Curador de órfãos. Voltou ao Brasil em 1679. Seu espírito independente o inimizava com poderosos prepotentes e o desprezo com que encarava os vaidosos e falsos granjeou-Ihe através de sua veia satírica o cognome temido de "o boca do inferno". Esta atitude corajosa lhe valeu a perseguição dos inimigos e acabou afinal por ser degredado para Angola. Os acontecimentos contemporâneos de sua cidade, forneceram-lhe elementos preciosos para sua poesia satírica causticante, a qual não poupou governadores, juizes, prelados, oficiais do reino. Não ficou porém apenas na poesia satírica em que foi mestre, aspecto mais popularizado da obra do poeta. Foi também moralista e, em menor escala cie produção, lírico dos mais delicados da língua. Seus trabalhos foram reunidos nas Obras de Gregório de Matos, Rio 1929 tomo I; 1932 tomo II; 1933 tomos III, IV, V e VI.

Século XVIII

A evolução literária brasileira do século XVIII é geralmente apresentada em duas fases características:

l.ª fase (1700-1750) — correspondendo cronologicamente à primeira metade do século e na qual se distinguem principalmente Rocha Pita e AntÔnio José o Judeu.

2.ª fase (1750-1800) — corresponde à segunda metade do século com franco predomínio da chamada Escola Mineira. Dela são representantes credenciados: Santa Rita Durão, Basílio da Gama, e os poetas da Inconfidência: Cláudio Manuel da Costa, Tomás António Gonzaga, Alvarenga Peixoto.

A literatura colonial do século XVIII contemporânea das reações contra o domínio lusitano desenvolveu forte acento nativista retomando e ampliando o movimento esboçado nos séculos anteriores.

Nele verifica-se também como notável sintoma de ati-vidade intelectual a criação de grémios literários conhecidos como academias. Surgiram na Bahia a Academia dos Esquecidos (1723) e mais tarde a dos Renascidos (1759) e no Rio a dos Felizes (1736), dos Seletos (1752) e já nos fins do século a Arcádia Ultramarina (1780?, 1783?).

PRIMEIRA FASE — 1700-1750

Os nomes mais representativos deste período foram: Frei Manuel de Santa Maria Itaparica, nascido em 1704 na Bahia. Distinguiu-se como poeta publicando o poema religioso Eustáquios e Descrição da Ilha de Itaparica, onde introduziu numerosos vocábulos de uso corrente no português do Brasil.

 

Antônio José da Silva, chamado o Judeu, nasceu no Rio de Janeiro em 1705. Cedo refirou-se para Portugal, onde sofreu os rigores da inquisição, acusado e processado por judaísmo. Celebrizou-se como autor de Guerras do Alecrim e Mangerona, Vida de D. Quixote, Labirinto de Creta, Eso-paida ou Vida de Esopo, Encantos de Medeia, Variedades de Proteu, que o sagram grande teatrólogo.

Sebastião da Rocha Pita nasceu na Bahia em 1660, formou-se em Coimbra, fêz parte da Academia dos Esquecidos. Notabiíizou-se pela sua História da América Portuguesa desde o seu descobrimento até 1723. Esta obra se caracteriza pelos excessos da apreciação literária, pelas divagações líricas falseadoras dos fatos, deformadora da verdade histórica, onde se reconhece falso tom de exaltações patrióticas. Seria preferível considerá-la mais trabalho de cronista do que obra de historiador.

SEGUNDA FASE — 1750-1800 POETAS

Sagrou-se nesta fase a preponderante influência da chamada Escola Mineira, de larga fecundidade produtora. A eles dá Sílvio Romero o merecido lugar de "os mais altos representantes do lirismo e da epopeia no Brasil nos tempos coloniais".

José Basílio da Gama — nasceu em Minas Gerais em 1740. Estudou no Colégio dos Jesuítas do Rio e completou sua educação no seminário cie São José. Viveu os dias torvos da perseguição pombalina aos inacianos. Foi denunciado como jesuíta e sofreu degredo em Angola de onde logrou sair graças aos bons ofícios de uma filha de Pombal cuja proteção obteve. Foi depois um dos validos òo célebre marquês, que o elevou a nobre e o nomeou oficial de secretaria. Sofreu mais tarde os efeitos políticos da viradeira. Faleceu em Lisboa em 1785, depois de ter residido longamente no Brasil.

Celebrizou-se Basílio da Gama pelo Quitabia, Declamação Trágica e o famoso poemeto Uraguai.

O Uraguai relata um episódio das lutas meridionais surgidas em consequência da aplicação do tratado de 1750. Introduziu o índio na literatura dando-lhe posições da mesma plana que os colonizadores europeus. Está todo impregnado do "lirismo brasileiro" de que nos fala Sílvio Romero.

Santa Rita Durão — José de Santa Rita Durão nasceu em Cata-Preta, arraial de Mariana, Minas Gerais, em 1737 e faleceu em Lisboa em 1784. Estudou humanidades no colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro, transferindo-se depois para Lisboa onde se doutorou em teologia em 1756 e cuja cátedra regeu na Universidade de Coimbra.

Celebrizou-se com o seu poema Caramuru, aparecido em 1781 e no qual apresenta todos os elementos humanos da formação do Brasil — o português, o índio e o negro, e estuda as peripécias da colonização de nossos três primeiros séculos de vida Nele reivindica a posição do que intitula "o povo do Brasil convulso" e nele se sente, como assevera Sílvio Romero, "O poema mais brasileiro que possuímos".

Basílio da Gama e Santa Rita Durão foram épicos; os demais poetas da. Escola Mineira foram líricos de delicado sentimento.

Cláudio Manuel da Costa — nasceu em 1729 na Vargem de ítacolomi, Mariana, Capitania de Minas Gerais. Estudou no Colégio dos Jesuítas do Rio e em 1753 graduou-se em direito canônico pela Universidade de Coimbra. Aqui chegou no ano seguinte e exerceu vários cargos oficiais, tais como o de Secretário do Governo e Juiz do Termo de Vila Rica. Escreveu Vila Rica, poema épico e ainda: Minúsculo Métrico, Labirinto do Amor, Números Harmónicos. Foi ainda autor do poemeto satírico Cartas Chilenas.

Inácio José de Alvarenga Peixoto — nasceu no Rio de Janeiro em 1744. Como Cláudio, estudou humanidades no Colégio dos Jesuítas do Rio e diplomou-se em leis pela Universidade de Coimbra em 1769. Escreveu Eneias no Lúcio e traduziu Meréia, de Maffei. Foi juiz da comarca do Rio das Mortes (Minas) e casou-se em 1788 com D. Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, um dos tipos mais representativos da alma feminina brasileira, notável pela inteligência, bravura e patriotismo com que se conduziu nas lutas pela liberdade nos episódios da Conjuração Mineira. Deve-se a êle a lembrança da divisa proposta para figurar na bandeira dos inconfidentes — "Aut libertas aut nihil". Faleceu em 1793 em Ambaca, na África, para onde fôra degregado depois da sentença.

Tomás António Gonzaga — nascido em Portugal de pai brasileiro e mãe lusa em 1744, sagrou-se grande mestre do lirismo entre nós. Passou a primeira infância na Bahia e em 1763 bacharelou-se em direito pela Universidade de Coimbra. A Inconfidência surpreendeu-o como Ouvidor e Provedor de Vila Rica, Minas Gerais, e preparava-se para tomar posse do cargo de desembargador da Relação da Bahia. Celebrizou-se pelo famoso poema lírico Marília de Dirceu, do qual foi musa inspiradora a bela Maria Joaquina Doroteia de Seixas; a Marília âo poema.

De grande delicadeza e inspiração poética, Marília de Dirceu sagrou-se a mais perfeita obra do lirismo amoroso da língua portuguesa. Nele Agripino Grieco, o famoso crítico, exalta o criador do primeiro par imortal de namorados da nossa literatura.

Foi arrastado na Inconfidência e morreu no degredo, na África, em 1807.

Poesia satírica. — Há neste género no século XVIII, pertencente ainda à Escola Mineira, uma sátira em versos, verdadeira sequência de epigramas às Cartas Chilenas. Nelas seu autor, simulando a correspondência entre Critilo e Doroteu, supostos chilenos, desanca os ridículos, a estreiteza, a corrupção dos processos administrativos, as asnices cotidianas âo Fanfarrão Minésio, nome com o qual ocultava figura do governador D. Luís da Cunha Menezes. Durante muito tempo ficou incógnito seu autor. O resultado das demoradas pesquisas de Varnhagen e João Ribeiro, confirmado depois pelas conclusões do Sr. Caio de Melo Franco, dão a autoria a Cláudio Manuel da Costa.

PROSADORES

Embora menos intensa e incomparavelmente mais pobre, a prosa brasileira do século XVIII trouxe apreciável colaboração ao desenvolvimento literário colonial: para êle concorreram cronistas, historiadores, linhagistas, moralistas.

Frei António de Santa Maria Jaboatão — nasceu em Recife em 1695 e 21 anos mais tarde professou no Convento de Santo António de Paraguaçu, Bahia. Escreveu: Novo Orbe Seráfico ou Crónica dos frades menores da Província do Brasil, obra histórica geralmente elogiada pelo estilo simples e gracioso.

Pedro Taques de Almeida Pais Leme — nasceu em São Paulo em data ignorada, no início do século XVIII, e faleceu em 1777. Foi o nosso primeiro linhagista. Escreveu a famosa Nobiliarquia Paulistana ou Genealogia das principais famílias de São Paulo e a História da Capitania de São Vicente desde sua fundação em 1531. Consultou para isto documentos inéditos, fidedignos e se comportou como verdadeiro precursor de métodos científicos de pesquisa e crítica histórica. Seus trabalhos constituem até hoje as melhores fontes de documentação sobre estes assuntos.

Frei Gaspar da Madre de Deus — Frade beneditino nascido em São Paulo. Foi contemporâneo de Taques e morreu em 1800. Escreveu Memórias para a história da Capitania de São Vicente hoje chamada de São Paulo do Estado do Brasil e Notícia dos anos em que se descobriu o Brasil e das entradas das religiões e das suas funções. Trabalhou em bom estilo e figura como indispensável à bibliografia dos genealogistas, sendo considerado, no entanto, inferior a Taques.

Matias Aires Ramos da Silva e Eça — Matias Aires, como era mais conhecido, foi o grande moralista do século entre nós. Nasceu de pais portugueses em São Paulo em 1705 e graduou-se em Artes, em Coimbra. Notabilizou-se pelo pensamento filosófico, pela cultura humanística. Era dotado de aguda observação e qualidades de estilo que lhe conferiram lugar destacado em nossas letras. Solidônio Leite estudou-o carinhosamente e colocou-o entre os seus Clássicos esquecidos. Escreveu Reflexões sabre a vaidade dos homens ou Discursos morais sabre os efeitos da vaidade.

Artes plásticas na Colônia

Não obstante as deficiências do meio colonial as artes plásticas do Brasil lograram razoável desenvolvimento a partir do século XVII. Predominou a princípio a arte religiosa. São notáveis as obras de arquitetura, escultura e pintura ligadas ao culto católico, como atestam os numerosos e ricos templos baianos, cariocas, paulistas e mineiros. Com a chegada da missão artística de 1816 fazem-se sentir os bons frutos da escola francesa, em substituição à influência do ensino lusitano.

PINTURA AS ESCOLAS E SEUS REPRESENTANTES

Estudando a evolução da arte colonial brasileira o prof. Menezes de Oliva, do Museu Histórico Nacional, acentua a presença, entre nós, de dois focos principais de irradiação:

a)  A Escola Baiana, fruto imediato do ensino pictórico lusitano, com sede na cidade do Salvador.

b)  A Escola Fluminense sujeita, também, à influencia dos mestres portugueses, de evolução paralela à Escola Baiana e que teve por centro a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Embora de técnica, inspiração e estilo portugueses, não há como negar em ambas as escolas um inconfundível pendor regionalista que os agrupa, mestres e discípulos, num mesmo grau de afinidade produtora.

A PINTURA BAIANA NOS SÉCULOS XVII E XVIII

A prioridade cronológica da escola baiana foi reivindicada por Manuel Quirino para Eusébio de Matos. Sua obra como pintor é, no entanto, desconhecida. O primeiro grande nome da pintura baiana é o de José Joaquim da Rocha, de ampla atividade produtora. Entre as suas obras registram-se: a pintura da cúpula das Igrejas da Conceição da Praia, São Pedro Velho, Rosário da Baixa dos Sapateiros, Ordem Terceira de São Domingos e da Igreja de Santo Amaro.

Foi, o mestre baiano, criador de uma escola que produziu discípulos credenciados continuadores de sua arte. Foram eles: Veríssimo de Sousa Freitas, o de menos pro-jeção do grupo; M. G. de Sousa Coutinho, dedicado principalmente à cenografia teatral; José Teófilo de Jesus, autor de 15 quadros da "Via Sacra", que se encontram em Macorim. São ainda de sua autoria os quadros: "Batis-mo", existente na Matriz do Socorro; "Assunção da Virgem" "São Cristóvão" e o teto da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em igrejas sergipanas. Deixou na Bahia numerosíssimas obras. Lá pintou o teto das Igrejas da Ordem Terceira do Carmo, Perdões, Órfãos de São Joaquim, Matriz de Itaparica, Nazaré e São Bento. São notáveis nesta última os trabalhos por êle deixados representando uma figura de "Mercúrio" e os "Quatro Evangelistas". Foi ainda autor do 2.° pano-de-bôca do Teatro de São João.

Outro discípulo de José Joaquim da Rocha foi António Francisco Velasco, autor do 1.° projeto da bandeira brasileira e que chegou a ser nomeado professor de desenho por D. João VI.

A PINTURA FLUMINENSE NOS SÉCULOS XVII E XVIII E INÍCIO DO SÉCULO XIX

A transferência da capital brasileira em 1763, por ato do marquês de Pombal, arrastou consigo da Bahia para o Rio de Janeiro o centro intelectual do país. Criou-se assim no Rio um foco de produção onde se congregaram pintores, decoradores, escultores, dedicados principalmente à pintura religiosa, figurando em segundo plano paisagens e retratos. Houve, por assim dizer, certa insensibilidade pelos motivos da natureza e a inspiração não foi além de medíocres exigências dos quadros de pintura devota.

A Escola do Rio, sujeita também à influência do ensino português, foi representada por frei Ricardo do Pilar, seu precursor, José da Silveira, Joaquim Leandro, Raimundo da Costa e Silva, frei Francisco Solano, Manuel da Cunha, Manuel Dias de Oliveira Brasiliense, o Romano, José Leandro de Carvalho e Francisco Pedro do Amaral.

Frei Ricardo do Pilar. — Cabe a frei Ricardo do Pilar, holandês de nascimento que aqui recebeu ordens sacras em 1695, as honras de precursor da pintura a óleo no Rio. Seu melhor trabalho é o "Salvador", figura de um Cristo envolto na túnica, levantando as mãos aos céus. Criticável pela falta de vigor do desenho o quadro apresenta uma excelente cabeça, impressionantemente marcada pelos passos da paixão.

José de Oliveira. — Escasseiam os dados sobre o pintor provavelmente carioca e de formação intelectual portuguesa. Foi o decorador do salão principal do antigo Palácio dos Vice-reis, da sala d’armas da Fortaleza ,da Conceição, o pintor do teto e dos retábulos da Igreja de São Francisco da Penitência, notável pela perspectiva e arte decorativa, como depõem Araújo Porto Alegre e Gonzaga Duque. Foram discípulos seus João de Sousa e João Florência Muggio.

Manuel da Cunha (1737-1809). — Seguindo uma mesma linha de escola, devemos filiar Manuel da Cunha e José Leandro a João de Sousa. Manuel da Cunha era escravo mestiço da família de Januário da Cunha Barbosa e alforriado pela família Dias da Cruz que o enviou, a Lisboa, de onde regressou em 1717. Seu aprendizado no entanto foi feito no Rio, ao lado de João de Sousa, seu mestre. Pintou um retrato do conde de Bobadela; o "Descimento da Cruz", no teto da capela do Senhor dos Passos da Igreja do Carmo; a Galeria dos Benfeitores da Santa Casa da Misericórdia; a "Paixão de Cristo", a "Senhora da Vitória" e a "Vida de São Sebastião" na Igreja de São Francisco de Paula; os "Milagres do Patriarca São Francisco", na cape)a do noviciado dos Terceiros de São Francisco de Paula.

Leandro Joaquim (1738-1798). — E’ o outro discípulo de Sousa. Notabilizou-se como pintor e arquiteto. São de sua autoria os ovais comemorativos do "Incêndio" e "Reconstrução do Recolhimento do Parto". Ali figura ainda, do mesmo autor, uma "Santa Cecília". Para a Igreja do Hospício pintou também uma "Nossa Senhora da Boa Morte".

Frei Francisco Solano Benjamim. — Dedicou-se frei Solano ao desenho técnico reproduzindo exemplares da nossa natureza para a "Flora Fluminense" do naturalista frei Veloso. Frei Solano enriqueceu também a pintura de devoção com uma "Santa Ismênia", um "Senhor da Paciência" e "São Carlos oferecendo seu poema à Virgem da Assunção". Celebrizou-o a decoração da sacristia do mosteiro de São Bento.

Manuel Dias de Oliveira Brasiliense, o Romano. — Manuel Dias de Oliveira Brasiliense nasceu provavelmente em Macabu, Estado do Rio de janeiro, onde passou sua infância. Transferiu-se para o Rio, a fim de aprender a ourivesaria do famoso Mestre Valentim. A alcunha de "Romano" com que passou à história vem de sua longa permanência em Roma, aonde fora aprender pintura depois de ter percorrido Portugal e Espanha, graças ao apoio de um seu protetor. Em Roma uniu-se ao célebre retratista Pompeu Patoni, em cuja companhia pôde desvendar as belezas da influencia clássica e com o qual adquiriu técnica invulgar. Festejado e respeitado, Romano sagrou-se entre nós como o maior representante da pintura colonial. A chegada da missão artística francesa de 1816 relegou-o para segundo plano, o que concorreu para amargurar seus últimos anos de vida. Pintou "Santa Ana", "Conceição", da Pinacoteca Nacional e uma cabeça de "São Paulo" em marfim. Criou em seu próprio "atelier" uma aula de modelo vivo muito bem frequentada. Morreu em Campos, em 1837.

José Leandro (1750-1831). — Seus biógrafos não. fixam ainda qual a cidade do Estado do Rio em que nasceu: Magé ou Itaboraí. Todo seu aprendizado foi feito no Rio de. Janeiro e é considerado produto exclusivo da Escola Fluminense. Uniu-se a Leandro Joaquim, a Raimundo da. Costa.c Silva e frequentou as aulas de modelo vivo de Romano. Celebrizou-se principalmente como retratista, arte em que demonstrou rara aptidão. São de sua autoria: "Ascensão"; Painel da Igreja do Bom Jesus; o teto da varanda que serviu para a aclamação de D. João VI; os "Apóstolos da Capela Imperial". Ali compôs também num grande painel (7m X 3,5m) os príncipes Pedro e Miguel pela mão do Anjo da Guarda, os reis ajoelhados e num trono de nuvens a Senhora do Monte Carmelo abençoando-os. No dia 7 de abril, demagogos e populares, levados pelo ódio, obrigam o próprio artista a enegrecer o quadro com espessa camada de cola. Felizmente o quadro foi restaurado em 1850 graças aos esforços e a habilidade de José Caetano Ribeiro. Deixou um filho homónimo, também pintor notável como paisagista.

Francisco Pedro do Amaral, — Pertenceu também à escola de José Leandro. Foi o decorador do solar da marquesa de Santos, na Av. Pedro II, do paço Imperial de São Cristóvão e do Paço da Cidade. Decorou também os coches imperiais. Dedicou-se especialmente ao retrato e à paisagem.

A MISSÃO LEBRETON

(Missão artística francesa de 1816)

A missão artística francesa que chegou ao Brasil em 1816, contratada por D. João VI a instâncias do conde da Barca, mais difundiu o estudo académico entre nós.

Dela faziam parte Joachin Lebreton, seu chefe, os irmãos Nicolas Antoine Taunay e Auguste Maria Taunay, Jean Baptiste Debret e Henri Victor Grandjean de Montigny, e tinha por auxiliares diretos Dillòn Beaurepos, Levasseur, Meunier, Ovide Evout, Levei, Preile, Fabre, Roy.

Do grupo tiveram influência decisiva na evolução da arte brasileira Lebreton, Taunay, Debret e Grandjean’ de Montigny. Criam escolas e deixam discípulos credenciados, preparando a geração artística do Império que se prolongou até a República. Debret teve continuadores no visconde de Porto Alegre, Sousa Lobo, Reis Carvalho, Barros Cabral, Augusto Muller, o mestre de Vítor Meireles, Maximiliano Mafra. A escultura de Ferrez encontrou herdeiros em Chaves Pinheiro e Rodolfo Bernardelli.

Arquitetura e escultura coloniais

ARQUITETURA

As primeiras realizações cia arquitetura pelos colonos no Brasil foram a construção do altar para a 2." missa, a "casa forte de taipa de pilão" construída por Caramuru em Vila Velha (pelas alturas de 1510), a Torre de Olinda mandada construir cm 1535 por Duarte Coelho. A partir dos meados do século XVI, é que começam a surgir as primeiras- construções civis, religiosas e militares dignas de nota, segundo a técnica de execução e inspiração artística europeia. Predominou o estilo barroco jesuítico, caracterizado pela mistura de elementos decorativos gregos, manuelinos, renascentistas. A fachada dos templos apresenta-se de extrema simplicidade, paupérrima de elementos ornamentais em contraste com o capricho e a abundância decorativa do interior.

Registram-se no século XVI, entre as obras de maior vulto, a construção dos colégios de São Paulo de 1554, Rio de Janeiro em 1570, Salvador em 1572, Olinda em 1570. No século seguinte enriqueceu-se nossa arquitetura com a construção do Colégio e Igreja de Santo Alexandre e os mosteiros de Santo António, Carmo e Mercês no Pará.

No século XVIII dois grandes nomes ocupam o cenário artístico colonial. São eles os mineiros António Francisco Lisboa, mais conhecido como o "Aleijadinho", escultor e arquiteto (1730-1814) e Valentim da Fonseca e Silva (1750-1813), o "Mestre Valentim", escultor e arquiteto que viveu e produziu no Rio de Janeiro.

O Aleijadinho. — António Francisco Lisboa, filho de mãe escrava e pai luso, representa, realmente, um nobre esforço pessoal autodidata aperfeiçoando a arte que conheceu do pai arquiteto e dos artistas fluminenses. Foi gerado no período áureo da história de Minas em que "ambiente de luxo e fervor católico permitiam o florescimento de uma arte mais intensa", como escreveu Argeu Guimarães.

ARQUITETURA COLONIAL

Casa-forte destinada a defesa do ouro real. S. João d’El Rei, Minas.

(Aquarela de A. Norfini — coleção do Museu Histórico. Reproduzido da "História Social do Brasil1‘ de Pedro Calmon.)

Casa burguesa. (Mesma procedência da gravura anterior.)

ARQUITETURA COLONIAL

Obras do Aleijadinho. 1) Igreja de São Francisco de Assis, São João dei Rei. 2) Cristo, parte do Passo da Coroação. 3) O. profeta Joel. Ao fundo a portada da Igreja do Senhor Bom

Jesus de Matosinhos, de Congonhas do Campo. 4) O profeta Jonas.

(Reprodução do trabalho de R. A. Frendenfeld: "Mestre António Francisco — o

Aleijadinho", Edições Culturais, São Paulo.)

ARQUITETURA COLONIAL

Residência senhorial do período emboaba. (Mesma procedência da gravura anterior.)

Paço Municipal de São Paulo em 1628. (Quadro de J. Wasth Rodrigues existente na coleção do Museu Paulista.)

Catedral da Bahia. Arcaz da sacristia, com incrustações de casco de tartaruga feitas por artistas brasileiros no século XVII. (Reproduzido da Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.)

Jacarés do chafariz do Passeio Pública (Rio de Janeiro) — Mestre Valentim. (Reproduzido da Revista do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional.)

ÉMU

 

Teve mocidade tumultuosa e despreocupada. A alcunha lhe veio das mãos, mutiladas em virtude de cruel enfermidade. Trabalhou e produziu intensamente, sagrando-se grande escultor e arquiteto, como se poderá ainda admirar em Ouro Preto, São João d’El Rei, Mariana, Congonhas, Santa Luzia e Sabará.

Pormenor da Imagem de S. João. (Reproduzido da Revista do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional.)

 

Entre suas obras mais famosas citam-se: Os Profetas do Adro Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas; a construção das Igrejas de São Francisco de Assis em Ouro Preto e São João d’El Rei; e em Sabará o altar da Prefeitura e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo.

Mestre Valentim (1750-1812). — Valentim da Fonseca e Silva foi o maior dos arquitetos e escultores do Brasil Colonial. Mestiço como oAleijadinho, filho de pai português, "fidalgote contratador de diamantes e de mãe escrava nascida no Brasil’", transferiu-se ainda pequeno para o Rio. Viveu algum tempo em Lisboa onde lhe faleceu o pai. Voltou para o Rio onde fêz todo aprendizado, entre os artistas da Escola Fluminense.

Altar-mor da Capela do Noviciado (pormenor) — Mestre Valentim. (Reproduzido da Revista do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional.)

 

Mestre Valentim foi o executor dos planos e projetos do vice-rei D. Luís de Vasconcelos que então embelezava o Rio de Janeiro. Pode fazê-lo com a boa prata da casa. Celebrizou-se, Mestre Valentim, com os jacarés do Passeio Público, as estátuas em ferro fundido de Diana e Niobe, Apolo e Mercúrio, o Chafariz do antigo Largo do Paço, hoje Praça 15 de Novembro. Reconstruiu o Recolhimento do Parto. São de sua autoria a capeia do Noviciado da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Rio, desíacando-se na ca-pela-mor a excelente obra de talha executada pelo artista;. a portada nobre e o medalhão da mesma igreja; o altar-mor e a capela de Nossa Senhora das Vitórias ou capela do Noviciado da Igreja de São Francisco de Paula no Rio; concepção, projeto e desenho dos lampadários de prata da Igreja do Mosteiro de São Bento. Atribuem-se ainda a Mestre Valentim ornatos da Igreja da Candelária e obra de talha, as imagens em madeira dos evangelistas São Marcos, São João e os lampadários da Igreja de Santa Rita.

abr 172008
 
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

PAULISTAS DO SÉCULO XVII
Paulo Setúbal

Dos “Ensaios Históricos”

A "História Geral das Bandeiras Paulistas", do preclaro Dr: Afonso- Taunay, representa um dos esforços maiores, e dos mais ilustres, para a reconstrução do período épico do bandeirismo, esse fenómeno altíssimo na formação da nacionalidade. A obra, porém, tão erudita e tão intensa, não é, infelizmente, obra de popularização. O feitio dela, aquele recheio de nomes e datas, as transcrições, aqueles muitos alvarás e atas-de-câmara, tudo aquilo, enfim, que torna o trabalho fortemente fidedigno, é exatamente o que afugenta o leitor comum, o leitor do século prático, o leitor que lê no bonde, esse homem rápido, utilitário, que não tem folgas sobejas para correr olhos pacientes sobre a papelada maçante das coisas velhas. O próprio autor confessa no pórtico do seu doutíssimo trabalho: "Não é uma obra de síntese a que o leitor tem sob os olhos. Nem poderia ou deveria sê-lo, pois a história sistemática e pormenorizada das bandeiras paulistas jamais se fez até hoje".

Eis porque o livro do Sr. Taunay será, para todo o sempre, o marco miliário dessa história curiosa da expansão territorial brasileira: será a grande fonte, o livro-manancial, em cujos ricos veios os estudiosos irão se abeberar com fartura. No entanto, para eficiência de contribuição tão séria, mister se faz que venham à tona, com intuitos vulgarizadores em estilo menos carrancudo, alguns dos vários aspectos interessantes da obra eminente. Um deles, o que ressalta da exposição da matéria, através dos tomos já publicados, é essa rebeldia destemerosa, esse intrépido espírito de arrogância, que caracteriza os paulistas do século XVII. Nota marcante, traço varonilizado dos desbravadores do sertão, essa soberba rústica, tão afrontosa, merece decerto uma página de popularização. Comecemos do começo. As zangas dos bandeirantes ferveram em torno de uma só causa: os índios.

OS ÍNDIOS

Para se compreender claro a psique daqueles velhos paulistas semibárbaros, é preciso penetrar bem no espírito da época. Um fato, um só, pincela coloridamente aqueles torvos tempos. É o caso dos índios. Para os sertanistas, para esses tipos hirsutos, almas en-coscoradas e selvagens, os bugres não eram gente. Jamais! Os bugres eram, simplesmente, bichos do mato. Bichos perigosos, muito maus, que se preava como quem prea onça. Não houve, no tempo, idéia mais enraizada. Ninguém podia crer que aqueles brasis de batoque no beiço, comedores de gente, ouriçados de usanças sanguinárias, pudessem ter, como os outros homens, uma alma raciocinante e espiritual. Não era possível! Aqueles tapuias eram bichos. Mais nada. . . Tão estranhado andou este pensar nos homens do tempo, que foi necessário uma bula do papa — imaginai um pouco! — uma bula do papa elucidando peremptoriamente a questão. É a famosa bula de Paulo III, promulgada em 9 de junho de 1536, e que começa: "Veritas ipsa quae nec falli nec fallere potest…" Aí declara o Sumo Pontífice, com a maior autoridade, "que se reconhecessem os americanos como homens verdadeiros!" Em Lima, ainda assim, segundo nos conta Ferdinand Denis, agitou-se de novo, em concílio, esta questão: saber se "os índios tinham inteligência bastante para receber os sacramentos da igreja". Evidentemente, diante da palavra papal, foi decidido que sim. Mas tudo isso, essas bulas e discussões, provam alto que, por esses tempos, a ideia; dominante, a ideia tida como certa, foi a de que os índios não tinham alma. Não passavam eles de bichos, só bichos. Daí, de tais ideias, nasceu a famosa desavença entre jesuítas e paulistas.

JESUÍTAS E PAULISTAS

Entre jesuítas e paulistas, nos fins do século XVI até meados do século XVII, desencadeara-se o ódio mais aceso de que há memória no Brasil alvorecente. A luta estrugira em torno do ponto eterno, do ponto único: os índios. É que os de S. Paulo, gente fragueira, me-tiam-se rijos e desassombrados pelos matos. Sorriam tudo. Canseiras? Nunca existiu para aqueles homens rudes. Fome? Era coisa de somenos. Feras? Paludes? Riam-se delas. E tudo isso para quê?

— Para caçar bugres!

Desciam os sertanistas levas gordas. São Paulc alargara-se de selvagens. Era a feira nacional do comércio vermelho. Os engenhos do Norte entupiam-se de índios de Piratininga. Do Rio, cada estação, chegavam bandos de mercantes de tapuias. Uma febre! Ora, exatamente contra isso, foi que se encapelaram os jesuítas. Esses homens aqui desembarcaram com entusiasmos galhardos. Traziam no peito, muito cândida, uma fervente chama evangelizadora. Ferre toa va-os essa límpida ambição de semear na alma bronzeada dos botucudos a palavra mística de Jesus. E enfiavam-se duramente pelo sertão. Aprendiam a língua dos brasis. Aldeavam-nos. Cristianizavam-nos. Mas um dia, depois de tão suada evangelização, lá vinham os paulistas -zás! — despenhavam-se como brutos sobre os aldeamentos, incendiavam, arcabuzavam, preavam as "peças", arrastavam-nas algemadas para S. Vicente.

Nessa faina, nesse período da caça, ajudados pelo seu gênio aventureiro, desbravador, foi que os bandeirantes conquistaram o Sul inteiro do Brasil. Foi graças ao atrevimento e à dureza desses homens ásperos, homens do seu tempo, que o Paraná, Santa Catarina, Rio Cirande do Sul, pertencem hoje ao território nacional. Foram eles, os intrépidos caçadores de bugres, que recuaram para muito longe o clássico meridiano de Tordesilhas. Foram eles, só pela sua audácia, os conquistadores da terra.

Deste choque de interesses — paulistas a prearem índios, jesuítas a escondê-los em seus aldeamentos — nasceu a briga memorável, essa luta sem tréguas que acirrou vermelhamente inacianos e piratininganos. Não houve meio de conciliação. Os paulistas estabeleceram, como ponto capital, esse direito, que reputavam intangível: o direito de se afundarem pelas brenhas e trazerem de lá os índios que bem encontrassem. Na defesa deste direito, ou antes, e melhor, na defesa destes seus interesses, mostraram os sertanistas do século XVII uma sobranceria acintosa. Não respeitavam ordens de governadores. Não respeitavam cartas régias. Não respeitavam desembargadores, nem enviados da corte, nem militares de patente graúda, nada! Defendiam as suas prerrogativas com arrogância desabalada. É só ver.

 

A ARROGÂNCIA DOS SERTANISTAS

Os jesuítas, então poderosíssimos, moveram céus e terras para meter um paradeiro à descida dos índios. Mandavam emissários aos ministros. Mandavam ao rei. Chegaram a mandá-los ao próprio papa! O provincial de S. Paulo escrevia, com lágrimas, ao Superior de Madri:

— "Meu padre! Tenha dó de nós. . . Vá falar a Sua Majestade, vá falar ao Senhor Conde de Olivares, vá falar aos senhores do conselho de Portugal! Não há força capaz de conter os paulistas de S. Paulo. Não temem excomunhões, não obedecem a cédulas reais, não fazem caso de Justiça de Deus, nem da dos homens". Tinha razão o Provincial! De nada valiam ordens da Corte. Já o desembargador Jácome Bravo saíra daqui, muito às escondidas, noite morta, tremendo de medo dos paulistas. O Dr. Antão de Mesquita, que trouxera alçadas abundantes, sofreu tais desfeitas, tão ameaçadores, que um dia, afinal, meteu o rabo entre as pernas e escapuliu num burrinho magro. Um capitão de infantaria, homem de muitas dragonas e galões, veio a S. Paulo com poderes excepcionais. Devia o militar, custasse o que custasse, obrigar os paulistas a guardar as ordenanças. Que é que sucedeu? O capitão alo-jou-se, mostrou a sua carta régia, fez propalar ao que vinha. Na manhã seguinte, logo ao acordar-se, topou o soldado com duas flechas cravadas na sua janela. Numa havia um pedaço de papel, com isto:

— "Vá-se embora. Não bula nessa história de bugres. Senão, haveis de ter estas duas flechas, não na
vossa janela, mas afincadas na vossa barriga…"

O capitão viu o melindre do caso. Ali, naqueles cimos, entre aquelas gentes bravias, era temeridade afrontar a sanha do povo hirsuto. Aceitou o aviso: enrolou a trouxa e tocou-se, à noite, caminho da serra do mar.. .

A mesma afronta, assim revolucionária, prepararam os paulistas ao Dr. Costa Barros. No dia em que chegou o homem, disposto a exemplar os de Piratinin-ga, todos os sertanistas amotinaram-se. Durante a noite, em frente à casa do enviado real, andavam bandos coléricos, aos berros:

— Morra o Dr. Barros! Morra o Dr. Barros! E lá
conta o padre Maceta: "Le tiraram arcabussassos a la ventana, y dieran muchos porraços en la puerta, incitando-lhe a que saliesse con sus soldados para matar-los".

E o bom do provincial, à vista de tais audácias, mandava lamúrias de enternecer:

— Mi padre procurador! En que tierra estamos?
Ni entre herejes y moros se hiziera esto!

 

DESAFOROS E DESAFOROS

Mas não se contentavam aqueles desbravadores barbaçudos, de olhos duros e mãos encoiradas, a desres-peitar capitães e desembargadores. Desabusavam eles, com desassombro herético, a religião e os padres. Eram desaforos e mais desaforos. Dos próprios jesuítas, que, nesses escuros tempos, infundiam por toda a parte o mais reverencioso respeito, zombavam eles com sarcasmos desprezadores. Por isso é que os inacianos bradavam: — É gente tão ímpia, que matam porco para comerem nas noites de sexta-feira, banqueteando-se, "haziendo vela, tocando a tambor e cuernos, menoscabando a los padres, diciendo que éramos uns pobre-tones…"

Eles mesmos, os paulistas, não escondiam as suas sobrancerías. Pascoal Moreira, em plena Câmara, dizia com ares cândidos:

".. .esta terra tem fama de "alevantada". E por qual razão? Por os homes irem para o Sertam…"

DELENDA S. PAULO!

A luta foi duríssima. Num dado instante, por um golpe de força, os bandeirantes chegaram ao máximo da rebeldia. Indignados contra os padres, vendo-os sempre ao lado dos selvagens, tiveram o incrível arrojo de executar esta coisa forte: expulsar os jesuítas de São Paulo. E expulsaram-nos! É claro que os catequizadores não perdoaram nunca esse achincalhe brutal da raça ímpia e bárbara. E nada mais explicável, por isso mesmo, o brado revolucionário do Superior do Paraguai implorando, clamando, vociferando por esta medida radical: arrasar S. Paulo. Destruir a cidade herética! Delenda S. Paulo! Lá está o grito feroz:

— Meu padre! Não há força capaz de resistir a esta gente. Não temem excomunhões, não obedecem Ordens do Rei, não fazem caso da Justiça de Deus nem da dos homens. Tenho como certo, meu padre, isto: ENQUANTO NÃO SE ARRASAR A VILA DE S. PAULO, não se há de pôr termo a estas tiranias e crueldades."

* * *

Assim, nesse período bruxuleante da vida paulista, os desbravadores, enlurados aqui na sua toca selvagem, erguiam a cabeça com altanaria indómita, desrespeitosos, defendendo os seus direitos com arrogâncias desabusadas.

Só mais tarde, findo o ciclo da caça ao índio, ao começar a arrancada para as pedras verdes, foi que os sertanistas abriram mão da luta. Novos interesses, novo drama. E esse, que é o mais fascinante episódio aventureiro da raça, não cabe num rodapé. Mas caberá num próximo romance: "A bandeira de Fernão Dias".

out 062007
 

DOS CANIBAIS
Michel de Montaigne (1533-1592)

Capítulo XXXI do Livro 1 dos Ensaios

Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada
Fonte: Clássicos Jackson

Quando o rei Pirro passou à Itália depois de ter reconhecido a organização do exército com que os Romanos iam defrontar o seu: “Não sei, disse, que género de bárbaros são estes (pois assim chamavam os Gregos a todas as nações estrangeiras) mas a disposição do exército que vejo não é de forma alguma bárbara”. O mesmo disseram os Gregos daqueles que Flamínio introduziu no seu país, bem como Filipe ao contemplar do alto de um cerro, a ordem e a distribuição do acampamento romano, em seu reino, sob Públio Sulpício Galba. Isto prova que nos devemos guardar das opiniões vulgares e julgar pelo caminho da razão e não pela voz geral.

Tive muito tempo comigo um homem que vivera dez ou doze anos nesse outro mundo que foi descoberto no nosso século, num lugar onde Villegaignon tocou terra, que denominou a França Antárctica. Esta descoberta de um país infinito parece ser coisa de muita consideração. Ignoro se, no futuro, outras se farão, visto que tantas pessoas que valem mais do que nós se têm enganado nisto. Receio que tenhamos os olhos maiores que o ventre, e mais curiosidade que capacidade. Abarcamos tudo, mas abraçamos apenas vento. Platão aprésenta-nos Solon contando haver sido informado pelos sacerdotes da cidade de Sais, no Egito, que, em tempos remotos de antes do dilúvio, existia uma grande ilha chamada Atlântida, à entrada do estreito de Gibraltar, que continha mais território que a Africa e a Ásia juntas; os reis daquele país, que não possuíam apenas essa ilha, mas cujos domínios por terra firme se estendiam tanto para o interior que eram senhores da largura da África até ao Egipto, e da longitude da Europa até à Toscana, quiseram chegar à Ásia e subjugar as nações banhadas pelo Mediterrâneo até ao golfo do Mar Negro: para isso, atravessaram as Espanhas, a Gália e Itália, chegando até à Grécia, onde foram detidos pelos Atenienses, mas que, pouco tempo depois, os mesmos Atenienses, a própria ilha e os seus habitantes foram tragados pelo dilúvio. É muito verossímil que essa extrema devastação das águas tenha produzido estranhas alterações nas diferentes regiões da terra, e diz-se que o mar separou a Sicília da Itália:

Hoec loca, vi quondam et vasta convulsa ruina, Dissiluisse ferunt, cum protinus utráque tellus Una foret;1

Chipre da Síria, a Ilha de Negroponto2 da terra firme de Beoce3; e, por outra parte, juntou terras que estavam separadas, cobrindo de limo e de areia os fossos intermédios,

sterilísque diu palus aptáque remis Vicinas urbes alit, et grave sentit aratrum.4

Mas não é muito provável que essa ilha fosse o mundo novo que acabamos de descobrir; tocava quase com a Espanha e seria uma convulsão incrível que a inundação a fizesse retroceder tanto, estando a mais de mil e duzentas léguas de distância; além disso, as navegações modernas já demonstraram que não se trata de uma ilha, mas de terra firme formando um continente com a Índia oriental de um lado e os territórios que ficam sob os dois pólos, do outro; ou que, se alguma separação há, o estreito ou intervalo é tão pequeno que não merece o nome de ilha.

Parece que há movimentos, uns naturais e outros febris, nesses grandes corpos como no corpo humano. Quando considero a pressão que o meu rio da Dordonha faz actualmente sobre a margem direita do seu curso, e que, em vinte anos, comeu tanto terreno que chegou a absorver os alicerces de alguns edifícios, avalio bem quão extraordinária foi aquela comoção, que, a continuar assim, ou a aumentar de intensidade, modificaria a configuração do mundo. Mas esses acidentes tanto se produzem numa direcção como em outra, como ainda se contêm. Não falo das inundações repentinas, cujas causas conhecemos. Em Medoc, ao longo do mar, meu irmão, o Senhor de Arsac, viu uma de suas terras engulida pelas areias vomitadas pelo mar; ainda se vêem os restos de algumas construções; suas rendas e domí nios são hoje miseráveis terras de pasto. Dizem os seus habitantes que, de algum tempo a esta parte, o mar tem avançado tanto que já perderam quatro léguas de ter reno. As areias formam as vanguardas; e vêem-se grandes montões de areia movediça, a meia légua do mar, que se vão acumulando sobre a região.

Outro testemunho da antiguidade, que alguns pretendem relacionar com esta descoberta, vamos encontrá-lo em Aristóteles, se é que esse livrinho das raras maravilhas a ele se deve. Conta-se nessa obra que alguns Cartagineses, lançando-se através do mar Atlântico, fora do estreito de Gibraltar, e depois de muito navegar, acabaram por descobrir uma grande ilha fértil, povoada de bosques e banhada de grandes e profundos rios, • a enorme distância da terra; e que esses Cartagineses e outros que se lhes seguiram, atraídos pela benignidade e exuberância do terreno, para lá se foram com suas mulheres e filhos começando a aclimatar-se ao país.

Vendo os senhores de Cartago que seu território se ia despovoando a pouco e pouco, proibiram expressamente, sob pena de morte, que ninguém mais se dirigisse para a ilha, e expulsaram os novos habitantes, receando, ao que se diz, que, andando o tempo, estes se multiplicassem tanto que os suplantassem e arruinassem seu Estado. Esta narrativa de Aristóteles também não está de acordo com as nossas novas terras.

O homem que eu tinha comigo era simples e rude, condição própria de um verdadeiro testemunho, porque os espíritos finos, conquanto observem com maior cuidado e maior número de coisas, costumam glozá-las; e, para tornar válida e persuasiva a sua interpretação, não resistem ao prazer de alterar um pouco a História; jamais apresentam as coisas puras e sempre as modificam e desfiguram conforme a aparência em que as viram; e para dar base de crédito à sua opinião e dela convencerem, adulteram a matéria de bom grado, alongando-a e ampliando-a. É preferível um homem de grande fidelidade ou tão simples que não tenha por que fantasiar e sacrificar o verdadeiro aspecto das coisas às suas falsas invenções; e que seja imparcial. Assim era o meu, e, para mais, fez-me conhecer em várias ocasiões marinheiros e comerciantes, que encontrara nessa viagem. Limito-me, pois, às suas informações sem me valer dos relatos dos topógrafos.

Necessitaríamos de topógrafos que nos descrevessem circunstanciadamente os lugares que visitaram. Mas, esses topógrafos, pelo facto de terem visto, por exemplo, a Palestina, julgam gozar do privilégio de nos dar notícias do resto do mundo. Gostaria que todos escreves sem do que sabem e tudo que sabem, não somente de viagens, mas de todos os outros assuntos. Acontece que alguns podem ter especial ciência e experiência da natureza .de um rio ou de uma fonte, e não saber do resto senão o que todos sabemos. Todavia, para divulgar esse pequeno quinhão de conhecimentos, aventuram-se a escrever toda a física. Deste vício decorrem vários e grandes inconvenientes.

Voltando ao meu assunto, creio que não há nada de bárbaro ou de selvagem nessa nação, a julgar pelo que me foi referido; sucede, porém, que classificamos de barbárie o que é alheio aos nossos costumes; dir-se-ia que não temos da verdade e da razão outro ponto de referência que o exemplo e a ideia das opiniões e usos do país a que pertencemos. Neste, a religião é sempre perfeita, perfeito o governo, perfeito e irrepreensível o uso de todas as coisas. Aqueles povos são selvagens na medida em que chamamos selvagens aos frutos que a natureza germina e espontaneamente produz; na verdade, melhor deveríamos chamar selvagens aos que alteramos por nosso artifício e desviamos da ordem comum. Nos primeiros, as verdades são vivas e vigorosas, e as virtudes e propriedades mais úteis e naturais do que nos últimos, virtudes e propriedades que nós abastar damos e acomodamos ao prazer do nosso gosto corrom pido. E, todavia, em diversos frutos daquelas regiões, que se desenvolvem sem cultivo, o sabor e a delicadeza são excelentes ao gosto, comparando-os com os nossos.

A arte não vence a nossa mãe natureza, sempre grande e poderosa. Temos sobrecarregado tanto a beleza e a riqueza das suas obras com as nossas invenções que a- destruímos completamente. Assim, ali, onde a sua pureza resplandece, ela constitui uma espantosa desonra para as nossas vãs e frívolas empresas,

Et veniunt ederae sponte sua melius, Surgit et in solis formosior arbutus antris, Et volucres nulla dulcius arte canunt. 5

Todos os nossos esforços juntos não podem reproduzir sequer o ninho do mais insignificante passarinho, sua contextura, beleza e utilidade, nem mesmo o tecido de uma mesquinha teia de aranha. Diz Platão que todas as coisas são obra da natureza, do acaso ou da arte; as maiores e as mais belas, produto de uma das duas primeiras; as mais insignificantes e imperfeitas, da última. Essas nações parecem, pois, bárbaras, simplesmente porque mal acusam ainda o rastro do espírito humano e estão muito próximas da sua ingenuidade original. As leis naturais que as regem estão ainda muito pouco adulteradas pelas nossas; mas há nisso tal pureza que lamento às vezes’ que delas não houvesse conhecimento antes, nos tempos em que existiam homens que as sabiam julgar melhor do que nós. Sinto que Licurgo e Platão não as tivessem conhecido, pois se me afigura que o que nós por experiência vemos nessas nações ultrapassa, não apenas todas as pinturas com que a poesia embelezou a idade de ouro da humanidade e tudo quanto se possa imaginar para tornar feliz a condição humana, mas ainda a concepção e o próprio objectivo da filosofia. Não imaginaram eles ingenuidade tão pura e simples como a que nós vemos nesse país; nem acreditaram que uma sociedade se pudesse manter com tão pouco artifício e tão pouca soldadura humana. É uma nação, diria eu a Platão, em que não existe género de tráfico, conhecimento de letras, ciência de números, nome de magistrado ou de outra dignidade que indique superioridade política, servidão, riqueza ou pobreza, contratos, sucessões, partilhas; de ocupações, apenas as agradáveis; de relações de parentesco, só as comuns; nem vestimentas, nem agricultura, nem metais; não bebem vinho nem cultivam cereais. Da mentira, da traição, da dissimulação, da avareza, da inveja, da maledicência, do perdão ignoram até a palavra. Quão distante desta perfeição julgaria ele a república que imaginou!

“viri o diis recentes”.6

“Hos natura modos primum dedit”7.

Vivem numa região do país muito aprazível e tão saudável que, segundo me dizem meus testemunhos, é raro encontrar-se lá uma pessoa doente; e asseguram–me também que nunca lá viram gente com tremuras, nenhum remelento, desdentado ou vergado sob o peso da velhice. Estão estabelecidos ao longo do mar, e defendidos do lado da terra por grandes e altas montanhas que se estendem a distância de cem léguas do mar aproximadamente. Têm em abundância carne e peixes, que em nada se assemelham aos nossos e que comem sem condimento, apenas assados. O primeiro homem que lhes apareceu montado a cavalo, embora já se tivessem relacionado com ele em várias viagens anteriores, causou-lhes tanto horror naquela postura que o mataram a setadas antes de o reconhecerem. Suas casas são muito compridas, com capacidade para duzentas ou trezentas almas. Cobrem-nas com a casca de grandes árvores, estão fixas à terra por um extremo e apoiam-se dos lados umas contra as outras, como algumas das nossas granjas; a parte que as cobre chega até ao solo, servindo-lhes de flanco. Têm madeira tão dura que a usam para cortar, e com ela fazem espadas e grelhas para assar os alimentos. Os leitos, feitos de tecido de algodão, estão suspensos do tecto como os dos nossos navios, e cada um ocupa o seu, porque as mulheres dormem separadas dos maridos. Levantam-se ao nascer do sol e comem logo depois, para todo o dia; porque não fazem outra refeição. Durante esta não bebem, como ‘ outros povos do Oriente, os quais, segundo Suidas, só bebem fora das comidas, mas várias vezes ao dia e abundantemente. Sua bebida é feita de certa raiz, e tem a cor dos nossos vinhos claretes. Só a bebem morna. Não se conserva senão dois ou três dias, tem o gosto um pouco picante, não sobe à cabeça, é boa para o estômago, e tem o efeito de um laxante para os que não estão habituados a ela, mas para os outros é muito agradável. Em vez de pão, comem determinada substancia branca, uma espécie de coentro açucarado. Provei-a; é doce e um tanto insípida. Passam o dia a dançar. Os mais moços dedi-cam-se à caça grossa, armados de arcos, enquanto uma parte das mulheres trata de esquentar a bebida, sua principal ocupação. H;á sempre um ancião que, de manhã, antes da comida, faz prédicas em comum a todos os habitantes da granjaria, passeando de um lado para o outro, e repetindo várias vezes a mesma exortação até dar a volta à casa (porque são construções que medem uns bons cem passos de comprimento). Só lhes recomenda duas coisas: valor para se defrontarem com os inimigos e amizade para as mulheres. E jamais deixam de ponderar esta última obrigação, repetindo sempre que são elas que lhes conservam a bebida morna e bem temperada. Pode-se ver em certos lugares, e entre eles em minha casa, onde tenho alguns, a forma de seus leitos, de seus cordões, de suas espadas e dos braceletes de madeira com que cobrem os punhos nos combates, bem como das grandes canas abertas em uma das extremidades e ao som das quais marcam a cadência da dança. Trazem a cabeça rapada e fazem a barba muito melhor do que nós, sem necessidade de outra navalha que não seja a madeira e a pedra. Crêem na eternidade das almas: as que merecem bem dos deuses repousam no lugar do céu onde o sol nasce, e as malditas no lado do Ocidente.

Têm não sei que espécie de sacerdotes e profetas que raras vezes se apresentam diante do povo e que vivem nas montanhas. Quando eles chegam, celebra-se uma grande festa, e uma assembleia solene, da qual participam vários povoados (cada granjaria, como já descrevi, forma um povoado, que fica distante do mais próximo uma légua francesa aproximadamente). O profeta fala-lhes em público, exortando-os à virtude e ao dever; mas toda a sua ciência ética se resume em dois artigos: resolução para a guerra e afecto às esposas. Fazem-lhes prognósticos sobre as coisas do futuro e os acontecimentos que devem esperar de suas empresas, encaminhando-os ou desviando-os da guerra. Mas, se falham no adivinhar, se acontece o contrário do que predizem, são presos, esquartejados em mil pedaços e condenados. como falsos profetas. Assim, o que uma vez se engana desaparece para sempre.

Adivinhar é um dom que só a Deus cabe dar; eis por que comete impostura digna de ser punida o que desse dom abusa. Entre os Citas, os adivinhos que se enganavam eram postos, de mãos e pés agrilhoados, em cima de carros de bois cheios de mato, e ali queimados. Nos que regem as coisas sujeitas à condição humana é per doável que façam tudo quanto podem para cumprir sua missão. Mas os outros, os que nos enganam com a infa libilidade de uma faculdade extraordinária que cai fora do nosso conhecimento, por que não castigá-los quando não mantêm o efeito de suas promessas, e pela temeridade de suas imposturas?

Fazem as guerras às nações situadas do outro lado das montanhas, terra a dentro; vão a elas completamente nus, levando como únicas armas arcos e espadas de madeira aguçadas na ponta, como as línguas dos nossos venábulos. É coisa de maravilhar a firmeza de seus costumes, que acabam sempre em mortandade ou em efusão de sangue, pois não sabem o que seja fuga ou pânico. Cada qual traz por troféu a cabeça do inimigo a quem deu morte, e pendura-a à entrada de sua casa. Depois de terem dado por algum tempo bom trato aos prisioneiros, facilitando-lhes todas as comodidades ao alcance de sua imaginação, o chefe congrega seus amigos em uma grande assembleia; ata uma corda a um dos braços do prisioneiro, segurando na outra ponta, a alguns passos de distância, com medo de ser ferido, e dá o outro braço a segurar, da mesma forma, ao melhor de seus amigos; então ambos o abatem a golpes de espada, perante toda a assembleia. Feito isto, assam-no e comem-no entre todos e enviam alguns pedaços aos amigos ausentes. Isto não é, como se poderia imaginar, para alimento, como os antigos Citas, mas sim para levar a vingança ao último extremo. E a prova é que, sabendo que os Portugueses, que se tinham aliado com os seus adversários, aplicavam outra espécie de morte aos canibais quando estes caíam prisioneiros, morte que consistia em enterrá-los até à cinta e assestar à parte descoberta grande número de setas, enf orcando-os depois, pensaram que, como eram gente do outro lado do mundo, e tinham propagado o conhecimento de muitos vícios entre os povos seus vizinhos e os avantajavam na mestria de toda a sorte de malícias, não realizavam sem razão aquele género de vingança mais dura que a sua, começaram a abandonar seu antigo método para adoptar aquele. Não me pesa acentuar o horror bárbaro que tal acção (significa, mas sim que tanto condenemos suas faltas e tão cegos sejamos para as nossas. Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo que morto, dilacerar com tormentos e martírios um corpo ainda cheio de vitalidade, assá-lo lentamente e arrojá-lo aos cães e aos porcos, que o mordem e martirizam (como vimos recentemente, e não lemos, entre vizinhos e concidadãos, e não entre antigos inimigos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e de religião) que em o assar e comer depois de morto. Crisipo e Zenon, chefes da seita estóica, opinavam que não havia mal nenhum em nos servirmos dos nossos semelhantes como alimento, se a necessidade a tal nos obrigasse; sitiados nossos antepassados por César na cidade de Alésia, resolveram obviar a fome do assédio com os corpos dos anciãos, mulheres e outras pessoas inúteis para o combate.

Vascones, fama est, alimentis talibus usi Produxere animas8

E os médicos não vacilam em usá-los de toda a sorte para a nossa saúde, quer pela aplicação externa, quer interna; mas não há opinião tão relaxada que desculpe a traição, a deslealdade, a tirania, a crueldade, que são os nossos pecados de todos os dias.

Podemos, pois, achá-los bárbaros em relação às regras da razão, mas não a nós, que os sobrepassamos em toda a espécie de barbárie. Sua guerra é toda nobre e generosa e tem tanta desculpa e beleza quanta se pode admitir nessa calamidade humana; seu único fundamento é a emulação pela virtude. Não lutam para conquistar novas terras, pois ainda desfrutam dessa liberdade natural que, sem trabalhos nem penas, lhes dá tudo quanto necessitam e em tal abundância que não precisam de alargar seus limites. Encontram-se ainda nesse estado feliz de não desejar senão o que as suas necessidades naturais reclamam; o que for além disso é para eles supérfluo. Geralmente, entre os da mesma, idade, chamam-se irmãos; filhos, os mais novos, e os velhos consideram-se pais de todos. Estes deixam a seus herdeiros a plena posse dos seus bens em comum, só com o título todo puro que a natureza concede a suas criaturas ao depositá-las no mundo. Se seus vizinhos transpõem as montanhas para os atacar e são vencidos, o único lucro do vitorioso é a glória e a mercê de os haver dominado em valor e virtude; aliás, de nada lhe serviriam os bens dos vencidos, porque quando regressa ao seu país nada lhe falta do que necessita, nem mesmo essa grande qualidade de se saber felizmente conformar com a sua con dição e viver contente com ela. O mesmo se dá com os outros. Para o resgate dos prisioneiros exigem-lhes apenas a confissão e o reconhecimento da derrota; mas não se encontrou um em todo um século que não preferisse a morte a quebrantar, de ânimo ou palavra, um só ponto da grandeza da sua invencível coragem, ou que não preferisse ser morto e comido a pedir clemência. Dão-lhes todas as comodidades imagináveis para que a vida.lhes seja mais grata, mas, ameaçam-nos frequentemente com a morte futura, com os tormentos que os esperam, com os preparativos feitos para tal fim, com a destruição dos seus membros e o festim que celebrarão à sua custa. Fazem tudo isso para lhes arrancar da boca alguma palavra de fraqueza ou de humilhação, ou os induzir a fugir, vangloriando-se então de os terem amedrontado e quebrantado a sua firmeza. Porque, em verdade, só nisto consiste a verdadeira vitória:

Victoria nulla est,

Quam quae confessos animo quoque subjugat hostes. 9

Os Húngaros, mui bélicos combatentes, depois de reduzido o inimigo à sua mercê não o perseguiam mais. Logo que lhe arrancavam semelhante confissão, deixavam-no ir sem lhe fazer mal ou pedir resgate; somente — e era o máximo a que chegavam — lhe exigiam palavra que, de futuro, jamais se levantaria em armas contra eles.

Das vantagens que alcançamos sobre nossos inimigos, muitas são méritos alheios e não nossos. Mais próprio é de um carregador que da virtude ter braços e pernas rijas; a boa disposição para a luta é uma qualidade corpórea sem valor; da sorte depende fazer fraquejar o nosso inimigo e deslumbrá-lo com o sol da vitória; ser perito em esgrima é virtude da arte e da ciência que pode estar ao alcance de qualquer covarde ou de pessoa de insignificante valia. A estimação e o preço de um homem consiste no coração e na vontade; é aí que reside a sua verdadeira honra; a valentia é a firmeza, não das pernas e dos braços, mas da coragem e da alma; não consiste no valor do nosso cavalo, nem das nossas armas, mas no nosso. O que cai obstinado em sua coragem, “si siicciderit, de genu pugnat” 10; o que, apesar do perigo da morte próxima, não descuida um só ponto de sua segurança; o que, ao exalar o último suspiro, ainda fita o inimigo com vista firme e desdenhosa, será batido, não por nós, mas pela sorte; será morto, mas não vencido.

Os mais valentes são às vezes os mais desafortunados.

Assim, há derrotas triunfantes que equivalem a vitó rias. Nem mesmo essas quatro vitórias gémeas, as mais formosas que jamais se deram à luz do Sol, a de Sala-mina, Plateia, Micala e Sicília, se poderiam opor, com toda a sua glória conjunta, à derrota do rei Leónidas e dos seus no passo das Termópilas.

Quem, triunfando em combate, obteve glória tão viva e invejável como o capitão Iscolas em sua derrota? Quem preparou a sua salvação com tanto engenho e cuidado como ele a sua ruína? Estava incumbido de defender contra os Arcádios certa passagem do Peloponeso. Sentindo-se de todo incapaz, dada a natureza do lugar e a desigualdade das forças, e convencido de que o inimigo tinha todas as vantagens a seu favor; julgando, por outra parte, indigno da sua própria virtude e da magnanimidade do nome de lacedemónio falhar em sua missão, adoptou entre os dois extremos o meio termo seguinte: reservou os mais moços e decididos de seu exército para a defesa e serviço de seu país, ordenando-lhes que par tissem; e preparou-se para defender o desfiladeiro com aqueles cuja falta não era tão importante, fazendo, à custa da sua morte, pagar a passagem ao inimigo o mais caro possível, o que aliás aconteceu. Vendo-se rodeado por toda parte pelos Arcádios, entre os quais fez terrível carnificina,’ele e todos os seus foram passados à espada. Onde existe troféu de vencedor que não fosse mais digno destes vencidos? O papel de quem verdadeiramente vence é lutar, e não salvar a vida; a honra consiste em bater-se, e não em bater.

Voltando à nossa história, os prisioneiros, longe de se renderem diante do que se lhes faz, conservam um ar alegre nos dois ou três meses que estão em poder do inimigo; incitam seus donos a apressar-lhes a morte; desafiam-nos, injuriam-nos, lançam-lhes em rosto a sua covardia e o número de batalhas por eles perdidas contra os seus. Conservo uma canção feita por um desses prisioneiros, onde se encontra este lance: “Que venham todos quanto antes, e se reúnam a comer minha carne, porque comerão ao mesmo tempo a de seus pais e avós, que outrora alimentaram e nutriram meu corpo. Estes músculos, diz ele, esta carne e estas veias são as vossas, pobres loucos; não reconheceis que a substância dos membros dos vossos antepassados ainda está em mim’? Saboreai-os bem, que acháreis o gosto da vossa própria carne”. Nesta composição não se adverte por forma alguma a barbárie. Os que os pintam moribundos e os representam no momento do sacrifício, pintam o prisioneiro cuspindo na cara de seus matadores e fazendo-lhes visagens. Em verdade, não deixam até ao último suspiro de os insultar e desafiar por palavras e obras. Eis aqui, sem mentir, homens completamente selvagens em contraste conosco; porque ou eles o são na realidade, ou o somos nós. Há uma enorme distância entre a sua maneira de ser e a nossa.

Os homens possuem várias mulheres, e tantas mais quanto maior for a sua reputação de valente. Entre os casados, é coisa bela ,e digna de nota que o zelo, que nossas mulheres põem em nos evitar a amizade e a benevolência das demais, põem as deles em lhas adquirir. Prezando a honra dos maridos sobre todas as coisas, usam da maior solicitude em agenciar o maior número possível de companheiras, pois quanto maior for o número destas melhor será o testemunho das virtudes do marido.

Para as nossas mulheres, isto poderá parecer absurdo; mas não, é uma virtude própria do matrimónio e do mais alto grau. Já na Bíblia, Lia, Raquel, Sara e as mulheres de Jacob entregaram aos maridos suas formosas criadas; e Lívia secundou os desejos de Augusto em proveito próprio. Estratónice, mulher do rei Dejótaro, não so mente deu para uso do marido uma belíssima moça de câmara que a servia, como educou os filhos de ambos com suma diligência, e ainda os ajudou a herdar os Estados do pai.

E, para que não se pense que tudo isto obedece a uma simples e servil obrigação a que estão ligadas, ou a qual quer espécie de antiga submissão à autoridade dos maridos, à falta de discernimento e cordura, ou a terem a alma tão entorpecida que não são capazes de mais, mostremos alguns traços da sua inteligência. Além do que já citei de uma de suas canções guerreiras, conservo outra, amorosa, que começa assim: “Detém-te, cobra; detém-te, para minha irmã tirar do padrão de tuas cores o modelo e o desenho de um rico cordão que quero dar a minha amiga; que a tua beleza e condição sejam sempre louvadas entre todas as serpentes”. Esta primeira estrofe é o estribilho da canção. Ora, eu tenho bastante convívio com a poesia para julgá-la, e parece-me que não somente nada há de barbárie em sua inspiração, mas que é também completamente anacreôntica. A linguagem, aliás, é doce e de som agradável, parecenclo-se nas terminações com a língua grega.

Três daqueles homens, ignorando o quanto pesará um dia em seu repouso e felicidade o contacto com as nossas corrupções, e que do conhecimento destas nascerá a sua ruína, — o que, de resto, já deve ter acontecido, visto a loucura de se deixarem iludir pelo desejo de verem coisas novas, abandonando, pelo nosso, a doçura do seu céu, — chegaram a Ruão quando ali se encontrava Carlos IX. O Rei departiu com eles longo tempo. Mostraram-lhes os nossos costumes, nosso luxo, o que era uma bela cidade. Depois, alguém pediu-lhes a opinião sobre o que mais os havia surpreendido. Responderam que três coisas, das quais esqueci a terceira, o que muito lamento; mas duas ficaram-me na memória. Disseram que, em primeiro lugar, achavam muito estranho que tantos homens importantes, de grandes barbas, fortes e bem armados como aqueles que rodeavam o Rei (é muito provável que se referissem aos Suíços da guarda real) rendessem obediência a uma criança em vez de escolher entre eles um para os comandar. Em segundo lugar (têm uma forma de falar que divide os homens em duas partes), tinham reparado que havia entre nós pessoas cheias e fartas de comodidades de toda ordem, enquanto a outra metade mendigava a suas portas, descarnada de fome e de miséria; e que lhes parecia também singular como essa outra metade podia suportar tamanha injustiça sem estrangular os demais e lançar fogo a suas casas.

Falei com um deles durante muito tempo; mas tinha um intérprete que me seguia tão mal, e cuja estupidez velava tanto as minhas ideias, que pouco prazer recebi de tal conversa. Ao perguntar-lhe que vantagens lhe dava a superioridade que tinha sobre os seus (porque era um Capitão, a quem nossos marinheiros chamavam Rei), respondeu-me que a de ser o primeiro a partir para a guerra; inquirindo-o sobre o número de homens que o seguiam, marcou com o dedo um espaço da cidade para significar que tantos quantos ali cabiam, isto é, entre quatro a cinco mil homens; se, fora das lides da guerra, toda a sua autoridade cessava, disse que ainda lhe ficava. o privilégio, quando visitava os povoados que dele dependiam, de-se lhe abrirem os caminhos através do matagal dos bosques, por onde podia passar muito à vontade.

Em tudo o que aí fica dito não há nada de mau; o que há é que esta gente não usa calções.

1 “Diz-se que essas terras foram separadas por violenta convulsão, e que até então formavam um sô continente”. (Virgílio, En., III, 414).

2 A Eubeia.

3 Beócia.

4 “E uma laguna, muito tempo estéril e navegável, alimenta hoje as cidades vizinhas e suporta o peso do pesado arado”. (Horácio, Arte Poética, 65).

5 A hera cresce melhor sem cultivo, e o medronho brota mais formoso nos lugares solitários, e o canto das aves, por não ter artifício, não é menos doce”. (Propércio, I, II, 10).

6 “Homens que acabam de sair das mãos de Deus”. (Sêneca, Ep., XC).

7 “Eis as primeiras leis que a natureza deu”. (Virgílio, 10, Georg., II, 20).

8 “É fama de que os Vasconços prolongaram suas vidas nutrindo-se de tais alimentos”. (Juvenal, XV, 93).

9 “A única verdadeira vitória é aquela que, dominando a alma do
inimigo, o força a confessar-se vencido”. (Claudiano, De sexto Consulatu
Honorii,
248).

10 “Se caíres, combate de joelhos”. (Séneca, De providentia, c. 2).

Texto em francês